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Elogio da Moura

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Ana Moura. O Coliseu do Porto é uma sala tão mítica como a mais mítica das salas, quando canta a Moura

RUI BANDEIRA

Vivemos sempre sem pedir licença
Eram tempos de desfado. De um Portugal perdido na fatalidade de um destino quando todos partilhávamos da muito pessoana convicção de querer o destino que não crêssemos no destino. Líamos revistas. Procurávamos descobrir o longe. Tudo se passava para lá do horizonte visível. Sabíamos de ouvir contar. Sabíamos perder-nos no desejo de sonhar. Em busca de não sabíamos bem o quê. Mas sonhávamos.

Cada dia é um bico d'obra
Pensávamos.
Uma carga de trabalhos
Sentíamos.
Faz-nos falta renovar
Proclamávamos.
Cantávamos cantigas proibidas
Desafiávamos.

A revista "Mundo da Canção" trazia-nos novas de Adriano Correia de Oliveira, Patxi Andión, Lèo Ferré, Pi de la Serra, José Afonso, Georges Brassens, Pete Seeger, Doors, José Mário Branco, Bob Dylan, Chico Buarque, Jacques Brell, Manuel Freire, Steelye Span, Elisa Serna, Pink Floyd, The Who, Serge Reggiani, Donovan, Sérgio Godinho, Luís Cilia. Feita no Porto, a revista acentuava o deserto do Porto. Onde nada acontecia. Onde nada tinha a lúcida luminosidade dos grandes encontros ali revelados. Onde nunca aportava qualquer daqueles nomes. Uns por estarem proibidos. Outros por serem proibitivas as condições de acesso.

Tudo era para ser eterno

Assim parecia aos mais descrentes. Até chegar um tempo novo, agora já demasiado antigo. Tão velho que será necessário falar de jornais já desaparecidos. Devorávamos o “Sete”, o grande semanário cultural nascido com a liberdade. Fora criado no âmbito de “O Jornal”, também finado e do qual acaba por nascer, num complexo processo de rotura e continuidade, a revista Visão. Ansiávamos pelos suplementos do “Diário de Lisboa”, não dispensávamos a abordagem cultural de “o diário”, tentávamo-nos, mais tarde, com a contraditória (apesar de tudo) irreverência de “O independente”. Falavam de concertos. Contavam suculentas histórias de atuações inesquecíveis. Sacralizavam salas. Entronizavam públicos.

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Como uma nuvem no céu

Sentíamo-nos abandonados na imensidão do oceano. Nada deve ser pior do que a condenação à não existência. Víamos emocionantes e inesquecíveis concertos no Coliseu, durante anos e anos a única sala existente no Porto com condições aceitáveis. Vivíamos noites guardadas para sempre no baú das memórias mais arrebatadoras. Mas eram recordações solitárias. Não partilhadas com a memória coletiva. Os jornais e revistas falavam de gloriosos concertos dos Trovante, de Chico Buarque, Elis Regina, numa infindável lista de nomes, nacionais e estrangeiros, quase sempre fixados para a história com uma marca tão inconfundível como, a partir de determinada altura, exasperante. Diziam-nos que aquele sim, fora o concerto do ano. O concerto do Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

O amor não se nega nem a quem nega o seu

Não tínhamos raiva ou inveja do “tal” concerto lisboeta. Mas incomodáva-nos essa persistente tentativa de anular pelo silêncio a nossa paixão. Também no Coliseu do Porto sabíamos viver noites únicas. Irrepetíveis. Para nós, e para os artistas. Noites inexistentes no espaço mediático. Não era, para nós, dramático. Não era, para nós, decisivo. Mas era uma forma de ser truncada aquela nossa entrega.

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Havia um desespero intenso na sua voz

Tudo isto desfilou como num filme de imagens poderosas durante o último concerto de Ana Moura no nosso Coliseu, na passada sexta-feira. O do Porto. Aquele que, num gesto sem paralelo no país, levou a população a criar uma grande cadeia de solidariedade e unidade para o preservar como sala se espetáculos. Aquele onde também acontecem enormíssimos concertos. Momentos únicos. Instantes de uma rara beleza. Como quando Ana, a Moura, com a sedução a acariciar uma voz capaz de rasgar pétreas indiferenças, consegue espaços de frágil intimidade e momentos de explosão festiva.

Sou do fado

Ela o diz. Mesmo se viaja por muitas sonoridades. Cria ambiências envoltas em inusitada beleza. Percorre ritmos novos. Procura palavras outras. Acolhe o deleite da poesia. Intensa. Verdadeira. Afasta-se da banalidade dos conceitos. Nos gestos, nos movimentos, no ondear do corpo, há toda uma entrega. Toda uma vivência. Todo um afetuoso deslizar pelas harmonias brotadas dos segredos contidos naquele jeito de sussurrar a vida.

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Não hesitava um segundo

Se pudesse voltar a vê-la e ouvi-la. Por estes dias, e depois de Londres, anda por São Francisco, Nova Iorque, Boston e tantos outros locais. A 3 de junho estará de novo na Invicta para atuar no Festival Caixa Ribeira. Ainda assim, se pudesse voltar a vê-la e ouvi-la, seria ali, naquela sala de tantas memórias. Ali, no Coliseu do Porto, onde, sempre que volta, faz da glória de cantar, uma arrebatada declaração de amor. Largada ao vento. Oferecida a quem a ouve. A quem a vê. A quem a sente. A quem a pressente. A quem sabe como da noite só nascem amores efémeros. Nem será verdade. Podem nem ser consertos únicos. Mas é a nossa efémera verdade. São os nossos concertos. Exclusivos. Irrepetíveis. É a Moura do nosso contentamento.

NOTA: Todas as frases em itálico são versos de fados de Ana Moura