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O concerto dos AC/DC tem tudo para ser histórico

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AC/DC. A substituição de Brian Johnson por Axl Rose tem tanto de espectacular como de controverso. Mas as circunstâncias obrigam a que o resultado seja superlativo

d.r.

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Na história da música popular, são raríssimos os casos de sucesso quando sucedem trocas de vocalistas. Entre aqueles com êxito, mas em circunstâncias trágicas, podemos esquecer a substituição de Ian Curtis por Bernard Sumnner nos Joy Division/New Order. Mas são bastante mais os falhanços, senão mesmo desastres, quando chega a hora de contratar um novo cantor.

Os AC/DC são, por sinal, uma das poucas bandas que conseguiram essa façanha quando, depois da morte de Bon Scott, ofereceram o lugar de cantor a Brian Johnson. O mesmo que agora se vê, depois de lhe terem sido diagnosticados problemas de audição, trocado por Axl Rose. Uma substituição que é, sem sombra de dúvida, espectacular mas que tem gerado controvérsia desde domingo passado logo que foi anunciada, pouco antes de os regressados Guns N'Roses subirem ao palco no festival de Coachella.

Porém, para se perceber o que se está a passar vale a pena esquecer durante um minuto as manifestações de pesar que uma imensa maioria tem trazido para as redes sociais e para todo o lugar onde pode dar largas à sua indignação. Será que os fãs que agora se veem contrafeitos preferiam qualquer outro cantor? Ou mesmo que a digressão europeia, que começa em Portugal a 7 de maio, fosse cancelada?

Não é crível. Nem do lado dos fãs, nem do lado dos principais interessados. Os montantes envolvidos numa gigantesca produção, como esta a que os AC/DC vão dar início, impedem que ela se torne um “flop”. E substituir o vocalista por um zé ninguém traria resultados certamente duvidosos.

Façamos as contas à faturação do concerto que vai acontecer em Algés: a lotação de sessenta mil lugares está há muito esgotada, tendo os bilhetes sido vendidos por 65 euros. Ora, trata-se, só neste dia, de um valor muito próximo dos quatro milhões de euros.

Então porquê Axl Rose? Por duas razões muito simples: porque é bom para os AC/DC e porque é ótimo para os Guns N'Roses. Estes, que acabaram de regressar, têm de ganhar a confiança dos promotores de concertos em todo o mundo para conseguir vender o seu concerto pelo balúrdio que estão a pedir. Vale a pena recordar as notícias que dizem que os Guns N'Roses cobraram oito milhões de dólares pelas duas atuações no festival de Coachella.

Para afastar o fantasma dos cancelamentos, das entradas em palco tarde e a más horas e dos concertos fracassados como no Estádio de Alvalade, os Guns N'Roses — ou Axl Rose — precisam de comprovar que estão aí para as curvas e que são capazes de oferecer um dos espectáculos mais esperados (e mais caros) à face da terra. Assumir o papel de vocalista dos AC/DC é essa prova dos nove que os Guns N'Roises (ou Axl Rose) necessitavam para dar credibilidade à digressão que vão levar por diante este ano e no próximo.

Por seu lado, os AC/DC também sabem muito bem que o negócio da música está, por estes dias, todo do lado dos concertos. E assim é porque a música gravada se vulgarizou desde o advento digital. Nunca foi tão fácil aceder à música, seja por meios ilegais seja por um streaming que, na pior das hipóteses, custa sete euros por mês. Nestas circunstâncias, os concertos têm de se revestir de um total ineditismo. Têm que funcionar obrigatoriamente como uma experiência única e inolvidável. Só assim é possível cobrar os cachets milionários que hoje são praticados e custear as produções mirabolantes que hoje vemos serem montadas num palco perto de si.

Ora, para se conseguir esse efeito de experiência inesquecível, nada melhor do que uma rock star de alto perfil e com o carisma de Axl Rose para ocupar o lugar do cantor que está de saída. Os interesses das duas partes convergem pois ambos estão sobejamente interessados num negócio de muito milhões que hoje é o principal pilar de toda a indústria da música e, claro, da sua própria carreira.

Os fãs podem não concordar, para já, com este alinhamento de estrelas algo suspeito. Estão certamente desconfiados. Alguns já manifestaram a sua intenção de vender o bilhete que adquiriram já lá vão meses. Mas os que chegarem ao Passeio Marítimo de Algés irão sair de lá com a sensação de ter presenciado um acontecimento histórico.

Por uma razão muito simples: a parada está tão alta que o falhanço ou mesmo as meias tintas não serão permitidas aos AC/DC ou a Axl Rose. Não servem a uns nem a outros. Aposto singelo contra dobrado que essa será uma grande noite.