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Del Paso, o génio que escreve “para testemunhar as lutas humanas”

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JAVIER LIZON/AFP/Getty Images

O escritor que diz rir, chorar, bocejar, tossir e espirrar em castelhano foi o sexto mexicano a ser distinguido com o Prémio Cervantes. E aproveitou a visita a Madrid para travar mais uma luta: denunciar a situação vivida no seu país

Del Paso começa assim: “No México as coisas só mudaram para pior. Continuam os assaltos, as extorsões, os sequestros, os desaparecimentos, os feminicídios, a discriminação, os abusos de poder, a corrupção, a impunidade e o cinismo.” E continua: “criticar o meu país num país estrangeiro dá-me vergonha.” É essa vergonha que leva consigo para a cerimónia de entrega do Prémio Cervantes, que recebeu este sábado na Universidade de Alcalá de Henares, em Madrid.

Deslocando-se numa cadeira de rodas na sequência do seu estado de saúde débil, não há luta que o romancista mexicano canhoto, que escreve com a mão direita, não trave. Para ele, como sublinhou o ministro espanhol da Cultura, Iñigo Méndez Vigo, a literatura e a memória são “instrumentos essenciais para testemunhar as lutas humanas.” E o México é um combate que também é seu, que o escritor não deixa de encarar de frente, de apontar o dedo, de criticar a alto e bom som.

O vencedor do Prémio Cervantes, e autor de “José Trigo” (1966), “Palinuro de México” (1977) e “Noticias del Imperio” (1987), criticou ainda a aprovação da “Lei Atenco”, uma “lei opressora” que permite à polícia deter e “disparar em manifestações e reuniões públicas que atentem, segundo o seu critério, contra a segurança, a ordem pública, a integridade, a vida e a propriedade.”

Criado em 1979, o Prémio Cervantes distingue o percurso de um escritor que, com a sua obra, tenha contribuído para dar mais riqueza à herança literária hispânica. Del Paso, o escritor que diz rir, chorar, bocejar, tossir e espirrar “em castelhano”, é aos 81 anos o sexto mexicano a ser distinguido com o galardão.

As suas palavras são, mais do que um trocadilho com uma nota de humor, uma declaração de amor ao seu idioma: “Choro em castelhano; quando me rio, mesmo às gargalhadas, rio-me em castelhano e quando bocejo, tusso ou espirro, tusso e espirro em castelhano. E não é apenas isso: também falo, leio e escrevo em castelhano.”