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Três apontamentos sobre a vida

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Uma mulher que decide refugiar-se na casa de campo de uma amiga para tentar compreender e escrever sobre uma maldição que faz das mulheres das suas famílias, desde há cinco gerações, profundamente infelizes. Um homem que volta à sua terra, à ilha de São Miguel, nos Açores, para cumprir uma missão que lhe foi confiada pelo avô, que já morreu. Uma jovem que vive numa família problemática - o irmão tem um tumor cerebral, a mãe, católica devota, maltrata-a, o pai abandonou cedo a família e o tio é um perverso - e que mergulha nos meandros da sua consciência terrivelmente abalada. Eis os livros que se destacam na nossa estante esta semana

Helena Bento

Jornalista

“Paraíso”

"Paraíso", autor: Tatiana Salem Levy, editora: Tinta-da-China, páginas: 152; preço: €15.21

"Paraíso", autor: Tatiana Salem Levy, editora: Tinta-da-China, páginas: 152; preço: €15.21

Ana vivia em paz, em relativa tranquilidade, "certa de que a felicidade exigia o esquecimento", até o passado mergulhar pela sua rotina adentro. A maldição lançada por uma escrava – antes sacerdotisa e princesa de uma tribo africana – que atingia as mulheres da sua família desde há cinco gerações, voltava a atormentá-la, e não havia nada que ela pudesse fazer para se livrar desse peso.

Decide, então, refugiar-se na casa de campo de uma amiga, Mercedes, para tentar compreender e escrever sobre aquela profecia que ditava que as mulheres da sua família, naturais da região de Vassouras, no Rio de Janeiro, fossem infelizes; talvez assim conseguisse libertá-las "das palavras proféticas" da sacerdotisa. Ana viverá durante algum tempo isolada nesse lugar, até conhecer um jovem, Daniel, que procura respostas para a morte do avô, judeu, que esteve num campo de concentração durante o Holocausto.

"Paraíso", publicado no Brasil em 2014, é o terceiro romance de Tatiana Salem Levy, depois de "A Chave de Casa", livro de estreia, em 2008, vencedor do Prémio São Paulo de Literatura, e "Dois Rios", editado em 2012 pela portuguesa Tinta-da-China e finalista dos prémios PT e São Paulo de Literatura. A escritora brasileira publicou ainda dois livros infantis, "Curupira Pirapora" (Prémio FNLIJ) e "Tanto Mar" (Prémio ABL), tendo sido recentemente eleita pela revista Granta como uma das mais promissoras vozes brasileiras da literatura contemporânea.

“Céu Nublado com Boas Abertas”

"Céu Nublado com Boas Abertas" autor: Nuno Costa Santos editora: Tinta-da-China páginas: 256; preço: 16,60€

"Céu Nublado com Boas Abertas" autor: Nuno Costa Santos editora: Tinta-da-China páginas: 256; preço: 16,60€

Embora "Céu Nublado com Boas Abertas" seja o seu primeiro romance, Nuno Costa Santos, nascido em 1974, está longe de ser um novato. Já foi dramaturgo, fez humor para teatro, criou programas de TV e radiofónicos. É autor de livros de poesia, crónicas e contos, e ainda da biografia "Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco", sobre o escritor português.

Neste seu romance de estreia, um homem volta à sua terra, à ilha de São Miguel, nos Açores, para cumprir uma missão que lhe foi confiada pelo avô, João Pereira da Costa, que já morreu: a de recolher histórias recentes dessa terra.

Há, aqui, um duplo diálogo - com o avô, que esteve internado na estância do Caramulo nos anos 40, tendo-lhe deixado todos aqueles escritos, e com o presente, com as personagens com que o protagonista, durante a sua deambulação, se vai cruzando: um navegador francês, um traficante de droga, uma stripper ruiva que oferece os seus serviços de massagista num jornal local, um homem que regressa para cumprir uma antiga vingança, um leitor voraz de Kafka que descobriu que o escritor tinha o sonho de viver nos Açores, um casal chinês que procura encontrar o seu lugar na ilha.

Gonçalo Mira, crítico de literatura do Ípsilon, do jornal Público, compara Nuno Costa Santos a W. G. Sebald, o grande mestre alemão, pelo recurso à publicação de fotografias e à relação que elas estabelecem com o texto, mas não só por isso. "'Céu Nublado com Boas Abertas' não é viciante, mas é viciante. O fio do passado, antigo e datado, empolga-nos, ao passo que o fio do presente, actual e imprevisível, embala-nos. É de todo este jogo diegético, da mestria narrativa com que Nuno Costa Santos aguenta a ficção e a não-ficção, no seu registo Sebald-urbano-depressivo, que se faz um notável romance de estreia."

“Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada”

"Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada" autor: Neimear McBride editora: Elsinore páginas: 256; preço: 17,69 €

"Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada" autor: Neimear McBride editora: Elsinore páginas: 256; preço: 17,69 €

A expectativa em torno do romance, recém-publicado pela Elsinore, continua a ser enorme. Eimear McBride, a autora, nascida em Liverpool em 1976, tem sido considerada a grande revelação de língua inglesa da última década, e o livro, "Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada", um romance breve mas de grande intensidade, é já considerado um clássico, tendo sido galardoado com diversos prémios.

"Um futuro clássico. Inevitavelmente comparável ao cânone irlandês - os monólogos de Beckett, o solilóquio de Molly Bloom de Joyce em Ulisses, e a prosa ontogenética de Retrato do Artista quando Jovem - e às vanguardistas britânicas e irlandesas: Edna O'Brien, Virginia Woolf, Ann Quin", escreveu Joshua Cohen, escritor norte-americano, no "New York Times".

Narrado na primeira pessoa por uma jovem, da qual não sabemos o nome, que vive numa família problemática - o irmão tem um tumor cerebral, a mãe, católica devota, maltrata-a, o pai abandonou cedo a família e o tio é um perverso - o romance de estreia de Eimear McBride é uma viagem aterradora e íntima pelos meandros de uma consciência profundamente abalada.

Embora tenha sido escrito em apenas seis meses, foram precisos nove anos e dezenas de recusas e outras dezenas de silêncios para que o romance fosse finalmente publicado pela Galley Beggar Press, uma editora sediada em Norwich, onde McBride, filha de irlandeses, vive com o marido e a filha.