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O Princípio de Prince

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Ethan Miller/getty

Há coisas que todos nós sempre quisemos saber sobre ele: que altura tem? Deitou-se com aquelas mulheres? Quem são os pais? E de que cor são? Quem é o alfaiate dele? Julga-se o Napoleão? O Mozart? Afinal, o que todos sabemos é que ele foi um génio... No dia em que Prince Roger Nelson morreu, republicamos um texto de 5 de agosto de 1989

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Acertaram. Trata-se de uma entrevista exclusiva a uma grande e poderosa revista dada por uma estrela habitualmente em reclusão e inacessível a qual gerou uma mitologia e que, por coincidência mesmo antes de publicar um (à escolha: livro? Filme? Disco?)resolve pôr os pontos nos is e queixar-se da vidinha e suas dificuldades, mormente a falta de privacidade das estrelas. E um número que nunca falha, seja o seu autor Elizabeth Taylor, Michael Jackson ou Prince Roger Nelson. E a Rolling Stone, desesperada por uma entrevista ao ídolo das multidões, caiu redonda nesta armadilha de adulações e lugares comuns. Passava -se a coisa em 1985, e Prince preparava-se para dar a volta ao mundo com o álbum Around The World in a Day. Parece ter sido uma das últimas confissões públicas do génio de Minneapolis, hoje definitivamente transformado em homem-morcego, super-milionário, e senhor dos reinos cavernosos de Paisley Park, uma super-oficina musical onde ele mistura sons e insónias.

Aposta dupla Prince é um príncipe. Os mesmos críticos que o assassinaram depois de Purple Rain e Under the Cherry Moon reclamam-se os redescobridores do seu génio em papel de jornal e revista. E com Batman, o príncipe consegue jogar (com trunfo e sem trunfo) em duas mesas sem perder a parada: um álbum de Prince que não é um álbum de Prince; música encomendada por Tim Burton (o realizador do filme) sob a influência de Jack Nicholson (The Joker); a Warner Brothers a esfregar as mãos de contente. Se não é o melhor LP de Prince, é pelo menos a melhor banda musical do ano. Se não é o melhor LP de Prince é porque não é um LP de Prince, que depois de Lovesexy tinha decidido repousar. Se não é o melhor LP de Prince tem pelo menos uma das melhores canções de Prince (Partylover para os da Warner, Scandalous para outros). Se não é o melhor vídeo de Prince é porque não vai ser o único vídeo de Prince tirado de Batman, prevêem-se outras espetacularidades filmadas nos cenários da metrópole Gotham City, algures nos arredores de Londres. Nada se perde.

What you always wanted to know...

Munidos destes considerandos moralistas e puritanos, podemos então dedicar-nos ou não a saber se vale pena comprar o livro de Dave Hill Prince, a Pop Life. Afinal, até os simples proprietários de discos de Prince, os seus humildes fanáticos, gostariam de saber umas coisinhas sobre o rapaz. Por exemplo: que altura tem ele ao certo? É anão? É mulato? A mãe é italiana? Veio do ghetto? A androginia e ambiguidade sexuais escondem ardentes perversões ou medonhas ineficácias? Deita-se com mulheres? Deita-se com aquelas mulheres? Deita-se com Sheena Easton? Odeia ou não Michael Jackson? É fã (como o da Motown) de Elizabeth Taylor? É paranoico? Sofre do síndroma de Napoleão? Tem a mania do incesto e do sexo oral? Finge que tem a mania? Ouve coisas durante o sono? Tem insónias? É «bad»?É tão «bad» como o outro? Gasta muito dinheiro em roupa? Quem é o alfaiate dele? Quantos guarda-costas tem? O que acontece se um deles quebra o segredo e resolve «cantar» para um tabloide as intimidades do patrão? Tem noiva? Toma drogas? Tem psiquiatra? É erótico? Caótico? Robótico? E por aqui fora...

Afinal, que ele é um génio é exatamente o que todos sabemos. Esportulados mais de dois mil escudos ficamos como dantes. Dave Hill, crítico de música com peneiras, começa por observar porque é que condescendeu em escrever um livro sobre a vida de Prince contando os seus princípios: nunca lhe tinha passado pela cabeça mas a Faber contratou-o. E a Faber, é a Faber. Por acaso, é de averiguar porque é que a seríssima editora de Eliot, tradicionalmente pouco fascinada por «pop lifes» se interessou por Prince. Mas, se averiguarmos o suficiente, encontramos na Faber o nome Pete Townshend, ex-Who, autor, editor, e o quebra-cabeças acaba por fazer sentido.

Recapitulando, a Faber pegou em Dave Hill («Gostaram muito de uma crítica a um concerto de Prince que escrevi no Observer») e pô-lo em campo, ao largo de Minneapolis, algures no meio da América, «à la recherche du Prince perdu». E Dave Hill autojustifica-se vais: era a oportunidade de dar uma dentada num bom naco de jornalismo de investigação, sério, profundo, árduo.

Aqui chegados, já percebemos a verdade insofismável: Prince não colaborou nem «autorizou» a biografia. Não meteu ali prego nem estopa, não galgou o muro de silêncio para falar com o jornalista e, pelos vistos, nem suspeitou da manobra de agressão à sua clausura. O corolário disto é que se Prince não colaborou, ninguém que hoje trabalhe com Prince colaborou, visto que o pacto profissional tal como o pessoal é inviolável (quem fala é posto na rua, um método preservativo, seguro, que Michael Jackson e Bruce Springsteen também utilizam com êxito, ao contrário da família real inglesa).

Aqui chegados, já percebemos que Dave Hill inverte posições e transforma uma ausência fundamental do livro, o seu protagonista, num pretexto para uma sólida investigação não oficiosa ou caucionada. O problema é que para lá do cimento de Paisley Park mandam os que lá estão, de modo que o trabalho investigador se limita a umas esparsas conversas com antigos vizinhos do ghetto de Minneapolis onde Prince nasceu e viveu na adolescência, e a umas frases de um ou dois ressentidos à mistura com os devotos de His Royal Badness. Ninguém importante que partilhasse a última década da vida de Prince, incluindo as famosas mulheres (Vanity, Jill Jones, Wendy e Lisa, Sheila E, Sheena Easton...) e os famosos «managers» de apelidos italianos, Steve Fargnoli e AlbertMagnoli. O resto é o trabalho de coligir dados e criticar, como qualquer crítico, a principesca produção desde Soft and Wet, o primeiro e sugestivo «single» do génio de Minneapolis.
Seguem-se as ilações do costume: a excelsa qualidade de Lovesexy ou Sign 'O' the Times; a atitude bizarra do compositor; a imagem bizarra do cantor; o genuíno convencimento de que é o Mozart da música pop com medo de ficar igualzinho ao Elvis (já imaginaram Prince GORDO?)

«Clean» e sombrio

O estilo não é mau; é seco, aborrecido. Dave Hill não tem sentido de humor e está demasiado ocupado a tentar ser escrupuloso e objetivo com fontes de informação necessárias e insuficientes. Apura-se que Prince é «clean» e é contra as drogas, trabalha 24 horas por dia, tem problemas com a altura, é sensível ao feminino, é fã de Elizabeth Taylor, tocou uma vez num palco com James Brown e Michael Jackson ao mesmo tempo, deita-se com mulheres até prova em contrário (Vanity disse a um tabloide inglês, citado por Dave Hill, que ele era especial, o melhor, o máximo!); tem um medo patológico.

Andou no liceu como toda a gente e jogava futebol com agilidade; o pai era — e é — pianista e arredondava os fins de mês com um emprego na Honeywell Computers; era negro; a mãe era negra; a família era unida e continua unida no projecto Paisley; não falam com jornalistas. Não falarão com jornalistas. De uma das mais fantásticas invenções dos anos 80, Prince Roger(s) Nelson, manipulador de corpos e máscaras, e das fantasias eróticas e «dirty minds» da multidão anónima, não obtemos um esboço ou o princípio da história. Sinto-me ludibriada, mas não mais ludibriada que quando os críticos musicais, com a terminologia complacente que se habituaram a utilizar para rotular os génios, dizem como a Rolling Stone disse que um dos discos dele era um «Rabelaisian achievement». Passava-se isto em 1980.

Nove anos depois, o manto pesado do secretismo continua a envolver as andanças de um adulto com corpo de criança, olhos assustados, sexo incaracterístico, hábitos de morcego. A biografia de Jon Bream “Inside the Purple Reign”, também não fez luz num reino de sombras onde a única coisa clara é a pele de Prince e o seu princípio: a saturação do ego. Se ele trilha por onde trilharam Marvin Gaye e Stevie Wonder, também trilha por onde os anjos não têm medo de trilhar. Alguém sugeriu uma vez que os morcegos eram os anjos dos ratos. E de génio!