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Há um espelho dos nossos defeitos no “Subterrâneo”

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Susana Neves

A peça “Subterrâneo”, encenada por Luís Araújo, marca um regresso de Nuno Cardoso à representação e constitui a revisitação a uma obra apresentada com outra roupagem há duas décadas

André Correia

Vinte anos após ter interpretado pela primeira vez o “Subterrâneo” no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, Nuno Cardoso volta agora a vestir a pele de ator nesta versão revitalizada por Luís Araújo. Com um formato semelhante a uma qualquer conferência sobre “life coaching”, a partir da obra “Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Dostoiévski, a peça chega esta quinta-feira ao Teatro Nacional São João (TNSJ) e por lá fica até dia 23.

Levar o público até às profundezas da consciência humana é o propósito deste espetáculo, que testa os alicerces da conduta humana, assim como põe à prova a validade dos valores morais e culturais instituídos. É uma viagem intensa, onde um antigo funcionário público – “um chato de primeira”, como o próprio se descreve –, na casa dos “40 e picos” e vestido elegantemente dá uma conferência onde reflete sobre o comportamento e o significado do ser humano contemporâneo. Com um pequeno comando remoto, faz exibir várias imagens numa tela branca atrás de si, desde insetos até registos fotográficos do genocídio nazi, entre muitos outros exemplos.

O palestrante é um homem doente, mau e antipático, que se descreve como “quase tão rancoroso como um anão ou um corcunda” e que se envolve num falso diálogo com interlocutores imaginários, fingindo respostas que de imediato desmonta, num jogo onde fuga e confronto se equivalem. Através de um discurso organizado, mas com alguns desvios e recuos, a personagem faz uma crítica ao homem moderno, produto de uma sociedade em constante estado febril provocado pelo progresso e mergulhado numa inércia que o esmaga.

O protagonista trata-se de alguém que não teve vocação para ser bom, mau ou até mesmo um canalha. Ao contrário do que acontece em Kafka, o homem contemporâneo não é capaz nem da mais lúgubre metamorfose. “Não consegui transformar-me nem num inseto”, diz a personagem a dado momento, para quem “a consciência em geral é uma doença”.

Jogo de espelhos

Após um dos ensaios da peça, o encenador Luís Araújo e o ator Nuno Cardoso estiveram à conversa com o Expresso. Os dois já se conhecem de outros trabalhos, onde estão habituados a desempenhar funções diferentes: Nuno a dirigir e Luís a interpretar.

Este espetáculo, estreado a 15 de janeiro no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, representa, aliás, um regresso de Nuno Cardoso ao palco. “Estava um pouco enferrujado e o Luís teve bastante paciência comigo”, reconheceu. “Foi muito prazeroso. É bom ser ator e é bom ser dirigido. Para mim, que não fazia um trabalho como ator há bastante tempo, ter o grau de exigência que o Luís aplicou nisto foi muito bom”, enalteceu Nuno Cardoso.

A peça estará em cena em simultâneo com “O Misantropo”, também no TNSJ, onde Luís Araújo dá corpo ao protagonista. Na sua opinião, a troca de posições não é estranha. “Foi orgânico e natural”, considerou. Para esta nova dramaturgia, Luís Araújo explicou que “a poesia foi sacrificada em detrimento da eficácia” e que o objetivo passou por criar uma antítese daquilo que, habitualmente, é uma conferência motivacional. “Não fala sobre humanismo e também não é sobre produtividade nem ‘team building’. É alguém a usar esse mecanismo para nos expor um espelho dos nossos defeitos”, salientou.

Acerca da obra de Dostoiévski que serviu de “plasticina” para a conceção deste monólogo, Luís Araújo destacou a forma como o texto “intui uma espécie de futuro negro em que a inércia é rei. Onde o homem da natureza é visto com desdém e o homem-proveta é elevado”.

O “Subterrâneo” pode ser visto no Teatro Nacional São João de quinta-feira a sábado, pelas 19h, durante esta semana e a próxima, Os bilhetes têm um custo de 5 euros.

Esta é uma coprodução da companhia Ao Cabo Teatro, do Centro Cultural Vila Flor, do Centro de Arte de Ovar e do Theatro Circo.