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As aventuras de um “avô” numa startup

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UMA EMPRESA DE SPAM ANTISPAM? Dan Lyons foi trabalhar para uma startup, depois de 25 anos de jornalismo. Achava que conhecia bem este mundo, mas diz ter-se enganado

d.r.

Dan Lyons, um jornalista veterano desempregado, estreia-se no mundo das 'startups' para descobrir, afinal, que nem todas são sustentáveis e que está a chegar a segunda bolha tecnológica. Mais tarde dimitiu-se e, hoje, é um dos argumentistas da 'sitcom' da HBO “Silicon Valley”

No dia 15 de abril de 2013, Dan Lyons, 52 anos, entra no seu novo emprego, em Boston. O edifício da tecnológica HubSpot data do século XIX, quando foi construído para albergar uma fábrica de mobiliário. A empresa ocupa vários andares deste prédio, que não podia corresponder mais ao cliché do que, hoje, são os escritórios de uma 'startup' de tecnologia, inspirados no modelo Google e Facebook: espelhos foscos, o sistema de canos industrial à mostra, um grande átrio, com exposição de peças de arte.

Está nervoso e, até agora, Dan Lyons não passou da entrada do edifício. É a primeira vez, em 25 anos, que Dan trabalha fora de uma redação. Jornalista de profissão, foi despedido de forma rápida e sem tempo para lamúrias da revista “Newsweek”, onde trabalhava há quatro anos, como editor da área dedicada à tecnologia. Antes tinha passado pela “Fortune” e por outras revistas de renome, tendo começado a sua carreira nos anos de 1980 para a revista “PC Week”.

Jornalista, casado, com dois filhos menores e mais de cinquenta anos de idade. À partida, este bilhete de identidade era o suficiente para condenar Dan a uma vida de desemprego. Contudo, porque também tinha contactos e a uma bagagem de quase três décadas a reportar as empresas de tecnologia de Silicon Valley, Lyons decidiu entrar no mundo das startups. Certo: era um mundo de gente muito mais nova, a maioria com idade suficiente para serem seus filhos, mas ainda assim, um mundo que ele conhecia bem.

Dan Lyons enganou-se. “Disrupted” é a história desse desapontamento e a descrição daquilo que o autor considera ser “a segunda bolha tecnológica”. Como lhe explicou um amigo de longa data, um antigo banqueiro de investimento que, atualmente, é consultor de 'startups': “Tem tudo a ver com o modelo de negócio. O mercado paga-te para teres uma companhia que cresce rapidamente. Tens de ser grande, rapidamente. Não sejas rentável, apenas grande.” Esta é também a história como, por vezes, o estatuto de 'startup' pode destronar o seu propósito de negócio: interessa mais ser 'sexy', jovem e “fora da caixa” do que ter um propósito de negócio sustentável.

Sexo, cervejas e rock'n'roll

Mas em abril de 2013, Lyons acreditava no que ia fazer. É certo que não percebia propriamente de marketing e era precisamente para trabalhar nessa área que fora contratado: sabia apenas que iria ocupar o cargo de “fellow marketing. Só não sabia o que isso queria. Contudo, o responsável que o contactara — e que ao longo de todo o livro vai ser referido como “Cranium” — divulgara a sua contratação, no blogue da empresa, e em algumas revistas da especialidade.

Mão-de-obra jovem e barata.

Mão-de-obra jovem e barata.

d.r.

Contudo, no seu primeiro dia na empresa “Cranium” não estava na empresa para o receber. Estava antes um rapaz de pouco mais de 20 anos, Zach, responsável pelas boas-vindas aos 'caloiros'. Fez-lhe a visita guiada pelas diferentes áreas da empresa. À primeira impressão, pareceu a Dan estar no jardim escola que os seus filhos tinham frequentado: as paredes estavam cheias de cores primárias, brilhantes, e as salas repletas de brinquedos. Uma das divisões, a sala da sesta, tinha redes para descanso e, nas paredes, palmeiras desanhadas. “O escritório como um parque de diversões tornou-se famoso com a Google e espalhou-se como uma infeção por toda a indústria TI. O trabalho não pode ser apenas trabalho: o trabalho tem de ser divertido”, escreve o autor.

Os escritórios da Hubspot estavam divididos por “bairros”, cada um com a sua cozinha e espaços de descontração e brincadeira. Num desses bairros, existia até uma sala cheia de instrumentos musicais, caso a alguns dos colaboradores apetecesse improvisar uma “jam session”. Algo que, até então, nunca tinha acontecido, especificou Zach. Encaminham-se então para a sala de jogos e, depois, para a grande cantina repleta e frigoríficos industriais, a transbordar de cerveja. Uma das paredes está forrada de prateleiras: nelas, apenas doces. Quem quiser, é só passar e tirar. Esta parede de guloseimas é uma das marcas fortes da Hubspot e uma ideia copiada por outras 'startups' tecnológicas. “É o nosso melhor cartão de visita”, explica o jovem anfitrião.

Ao pé dos computadores de trabalho, há armas de brincar, para o caso de a equipa querer entrar numa disputa saudável durante a jornada de trabalho. De três em três meses, os colaboradores têm de, obrigatoriamente, trocar de secretárias — uma forma de os relembrar que o mundo está sempre em mudança.

Atalhando caminho, que ainda há muito para ver na empresa, Dan conhece a lavandaria da empresa (que serve todos os trabalhadores), o ginásio e os quartos para o duche — que, explica Zach, às vezes também servem para cabines para o sexo, sobretudo durante as festas de sexta-feira, que começam às quatro da tarde e acabam a altas horas da noite.

JARDIM ESCOLA. O jornalista diz ter entrado num espaço parecido com o jardim escola que os seus filhos frequentaram

JARDIM ESCOLA. O jornalista diz ter entrado num espaço parecido com o jardim escola que os seus filhos frequentaram

d.r.

Esta é apenas uma breve descrição do mundo em Dan Lyons acaba de entrar. Na empresa, a média de idades dos trabalhadores ronda os 26 anos. Dan tem o dobro da idade e será, por diversas vezes, tratado por “avô” por colegas que podiam ser ser filhos. Numa entrevista à “Fortune”, Dan conta que circula permanentemente a ideia de que os jovens é que sabem, os jovens é que são bons no mundo digital, como se já tivesse nascido ligados à internet e à nuvem.

Criar um propósito aspiracional é meio caminho andado para ter mão-de-obra barata
As duas primeiras semanas de trabalho são passadas a navegar e conhecer o software que a HubSpot vende. Afinal, o texto já vai longo e ainda não se sabe qual o objetivo da organização: a HubSpot apresenta-se como uma plataforma de marketing que ajuda as empresas a atraírem clientes através de blogues, redes sociais e outros meios, ao invés da publicidade tradicional. “A verdade é que estamos a vender software que permite às empresas, a maioria delas pequenos negócios como empresas de instalação de piscinas ou floristas, a vender mais coisas. (...) Os nossos clientes incluem pessoas que ganham a vida a bombardear outras pessoas com emails que prometem ofertas, ou pessoas que pretendem contornar o algoritmo do Google, ou que procuram maneiras de levar os internautas a lerem os seus emails”, conta o jornalista. A Hubspot não vende apenas este software. Ensina também os clientes a serem mais efetivos na venda online. Numa ocasião, Lyons ouviu um dos seus colegas a aconselhar um cliente e colocar, no assunto dos seus emails, qualquer coisa como: “Os seus planos de férias”, um “isco” para levar as pessoas a abrirem as mensagens.

Lyons rapidamente chega a uma conclusão: a HubSpot vende 'spam', lixo online. Mas a ideia que perpassa por toda a empresa, das formações iniciais às reuniões com o presidente executivo (que se faz acompanhar de um urso de peluche, que personifica o cliente-tipo de HubSpot) é bem diferente. E para os novos colegas de Dan, acabados de recrutar às faculdades, é fácil dar a volta à mensagem e fazer-lhes crer que o propósito da 'startup' é muito maior e aspiracional. O lema, lê-se no código de valores da HubSpot, é: “Nós queremos proteger as pessoas do spam. Spam é o que os maus tipos ('bad guys') enviam, mas nós somos os tipos bons. O nosso spam não é spam. É o antispam. É um escudo contra o spam — o preservativo do spam”.

Este código apresenta-se como uma “utopia corporativa“, onde as necessidades individuais se tornam secundárias face às necessidades do grupo. Na verdade, explica o documento, os trabalhadores não têm de se preocupar com o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho porque o seu trabalho é a sua vida. Os 'hubspoters', assim se autodenominam os colaboradores, “são superestrelas com superpoderes”, assim continua este código de conduta.

O que interessa é crescer, mesmo que este caminho não seja o sustentabilidade e o rentabilidade. “É por isso que os investidores de 'venture capital'afundaram tanto dinheiro na HubSpot e é também por isso que eles acreditam que a HubSpot que a dispersão do capital em bolsa será um êxito. É por isso que a HubSpot contrata tanta gente tão jovem. É isso que os investidores querem ver: um grupo de jovens, a divertirem-se à grande, a falarem sobre mudarem o mundo. Isso vende”, escreve Lyons. Por outro lado, são mão-de-obra barata e maneira mais fácil de atrair trabalhadores dispostos a trabalharem por salários mínimos é oferecer-lhes um parque de diversões e dar-lhes a ideia de que o trabalho é divertido, só pode ser divertido.

“E no topo das coisas divertidas, basta criar a mitologia de que aquele trabalho tem um propósito, um sentido. Supostamente os 'millennials' (geração nascida entre 1980 e 2000) não se importam tanto com dinheiro, mas são sobretudo motivados pelo sentido de missão. Por isso damos-lhe uma missão. E dizemos-lhes como são especiais e sortudos por estarem ali.” Damos-lhes cervejas, uma camisola com o nome da empresa e nunca, mas nunca os fazemos esquecer que eles têm superpoderes. E que vão mudar o mundo.

No final de 2014, Dan Lyons apresentou a demissão da HubSpot. Pediram-lhe para reconsiderar, mas há muito que Lyons estava certo da sua decisão. Atualmente, é guionista e um dos responsáveis criativos pela séria de comédia “Silicon Valley”, da HBO. Entretanto, a HubSpot dispersou o capital em bolsa em Agosto de 2014; a HUBS inaugurou-se com uma capitalização bolsista de 880 milhões de dólares, na New York Stock Exchange. Nesta segunda-feira, 11 de abril, a empresa vale, em bolsa, 1,4 mil milhões de dólares. Entretanto, Mike Volpe, o “Cranium”, foi demitido por ter “violado o Código de Conduta e Ética da Companhia”, segundo um comunicado da HubSpot, depois de ter tentado obter, meses antes do lançamento editorial, uma cópia de “Disrupted”.

“Disrupted: My Misadventure in the Start-Up Bubble”, de Dan Lyons, ed. Hachette Books, 272 páginas, €11,90 (preço Amazon)

“Disrupted: My Misadventure in the Start-Up Bubble”, de Dan Lyons, ed. Hachette Books, 272 páginas, €11,90 (preço Amazon)