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Pedro Claúdio, um camaleão de energia excecional

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João Carlos Santos

Pedro Cláudio, um dos nomes mais importantes da fotografia de moda nacional, morreu esta madrugada no Hospital Pulido Valente, onde estava internado há cerca de três semanas. Tinha 51 anos

Recorda Sérgio Mah, curador de fotografia, diretor da Lisbon Photo e da PHotoEspaña, sobre o amigo que acabou de morrer: "Fez trabalhos incríveis de moda, de vídeo. Era um camaleão na forma como utilizava a linguagem das imagens, porque tinha uma energia fantástica e excecional. Acredito que teria voado muito longe se tivesse sido fotógrafo em Nova Iorque".

Pedro Cláudio fez parte dessa geração criativa e fulgurante de fotógrafos que nos anos oitenta lideraram a cultura das imagens que acompanharam a revolução editorial operada em Portugal. Tal como Inês Gonçalves, Álvaro Rosendo e Daniel Blaufuks, Pedro Cláudio começou a publicar trabalhos no semanário "Independente", passou pela revista "K", cresceu como fotógrafo de moda nas revistas "Elle" e "Marie Claire" e afinou-se na elaboração de catálogos que acompanhavam as criações dos "novos" estilistas: Nuno Gama, José António Tenente, Filipe Faísca, Mário Matos Ribeiro...

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Para Paulo Gomes, produtor e crítico de moda, "o Pedro era,entre todos, o mais experimental. Crescemos juntos. Trabalhámos durante mais de quinze anos. Era um ser intenso, que pesquisava, refletia, elaborava. Dávamos grandes passeios a pé – a falar, a falar – até ele encontrar uma solução e começar a fazer um trabalho.

Uma vida breve

Nasceu em Torres Vedras em 1965 e mudou-se para Lisboa em meados dos anos oitenta para estudar Design de Comunicação na Escola de Belas Artes. Três anos depois, fazia o seu primeiro editorial de moda no semanário "Independente ". Ainda nesse ano participou na primeira edição da Moda Lisboa, produziu, dirigiu e desenhou a "Revista Estética", agarrando a oportunidade como se agarra o tempo quando se tem pouco mais de vinte anos. Deixou a sua marca impressa nas páginas de moda com uma linguagem saturada de cor, produzida em filmes ou em imagens feitas a partir de polaroids, rompendo com a sua luz um universo onde dominava o preto e branco.

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Logo aí se percebeu que Pedro Cláudio não se contentaria em ser um simples fotógrafo de moda ou de publicidade, agarrado às produções de jornais. A moda faz parte de um conceito mais abrangente, a partir do qual se pode olhar o mundo e ser um criador. Pedro Cláudio escreveu: "A fotografia de moda não existe, a moda é que utiliza a fotografia e utiliza tudo enquanto ideário para a produção de imagens – o cinema, a música, a literatura". Era também um grande consumidor de música e de linguagens experimentais, e dedicou-se simultaneamente, novamente de forma intensa, a elaborar capas de discos para músicos portugueses – entre eles Belle Chase Hotel, Xutos & Pontapés, Orelha Negra, Júlio Resende, Sam The Kid.

Nos últimos anos fez sobretudo videoclips, igualmente experimentais, depurados, como nos explica Paulo Gomes: "Eram ideias traduzidas em imagens". Mas nunca teve a pretensão de ser um artista. Nele, o mais importante é isto: "Nunca ir pelo caminho mais fácil, sempre mais à frente, fugir do óbvio", partilha o produtor. "Perder o Pedro é como perder parte do meu passado."

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