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Tons de azul

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BLUES "Mississipi" John Hurt

d.r.

Reinaldo Serrano

Uma primavera indecisa não significa necessariamente indecisão sobre como ocupar o tempo; neste sentido, a música, essa arte nobre transversal aos povos e objeto de discussão intemporal sobre o gosto de cada um, pode assumir um papel de relevo no que concerne à passagem das horas. Encontrar novidades, descobrir o que a força das "playlists" tornou oculto, surpreeender com a revelação, todo este processo de (boas) intenções pode constituir genuíno momento de prazer, objetivo primeiro e último da modesta coluna de opinião.

Seguir este caminho (tão questionável como qualquer outro) é chegar ao território de "Mississipi" John Hurt. Não se trata, obviamente, de cruzar o nome de um emblemático estado norte-americano com o de um não menos emblemático ator britânico, mas desvendar a obra de um importante nome no vasto universo dos "blues" que, da América, chegaram aos quatro cantos do mundo.

Neste nasceu no longínquo ano de 1892 a figura e o legado de John Smith Hurt, muito provavelmente o mais ilustre filho de Teoc; a localidade do Mississipi transferiu-se para o nome que foi lenda num registo muito peculiar de "blues". Foi, aliás, o estilo inconfundível no canto que tornou a obra do também exímio guitarrista numa figura singular do género. A influência do "gospel" e a suavidade do timbre conferiram a "Mississipi" John Hurt um lugar sem pararelo num estilo de música com traços muito marcantes e um leque de nomes que fazem parte, sem esforço, da discoteca dos inúmeros apreciadores. Justamente para os que o não são, creio que a música deste mestre do "blues" pode ser uma excelente e ampla porta de entrada para um género musical injustamente reduzido a figuras cujo mediatismo relegou para segundo plano muitos nomes que deviam figurar em primeiro.

Homem simples no trato e na vida, "Mississipi" John Hurt repartiu a música com a sua atividade de trabalhador rural, que nunca desdenhou e a quem entregou boa parte do tempo. Nascido numa localidade com menos de 100 habitantes, no meio agrícola de um estado martirizado pelas questões da escravatura e do racismo, o músico e cantor construíu engenho e arte na sua obra, transposta para um estilo de canto suave e cálido, aparentemente contraditório com a raiva, a denúncia e a dor de alma de alguns artistas do "blues".

Pese embora a sua arte tenha visto a luz do dia no início da década de 1920, John Hurt só foi formalmente descobreto em 1927 quando, depois de um breve período de trabalho nos caminhos de ferro, foi convidado para uma audição numa gravadora; gravou 8 temas, mas só dois viram na época a luz dia. Foi, ainda assim, o princípio de uma carreira que havia de estender-se até à década de 60 do século passado. Foi, aliáse somente a partir dos anos 50 que a figura do músico emergiria no panorama musical norte-americano, saindo da quase obscuridade em que havia vivido, longe do "mainstream" e olhado com alguma estranheza até por parte dos seus pares, que assim se juntavam ao pensamento de público e crítica. Só que o chamado "blues revival" da década de 50 voltou a descobrir e, deste modo, a impulsionar o som da América negra e alcandorá-lo ao nível do qual estava injustamente arredado. É deste modo que títulos como "Avalon Blues: the Complete 1928 Okeh Recordings", "Candy Man Blues", "Coffee Blues" ou "Rediscovered" são absolutamente obrigatórios para os fãs, recém-iniciados ou curiosos do "blues".

O legado de "Mississipi" John Hurt perpetua-se graças à fundação com o seu nome. Criada em 1999 pela neta do artista, esta instituição sem fins luccrativos destina-se a preservar a memória do notável intérprete, bem como a ajudar, através da música e da pedagogia, a juventude mais problemática e mais desfavorecida do estado dos quatro "s" e quatro "i".

Aqui fica, pois, o convite para um mergulho suave no universo de "Mississipi" John Hurt, difícil de encontrar no mercado lusitano, mas amplamente difundido foram das nossas fronteiras. Destaque para os três álbuns editados com uma chancela de reconhecido prestígio: "The Library of Congress Recordings" oferece-nos 2 volumes e 3 discos com o singular som e talento de um nome maior do "blues" ainda à espera da justa divulgação por parte de vários mercados de música, entre os quais o do nosso burgo.