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E se fosse consigo? Carlão e Boss AC explicam como é (ou como seria)

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Jose Carlos Carvalho

Carlão e Boss AC falam sobre o processo de criação da música ‘E Se Fosse Consigo?’ que suporta o novo programa da SIC, com o mesmo nome. Uma conversa em que cabe o mundo, dos problemas do racismo ao papel da música na construção de um mundo melhor

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

Fotografias

Fotojornalista

Carlão e Boss AC reencontraram-se ao fim de 11 anos para criarem uma música para o programa “E Se Fosse Consigo?”, da SIC. A proposta foi aceite de imediato até porque, nesse mesmo dia, tinham estado juntos na apresentação de um festival onde ambos iam atuar e onde tinham planeado voltar a fazer um trabalho juntos. 'E Se Fosse Contigo' é o nome desse trabalho, que se estreia com a mais recente aposta da informação da SIC

Quando o desafiei para fazer a música para o programa, tinha o desejo de que quisesse trabalhar com o Boss AC, mas não sabia até que ponto isso seria possível. Foi quase o destino que veio dar uma ajuda?
Carlão (C) — Sim, e eu acredito muito em ir atrás do momento, daquilo que vai acontecendo na nossa vida. O que aconteceu foi um desses momentos. Nesse mesmo dia, de manhã, encontrei-me com o AC na apresentação de um festival, em que ambos éramos artistas convidados, e ele disse-me que devíamos planear fazer qualquer coisa juntos. Uma hora depois encontrei-me consigo. Quando me propôs fazer a música, percebi que essa era a oportunidade, que surgiu muito mais rápido do que eu poderia imaginar. Não é ser místico, mas acho que muitas vezes devemos aceitar os momentos que a vida nos proporciona. Agora já estou a pensar em fazer mais trabalhos com o AC. Já saíram coisas boas daqui.

Boss AC (AC) — Mal ele me ligou a dizer que gostava muito que eu fizesse a música, eu disse: “Estou dentro". E ainda nem sabia exatamente o que era o programa. Foi tudo muito simples, foi um processo diplomático, democrático e fluido entre todos. Fizemos a música com um propósito, o programa, mas podia fazer parte de um álbum dele. O que ela expressa é aquilo que nós somos.

Como é que se trabalha para chegar ao propósito de pôr as pessoas a olhar para elas próprias? Não há um botão em que se carrega.
AC — O ambiente da música, mesmo sem palavras, traz-me imagens. Quando discutimos em conjunto o que queríamos dizer, logo ali imaginei drama. E a partir daí já tinha uma noção de para onde me queria dirigir. Tinha de ser uma música que não fosse lenta nem muito rápida. Num segundo momento, mostrei ao Carlão algumas músicas que já tinha feito — ele já tinha a letra — e a segunda ou terceira opção foi o instrumental que acabou por ser o final. Como estávamos a correr contra o tempo, o mais difícil era escolher a música.

Vocês estavam numa fase de trabalho mais intensa, com o Carlão a preparar o lançamento de 'Na Batalha' e o AC a preparar um novo trabalho que vai ter um single para muito breve, mas meteram-se nisto sem hesitar.
C — Acho que participar e ter noção do que se passa à nossa volta é a maneira certa de estar aqui. Apesar de não ter visto o programa, que ainda estava a ser preparado, não tive receio de confiar no resultado. Se por dez pessoas que não tenham reação, e sejam indiferentes, houver uma que se chega à frente para ajudar, acredito piamente que isso vai ter um efeito positivo. Acho mesmo que qualquer um pode fazer o mesmo da próxima vez porque tem esse bom exemplo.

A partir da abordagem do programa, a vossa música também olha para várias formas de exclusão e discriminação. Foi um exercício que tiveram de fazer? Pôr-se no lugar de quem passa por grande sofrimento por causa dos outros?
C — Tentei pôr-me na pele de cada uma dessas pessoas que são desrespeitadas nos seus direitos mais elementares. Acho que em algumas situações é mais difícil e tenho até algum receio de não estar a defendê-las bem. Fiz esse exercício mas não sei se consigo ter noção do sofrimento que a exclusão, a humilhação, ou certas formas de violência ou intolência provocam. Por exemplo, fico quase com indisposição física só de pensar mas nunca vou saber o que é ser uma mulher que é espancada pelo companheiro ou uma rapariga que é agredida pelo namorado.

AC — Embora Portugal se bata por ser de brandos costumes, a discriminação existe, racial, social, ela está aí, acontece. Por exemplo, sobre o racismo já falei muito, já falei tanto que chegou uma altura em que me cansei de falar disso. Muitas das coisas que tenho dito ao longo dos anos são contadas na primeira pessoa mas ainda há muito para mudar. O racismo é um bocado o elefante branco no meio da sala que toda a gente finge que não vê. Já é tão comum que quase não o notamos.

Jose Carlos Carvalho

Quando é que se aperceberam de que a cor era uma questão?
AC — Lembro-me de que, em criança, apanhava o elétrico para ir para a escola e um dia comecei a a falar com uma senhora que estava na paragem. Entretanto, chegou um dos elétricos e ela, quando se despediu de mim, disse: “Você é tão simpático e fala tão bem, nem parece preto”. Eu tinha uns 11, 12 anos. Só mais tarde é que tive noção de que a cor me podia marcar. Antes disso, todas as recordações que tenho do facto de ser negro são de atitudes ingénuas. Os colegas na escola, por exemplo, gostavam de mexer no meu cabelo, que era "fofinho". Não era discriminação no sentido negativo mas, depois, quando chega a adolescência, passa a ser diferente. É uma altura em que também estou perdido nas minhas raízes. Vou conhecer Cabo Verde aos 13 anos e não sinto que sou de lá e comecei a questionar-me. Felizmente, o rap entrou na minha vida e cheguei à conclusão de que eu posso ser tudo: a minha identidade é africana e portuguesa, uma não tem de se sobrepor à outra.

C — E eu tenho uma coisa muito estranha que ainda complica mais. Ter a pela clara, ser loiro quando era puto, era ainda pior do que ser preto. Era o preto russo e até já escrevi isso em canções. Durante boa parte da minha vida, pensei que não pertencia mesmo a lado nenhum mas acho que isso acabou por ser muito bom. Descobri que, seja pela cor ou por outra qualquer razão, não há “lado nenhum” nesta coisa de ser pessoa, mas antes disso vivi várias situações em que percebi claramente que o preconceito existe. Pais de namoradas que as impediam até de se relacionar comigo. Outros que faziam tudo para boicotar a relação. Mas nunca nenhum me confrontou diretamente, até me cumprimentavam. Nas costas é que se manifestavam. São padrões instituídos há muito tempo mas tem havido mudanças. Nunca pensei, por exemplo, assistir no meu tempo de vida à eleição de Obama. Num país onde ainda há cerca de 50 anos a segregação estava enraizada de uma maneira inacreditável.

Hoje vocês são pais. A possibilidade de as vossas filhas poderem passar por situações semelhantes preocupa-vos?
AC — Tudo isso me assusta mas vou fazer o melhor que puder. E no que depender de mim quero passar-lhe os valores do respeito e da tolerância. Não temos de gostar uns dos outros mas temos de nos respeitar. Não vamos ser hipócritas porque nunca vamos gostar de toda a gente, mas é fundamental perceber que a liberdade só é boa quando não atinge o outro de forma negativa.

C — Espero que a minha filha mais velha, que vai fazer seis anos, se mantenha na linha do que tem demonstrado. Não sei se é pelo ambiente que tem em casa, mas é superponderada, considera sempre as outras pessoas, é incapaz de dizer alguma coisa negativa sobre os outros e não gosta de magoar. A palavra que encontro para falar dela é: decente. Se ela continuar a ser assim vou ser mesmo um pai feliz.

É como diz o AC? Felizmente o rap e o hip-hop entraram nas vossas vidas?
AC — O princípio dos anos 90 coincide com o aparecimento de movimentos extremistas neonazis e outras formas de radicalização e acho que usámos a música como uma forma de expressar o nosso descontentamento. No meu caso, foi uma forma de exorcizar uma insatisfação que poderia até ter-me metido em problemas.

C — O meu percurso é diferente porque o hip hop faz parte mas não é a única forma de vida na música. Houve punk, rock, metal, mil e uma coisas diferentes. Mas depois aparece o hip hop e fiquei fascinado pela linguagem constestatária, da revolta.

O que é que o revoltava?
C — Tudo. Quando somos adolescentes tudo nos revolta e a desigualdade social era o que mais me indignava. E isso aconteceu numa altura em que, tal como diz o AC, os skinheads tinham muita força na margem sul . Esse tipo de ambiente também te obriga, quer queiras quer não, a tomar partido e a pensar mais nas coisas. Isso não morreu em mim. Se tinha uma atitude bastante mais moralista e talvez idealista quando comecei a escrever, hoje em dia opto por expor as situações e deixar o exercício de pensar sobre elas para as pessoas. Eu tento fugir ao “faz assim, faz assado” mas às vezes não é fácil. Às vezes, tem de ser dessa forma porque há pessoas que precisam disso.

Fazem parte da primeira fornada do movimento hip-hop. Era isso que queriam fazer na vida?
AC — Na altura nunca tivemos a noção de que iríamos fazer carreira no rap. Muito pouca gente sabia o que era. Até quase tínhamos de fazer sessões de esclarecimento para explicar o que era o rap. Logo a seguir ao “Rapública” [primeiro álbum de rap/hip hop em Portugal, de1994], íamos a lugares em que ninguém percebia o que aquilo era. “Mas eles estão a cantar ou a falar?” Havia um grande grupo de rappers da margem sul, e eu, que não sou nem nunca fui de lá — sou da zona do Cais do Sodré, de São Paulo, em Lisboa — fazia parte do grupo porque estávamos sempre juntos em festas e festivais. Tudo o que envolvesse o rap e o hip-hop, éramos sempre os mesmos, éramos tão poucos que nem havia com quem haver rivalidades. Éramos os artistas e o público ao mesmo tempo. Estávamos sempre nos concertos uns dos outros mas rivalidades nunca houve. Não era melhor nem pior, era diferente. Havia um grande espírito de entreajuda e muito respeito.

E para onde caminhou a música até hoje desde que vocês começaram?
C — Evoluiu bastante. Nos últimos anos, os portugueses voltaram a acreditar que é possível fazer música não só a partir do que se faz nos Estados Unidos. Há outra forma de fazer música, com inspiração africana ou nas raízes portuguesas.

AC — A música portuguesa evoluiu e é cada vez mais consumida. Já se fazem festivais só de artistas portugueses, que enchem as maiores salas. Por isso está de saúde. O hip-hop evoluiu bastante, massificou-se, passou para um estatuto mais mainstream e vive um momento bom. É um momento diferente.

  • Não sou racista, até tenho um amigo...

    “E se fosse contigo, e se fosse consigo?, sempre tão polido, ‘até tenho um amigo’”. São as primeiras palavras do rap de Carlão feito a propósito do programa da SIC “E se Fosse Consigo?”. O episódio de estreia, esta noite, aborda o racismo e questiona os comportamentos e as atitudes dos portugueses perante uma cena ficcionada em que um pai racista humilha o namorado da filha e a filha numa esplanada, à frente dos clientes. “O teu namorado? Preto? Estas pessoas não são como nós.” À volta há pessoas a ouvir a conversa que passa dos limites. Até que ponto alguém se levanta ou diz basta?