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Tínhamos saudades tuas

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Getty Images

Em “The Hope Six Demolition Project”, disco saído sexta-feira, Pj Harvey convida-nos a olhar para o mundo. Ela olhou e tem algumas histórias para contar

Helena Bento

Jornalista

Em “The Orange Monkey”, uma das faixas de “Hope Six Demolition Project”, há dois ou três versos que nos dão algumas pistas sobre o novo álbum de Pj Harvey. Que poderiam, aliás, servir de epígrafe a todo o disco.
“A inquietação tomou conta de mim / com perguntas às quais eu não conseguia responder (…) [Ele] disse-me que era preciso viajar ao passado para compreender / Apanhei um avião para uma terra desconhecida / E disse: 'Vou escrever sobre aquilo que eu vier a descobrir'”.

Pouco tempo depois de “Let England Shake” ser lançado, Pj Harvey começou a preparar uma série de viagens com o fotojornalista Seamus Murphy. Os destinos escolhidos foram três - Afeganistão, para onde Murphy tinha já viajado várias vezes - Kosovo e Washington D.C. Dessas viagens haveria de resultar um livro de poemas e fotografia - “The Hollow of the Hand”. E haveria ainda de resultar um disco, o já referido “The Hope Six Demolition Project”, cujo título remete para um programa governamental norte-americano, muito criticado em tempos, orientado para a revitalização urbana.

Frazer Harrison/Getty Images

Gravado ao vivo num estúdio improvisado na Sommerset House de Londres, um espaço no centro da cidade ligado à cultura, artes e moda, “The Hop Six...” é um retrato documental de três ou mais lugares que, embora aparentemente tenham pouco em comum, ou sejam agitados, conforme a leitura que nos chega, por dinâmicas internas completamente diferentes, acabam por se cruzar e ligar e, em conjunto, funcionar como um documento único que suscita dúvidas - porquê Washington D.C., Afeganistão e Kosovo? - e múltiplas leituras, sendo essa capacidade de refletir e fazer refletir um dos grandes méritos do álbum.

Que a artista inglesa tenha querido fazer um álbum - se não político, com uma forte vertente política - não é novidade. Ela já o queria fazer desde pelo menos 1992, quando, numa entrevista à “NME”, disse que se sentia “desconfortável” porque tinha a impressão de estar a negligenciar esse ainda hipótetico lado político do seu trabalho, acabando depois por admitir que não estava suficiente preocupada “com as coisas” para o fazer. O que a preocupava verdadeiramente era que a atenção mediática que recebera após o lançamento de “Dry”, álbum de estreia, a tivesse tornado assim, “introspetiva”, sempre a olhar para dentro, desinteressada do resto.

Já o queria fazer desde essa altura e já o tinha efetivamente feito. “O ocidente adormecido”, anuncia Pj Harvey em “Let England Shake”, primeira faixa do álbum com o mesmo nome, lançado em 2011, e apresentado como uma investigação sobre a I Grande Guerra, baseada na leitura de documentos sobre o tema. Não é por isso de estranhar que “The Hope Six Demolition Project” tenha irritado alguns políticos, nomeadamente os de um bairro de Washington D.C. (7º bairro), descrito em “Community of Hope”, um dos singles do novo disco, como uma zona de “droga e zombies” e escolas esburacadas. Vincent Gray, antigo presidente da câmara do distrito de Columbia, disse que não estava sequer disposto a responder a esta “composição inane”, comparando a artista inglesa a Piers Morgan, um dos editores do “Mail Online”, que começou a sua carreira de jornalista em tablóides como o “Sun”, “News of the World” e “Daily Mirror”.

Em “The Wheel”, Pj Harvey lembra as crianças que morreram durante a guerra do Kosovo, e em “Dollar, Dollar” fala sobre o rapaz que, numa rua de uma cidade do Afeganistão, parou a olhar o carro onde ela seguia, a olhá-la, pedindo “dólar, dólar”.

Pj Harvey partiu para ver e aquilo que viu teve um efeito brutal sobre ela. “Aquilo que eu vi mudou a forma como eu vejo a humanidade. Costumava pensar que estávamos a fazer progressos, que iríamos ser capazes de mudar alguma coisa”, diz, em “A Line in the Sand”. Apesar do tom pessimista destas palavras, não se julgue que Pj Harvey, perante a miséria e a catástrofe, se tornou uma cética ou uma cínica. Pelo contrário. Este álbum é a prova disso.