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Verdade e falsidade na Madeira

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João Carlos Santos

A sexta edição do festival literário levou ao Funchal cerca de quatro dezenas de participantes, distribuídos por cinco dias

Luís M. Faria

Jornalista

Não é frequente sentirmos o poder dramático da poesia de forma física, perante os nossos olhos. Aconteceu no último dia do Festival Literário da Madeira (FLM), mais precisamente no jantar que a organização ofereceu aos participantes após a sessão final de encerramento. Durante o café, que foi no bar do restaurante, o diseur Pedro Lamares leu alguns poemas de autores portugueses.

O segundo, de Filipa Leal, era um texto sobre um jovem que vai para fora do país, abandonando a família:

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala

O poema mistura despedida e morte, dando relevo a objetos que projetam sentimentos:

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas

A leitura, com dicção e timing impecáveis, foi em crescendo emocional. A certa altura vimos uma jovem começar a chorar na sala. Era um choro convulsivo, imparável, que a obrigou a sair da sala para se acalmar. Quando regressou, esperou algum tempo até pedir, em tom quase de desculpa, que não lessem mais poemas de Filipa Leal.

Estalagem da Ponta do Sol

Estalagem da Ponta do Sol

CHAPMAN BROWN

O jantar foi na Estalagem da Ponta do Sol, um lugar imponente que fica a cerca de meia hora do Funchal. Chegados ao local, sobe-se através de um elevador que fica numa rocha. Parece que é tradição acabar ali os festivais e este ano não fugiu à regra. O FLM vai na sexta edição e já tem os seus rituais. Outro são as frequentes intervenções do seu fundador, o advogado italiano Francesco Valentini, instalado na ilha há duas décadas.

Valentini trabalha como consultor fiscal de empresas, num território onde estas acorrem a partir de múltiplos lugares, incluindo Itália. Em 2010, juntou aos seus labores a fundação de uma editora, a Nova Delphi. Da editora nasceu o festival, cuja extensão o torna um pouco mais longo do que o habitual (contando os dois dias iniciais dedicados à escolas, foi uma semana ao todo) e com um elenco de participantes onde, a par de escritores de língua portuguesa, como Ondjaki, Mia Couto, Ana Luísa Amaral e Afonso Cruz, houve outros de países como a Síria, a Índia e o Reino Unido (mais precisamente, o país de Gales), além de jornalistas (Paulo Moura, Rafael Marques) numa conferência sobre Direitos Humanos, e ainda dois concertos com Jorge Palma. Tudo no Teatro Municipal Baltazar Dias, mesmo no centro do Funchal.

Decorria a Festa da Flor, e o tempo ainda não se tornara húmido e penoso. Numa cidade relativamente pequena como o Funchal, podiam aproveitar-se os intervalos das sessões para ir conhecer mais um exemplar da arquitetura histórica vizinha, ou das ruas populares que ficavam para cima. Lá em baixo, o lendário café Golden Gate podia estar fechado, mas o fantasma de Ferreira de Castro – que lhe chamava a esquina do mundo – andava por ali. Por mais que as ondas de turistas teimassem em não dar por ele.

Quem também pairava era Alberto João Jardim, ou pelo menos a sua herança. Quando chegamos à Madeira não esperamos ver um balão gigante com a cara dele no céu – mais facilmente veríamos a de Cristiano Ronaldo – mas a obra do antigo presidente do Governo Regional está por todo o lado. Desde logo, nos numerosos túneis que se atravessam para chegar à cidade ou a muitos pontos na ilha. Há quem se queixe de essa forma de circulação não permitir ver a paisagem, mas parece que antes as viagens demoravam uma eternidade. Numa ilha montanhosa com 57 quilómetros por 23, atravessar de um lado ao outro podia levar um dia inteiro. Agora é mais rápido, e isso favorece o turismo, tal como os hotéis que se veem por todo o lado.

Na zona onde nos instalaram, o Lido, ficam alguns dos mais luxuosos. Quem se limita a circular entre essa zona e o centro do Funchal pode ficar com uma ideia da Madeira como uma espécie de Mónaco português. Na verdade, basta deixar o litoral e começar a subir para encontrar uma realidade bastante diferente. A pobreza ainda está espalhada, e a mobilidade social é limitada por fatores vários. Segundo nos disseram, um aluno de famílias modestas que queira concluir o liceu fora da via profissional pode ver-se impedido por não ter dinheiro para pagar os transportes que o levariam a um liceu lá mais em baixo. Há subsídios para esse fim, mas o modo como são medidas oficialmente as distâncias na prática limitá-los-á. Dez quilómetros medidos a direito não são o mesmo que os trinta ou quarenta quilómetros que o percurso na estrada implica.

Em termos sociais, a Madeira parece continuar bastante estratificada. Pudemos constatar algo disso mesmo durante as escassas horas que durou o passeio todo o terreno organizado pelo turismo local. A par da riqueza da flora – o território tem fama de paraíso botânico e justifica-a – viam-se aqui e ali flashes de outra Madeira. Uma das mais impressionantes foi a de um velho que levava às costas um molho de longos ramos de árvore, cujo peso à partida devia ser imenso, e era aumentado pelo facto de estarem molhados. Atarracado e com roupa gasta, o homem era uma imagem de outro mundo, num cenário de luxúria vegetal que ainda minutos antes nos fazia ceder à tentação culpada de recolher amostras.

Lídia Jorge

Lídia Jorge

Tiago Miranda

O Festival Literário da Madeira dá a sua contribuição para democratizar a cultura. Embora não exista, que se saiba, um programa para transportar gente do interior da ilha até ao teatro, houve as referidas visitas a escolas, aliás habituais nos festivais literários hoje em dia. E o público no teatro tinha alguma diversidade. A entrada era livre, sendo apenas necessário levantar bilhete. Umas sessões estiveram mais cheias, como a de abertura e a final (com Lídia Jorge, tipicamente segura e fluente), outras menos, como algumas nas tardes dos dias seguintes. Isso refletia não apenas variações na própria disponibilidade das pessoas, como também, naturalmente, o apelo dos temas e dos participantes. O tema global era “Falsidade e Verdade na Ficção Literária”, mas dentro disso cabia praticamente tudo.

Dois dos estrangeiros, ambos publicados pela Nova Delphi, tratam temas relacionados com o universo islâmico. Tabish Khair, um indiano de 50 anos, escreveu “Como Combater o Terrorismo Islâmico na Posição Missionária”, um romance passado na Dinamarca, onde ele vive. Os personagens são três homens igualmente oriundos de fora, um hindu e dois muçulmanos (um deles radical, o que gera elementos de desconfiança, em vários sentidos). A síria Samar Yazbek, por sua vez, é uma pacifista e ativista dos direitos das mulheres que se viu obrigada a deixar o seu país por causa da guerra, embora pertença à comunidade alauita, a mesma do presidente Assad. O seu livro “A Travessia: Viagem do Coração Despedaçado da Síria”, é um trabalho de jornalismo onde o único personagem ficcional é o próprio narrador, que se encontra com habitantes de aldeias, combatentes e outras pessoas, em cenários muitas vezes de horror.

Esteve igualmente no FLM um escritor galês, Cynan Jones, autor da novela “A Cova” (Cavalo de Ferro) sobre um homem que enviuvou recentemente. Como outros livros do autor, é um texto de escrita intensa cuja ação decorre num cenário rural e assume a forma de alegoria. Jones assumiu a sua inexperiência e falta de à-vontade em eventos como aquele em que se achava, tendo começado a sua intervenção (no debate sobre Alteridade) a dizer que se calhar estava no painel errado… Claro que o desvio em relação aos temas nominais em debate é mais ou menos de rigor nos festivais literários, e o festival não fugiu à regra. Mesmo um debate cuja frase-mote parecia mais simples de entender (“Mais vale escrever para si e não ter público do que escrever para o público e não se ter a si”) acabou por falar mais sobre editores enquanto autores do que sobre os autores propriamente ditos.

O debate sobre religião, além de Khair, que admitiu que ele e Deus se deixavam mutuamente em paz, intervieram Afonso Cruz, António Loja e Bruno Vieira Amaral. O cinema foi discutido por Sandro William Junqueira, Ivo Ferreira, Cláudia Clemente e Margarida Vila-Nova. A biografia, por Ana Cássia Rebelo (cuja longa história de depressão alimenta uma obra de invulgar franqueza, inclusive sexual), António Tavares, Nuno Costa Santos e Gabriela Ruivo Trindade. Por fim, num dos momentos altos do festival, houve um debate sobre Direitos Humanos, onde estavam o padre Anselmo Borges, o jornalista Paulo Moura, a escritora Maria Manuel Viana, que leu com veemência um texto sobre violência de género, e o ativista angolano Rafael Marques.

Sendo um genuíno herói contemporâneo, um homem de coragem a quem o tempo deu e continua a dar razão – acontecimentos recentes em Luanda vieram reforçá-la ainda mais – Rafael Marques é uma figura popular. Entre as histórias que contou, havia uma passada numa cadeia onde ele esteve, sobre presos a jogar cartas ao lado de um cadáver. Marques tem a aspiração de um dia ver os seus netos porem em dúvida o que ele agora escreve; se isso acontecer, será sinal de que a situação em Angola mudou o suficiente para tornar inacreditável, mesmo em retrospetiva, a realidade atual. Ouvia-se pessoas a comentar que teria sido melhor ouvi-lo numa sessão autónoma. Sem desprimor para os outros participantes no debate, é difícil discordar.