Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A literatura e outros equipamentos culturais

  • 333

Manuel Alegre com Tito Couto

DR

Na quarta edição do Fronteira, foi homenageado Manuel Alegre e um poeta da Renascença. E houve uma missa bastante sui generis

Luís M. Faria

Jornalista

Para quem não vai a Castelo Branco há algum tempo, e mesmo sabendo como o programa Polis transformou cidades pelo país fora, é surpreendente a quantidade de equipamentos culturais novos que se encontram. O maior de todos foi o último a abrir: o CCCB (Centro Cultural Contemporâneo de Castelo Branco; por algum motivo, falta o quarto C nas letras à entrada). É um edifício grande, com uma frente destacada que lembra o lado mais proeminente da Casa da Música, no Porto. Abriu há cerca de dois anos, e contaram-nos que foi feito com dinheiro obtido num rateio de fundos europeus, graças ao talento de um colaborador da câmara que é especialista na matéria. A ele, tanto como ao empenho dos presidentes da câmara com quem trabalhou, são atribuídos muitos dos equipamentos construídos nos últimos anos.

O CCCB, que acolhe neste momento uma exposição de pintores modernistas portugueses, encontra-se ao fundo no amplo Campo dos Mártires da Pátria, vulgo largo da Devesa. A esquerda vemos o Cineteatro restaurado e à direita está a Biblioteca Municipal. No lado oposto do largo ficam as Docas secas, a principal zona de vida noturna na cidade. A cidade tem ainda outros espaços entregues à cultura, alguns reaproveitados, como o antigo edifício dos CTT, e outros que vão abrir proximamente, como a Casa da Memória, sobre a presença judaica na cidade, ou a Fábrica da Criatividade, situada numa antiga fábrica, conforme o nome indica, e “adaptada para acolher espetáculos, reuniões públicas e ateliês”.

Vão ainda abrir museus dedicados aos lanifícios e aos bordados. E há, claro, o Museu Cargaleiro (inaug. 2005), mesmo no centro da parte antiga da cidade, onde, ao lado do edifício que mostra a obra do pintor e escultor desde os anos 40 até hoje, existe um outro cujo piso superior é dedicado à forma de cerâmica popular que leva o nome de “ratinha”, por ser feita e usada pelo chamado povo ratinho – i.e. os trabalhadores que migravam das Beiras para os campos do Ribatejo e do Alentejo, viajando a pé ou de burro. Cargaleiro é um grande colecionador desses objetos utilitários onde o sentido popular da beleza se exprime de forma natural, e o Museu permite descobri-los nas suas várias modalidades, desde o “covo despojado” até aos motivos florais, animais, etc.

Os eventos culturais também servem gostos diversos. Na passada sexta-feira à noite, por exemplo, os Deolinda davam um concerto na cidade. Mas pouco antes teve lugar uma sessão com Manuel Alegre, integrada na quarta edição do Fronteira, o Festival Literário de Castelo Branco. Não foi a pretexto de qualquer efeméride, mas o poeta estava há algum tempo para vir ao festival, e desta vez calhou. O resultado foi uma sessão curiosa, com Alegre disposto a aproveitar o privilégio que a idade lhe dá de dizer aquilo que realmente pensa, como ele próprio explicou. Uma das coisas que pensa, e disse, é que os portugueses sabem os seus versos de cor, portanto não é preciso estes aparecerem citados nas paredes da Biblioteca, onde decorreu o encontro. Vários dos escritores cujas frases lá aparecem não terão o mesmo lugar que ele na memória coletiva.

A toada é fundamental

O apresentador Tito Couto optou por estruturar a conversa a partir de cinco livros de Alegre, e o esquema resultou. Falou-se da ditadura, da guerra, do "estado de poema", de Sophia, de intervenção cívica, de mortalidade, de Amália, de Herberto Helder, de Camilo Pessanha, de Cesário Verde, e de um conceito essencial para o convidado: o de "toada". Alegre acha que a poesia é para ser dita, e que uma certa ideia de música é inseparável dela. No final, e apesar de outras queixas legítimas (Alegre também disse que o prémio Camões se tornou político, e provavelmente só lho darão quando estiver morto), as memórias do autor de "Praça da Canção" e "O Canto e as Armas", ditas com a voz e a presença que toda a gente conhece, mantiveram a sala cheia até ao fim da sessão.

Alegre não foi o único homenageado do Fronteira. No serão anterior, ainda o Expresso não chegara, já se tinha assistido à dramatização de textos do poeta renascentista João Roiz, autor da famosa "Cantiga sua partindo-se" ("Senhora, partem tão tristes/meus olhos por vós, meu bem,/que nunca tão tristes vistes/outros nenhuns por ninguém"). Roiz, que pode ter ou não nascido em Castelo Branco, encontra-se sepultado numa igreja da cidade. Era cavaleiro e cortesão, e tem quatro poemas no Cancioneiro de Garcia de Resende, os únicos que se lhe conhecem.

No sábado o Fronteira prosseguiu com os escritores vivos de gerações recentes. A primeira sessão da tarde ocupou-se da relação entre poesia e prosa, e da prosa poética. O romancista Nuno Camarneiro, cuja prosa é por vezes descrita como poética, explicou que não escreve poesia de forma muito deliberada. Para ele um poema é coisa de uma hora, disse, enquanto na prosa há um trabalho contínuo. O outro escritor presente no debate, Jacinto Lucas Pires, preferiu ler um texto seu. Quando o moderador notou não ser costume em Portugal ouvir ler literatura em voz alta em Portugal, o escritor fez a defesa dessa prática, falando da inteligência do som. Sendo-lhe recordado que também escrevia para música e teatro, notou que eram todos jogos diferentes. E a conversa prosseguiu nesse tom. Falou-se do modo como a prosa acumula e a poesia tende a excluir: um poema surge muitas vezes como uma resposta imediata a um estímulo, enquanto com um romance é impossível isso acontecer. Um conto pode eventualmente ser um caminho intermédio? Os participantes discordaram.

Renato Filipe Cardoso

Renato Filipe Cardoso

DR

Assuntos afins foram retomados na sessão com José Eduardo Agualusa, subordinada ao tema “será o poeta um prosador com tiques de preguiça?”. Sendo o convidado quem era, no momento atual era inevitável abordar questões políticas. Agualusa deplorou o escritor a passividade portuguesa em relação a ações recentes do Governo angolano. Contou que ele próprio já sentiu indiretamente o poder de Luanda, por exemplo quando o então presidente Cavaco Silva não “arranjou agenda” para lhe entregar um prémio que tinha ganho.

Em referência ao tema da sessão, sugeriu que a prosa talvez exija mais disciplina do que a poesia. Mas admitiu que era um ficcionista que funcionava com poesia, isto é, que precisava de poesia para escrever ficção. Convidado a mencionar os nomes de alguns poetas, distinguiu os que o ajudavam a escrever – três ou quatro, sempre os mesmos – e todos os outros que também lia. Contou que a vontade de escrever lhe nasceu após ler Eça de Queirós. “Os bons escritores são aqueles que nos empurram para a escrita”, disse. Falou do seu truque para enfrentar os atrasos crónicos das pessoas no Rio de Janeiro, onde vive: marca sempre os encontros nas livrarias, para ir lendo os livros enquanto espera. E contou a ideia que alguém teve de criar uma farmácia de literatura, onde livros específicos serão receitados para cada doença.

Importância dos nomes de segunda linha

Às 18h, no último debate, Nuno Júdice e Inês Pedrosa (que já tinha participado numa discussão sobre “geografias humanas” com outras duas ficcionistas, Maria Manuel Viana e Patrícia Reis) discutiram os escritores condenados ao esquecimento. Foi uma oportunidade para finalmente se mencionar nomes com total à-vontade, por serem gente a quem a morte não permite a suscetibilidade – a eles ou aos seus colegas de geração. Entre os citados, Ruben A., José Rodrigues Miguéis, Júlio Dinis, Júlio Dantas, no século XX; Rodrigues Lobo, Francisco Manuel de Melo, Bocage, entre os anteriores. Pedrosa falou de Sandór Marai, um escritor húngaro que se suicidou, entre outras razões, por já não ser lido. Distinguiu a “nota técnica” e a “nota artística” dada aos escritores. Júdice fez o elogio da história literária, contra um estudo da literatura baseado apenas no “texto”. Referiu-se a importância dos autores de segundo plano, por contraponto aos nomes “indiscutíveis”, dos quais por vezes não existe mais do que um por geração, ou até por século ou época literária.

Terminados os debates, houve um serão lúdico, composto por uma agradável conversa musicalmente ilustrada com Luís Represas (dos Trovante) e, antes, por uma “Missa Mal Dita”. Assim lhe chamou o falso padre que dá pelo nome de Renato Filipe Cardoso. Homem de voz profunda e ritmo afinado, ele ganha a vida como locutor, mas podia perfeitamente fazer stand-up, a avaliar pela capacidade de réplica demonstrada numa situação bastante delicada que aconteceu a certa altura e lhe podia ter estragado o espetáculo.

Descreva-se este, sumariamente, como humor literário de tendência escatológica – não raro subtil, às vezes infeliz, em geral divertido. Ficámos com vontade de ver o artista noutro tipo de cenário, o qual em princípio terá de ser no Porto, onde Renato Cardoso vive e lê poesia em público. Não é assim tão longe de Castelo Branco. Aliás, em Portugal tudo é perto.