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Fazer a Festa do teatro com menos apoios e mais resistência

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D.R.

Festival de teatro criado no Porto há 35 anos avança sem apoio da autarquia, apresenta propostas oriundas de vários países e presta homenagem a Mário Viegas

André Manuel Correia

São dez os dias dedicados à celebração da arte dramática. A partir de amanhã e até 1 de maio realiza-se a 35.ª edição do Festival Internacional de Teatro “FAZER A FESTA”, com espetáculos de dança, ‘performances’, música, exposições, encontros, tertúlias… e, claro está, o teatro é sempre protagonista, como já acontece desde 1982. O evento, disperso pelo Porto e a Maia, apresenta, este ano, 17 propostas culturais e presta ainda homenagem a Mário Viegas e ao crítico Manuel João Gomes.

O “Fazer a Festa” é o terceiro festival internacional mais antigo do país e no início do milénio foi agraciado com uma medalha de mérito cultural por parte da Câmara Municipal do Porto. Entre os anos de 1990 e até à data daquela distinção deu-se a “época de ouro”, como explicou, em entrevista ao Expresso, o diretor artístico José Leitão. “Todas as grandes companhias passaram pelo festival. Era bastante querido junto da classe teatral e levava 10 mil pessoas ao Palácio de Cristal”.

Atualmente, o contexto é bem diferente. Já não se realiza no Palácio de Cristal, já não atrai 10 mil pessoas e esta será a terceira edição consecutiva em que o “Fazer a Festa”, organizado pela companhia Teatro Art’Imagem, não vai contar com qualquer apoio da câmara do Porto. José Leitão admite as “grandes dificuldades” para continuar a garantir um festival com a “dignidade” que todo o historial exige e considera a falta de interesse por parte da autarquia algo que pertence ao “domínio do insondável”.

Ainda assim, para além das cinco companhias portuguesas, o festival traz também artistas internacionais, provenientes do Brasil, Cabo Verde e Espanha, mais concretamente da Galiza, região habitualmente representada em edições anteriores. “A Galiza está, neste momento, a fazer bom teatro, tem um conjunto bastante interessante de novas companhias e uma escola teatral a funcionar muito bem. E, portanto, nós queríamos consolidar essa aposta”, reiterou o diretor artístico do “Fazer a Festa”.

Entre os Jardins da Casa das Artes, no Porto, e o Auditório da Quinta da Caverneira, na Maia, são vários os espetáculos, das mais variadas tipologias, como peças de teatro de câmara e de rua, ‘performances’, espetáculos de dança, novo circo e solos de palhaços, leituras de peças e contos, bem como sessões de música e poesia.

Autópsia ao festival seguida de um “Bum!”

Esta sexta-feira, 22 de abril, a “festa” começa a ser feita no Teatro Carlos Alberto, no Porto, com a exposição “Para lá da Memória dos 35 Anos do Fazer a Festa”, patente até 1 de maio.

O festival foi, em tempos, “uma importante festa do teatro português, e o primeiro Festival Internacional que anunciava a primavera teatral na cidade”, realça a organização. Através de fotografias, vídeos, programas e cartazes de edições passadas o público terá a oportunidade de perceber todo o percurso e simbolismo do festival, atualmente a atravessar um outono rigoroso.

Esta mostra é feita de “lembranças, erranças e naveganças”, e constitui uma forma de recordar o passado e de fazer um ponto da situação atual do festival, que “já passou por diversas fases, melhores e piores e foi resistindo à espera de melhores dias, mas estes teimam em não chegar”, lamenta José Leitão.

A exposição é inaugurada às 15h e, posteriormente, às 18h, no mesmo espaço, dá-se um “Bum!”, performance de António Lagos, com a colaboração e participação de Alexandre Osório e Susana Quicca. “Um jogo de aniversário, com orquestra, bolo, balões, foguetes, champanhe e animações. Um espaço encerrado para a livre circulação. Há por fora um universo negro que rasteja à espera. Há limites, há barreiras, há confusão”, anuncia a organização.

Também no Teatro Carlos Alberto decorre dia 26, terça-feira, a homenagem ao crítico Manuel João Gomes e na quarta-feira é a vez de Mário Viegas ser recordado. O ator que, nas palavras de José Leitão, tinha um “carinho especial” pelo “Fazer a Festa”, chegou mesmo a apresentar no festival o espetáculo “Europa Não! Portugal Nunca!”, uma sátira a uma hipotética candidatura à Presidência da República. “Enquanto se está à espera de Godot por que não falar de um rapaz chamado Mário Viegas?”, é este o repto lançado pela organização para uma tertúlia onde vão ser lidos vários textos do homenageado. As sessões dedicadas aos dois autores vão decorrer ambas às 17h.

Para esta 35.ª edição o orçamento foi de 65 mil euros e apenas 15 mil foram provenientes de apoios públicos. Em 2015, estiveram presentes sensivelmente 3000 pessoas no festival, muito longe dos números alcançados noutros tempos.

Após o término desta edição, José Leitão garante que vai contactar diretamente o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, de forma a tentar obter o apoio da autarquia já para o próximo ano. Caso isso não se verifique, “começa a não fazer sentido realizar-se no Porto, se a autarquia não considera importante o festival”, conclui.