Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Steven Spielberg: “Quando se conta uma história, ter medo é importante”

  • 333

O realizador levantou o véu do seu próximo trabalho, “O Amigo Gigante”, num restrito encontro com a imprensa europeia a que o Expresso teve acesso. Para Spielberg, é um regresso à fantasia após três filmes de época. Vai estrear-se no Festival 
de Cannes e chega em julho a Portugal

Francisco Ferreira

em Nova Iorque

Getty

“O Amigo Gigante”, adaptação do homónimo livro de aventuras que Roald Dahl escreveu em 1982, tem no elenco Mark Rylance (que ainda há pouco venceu um Óscar por “A Ponte dos Espiões”), Rebecca Hall, Penelope Wilton e a debutante Ruby Barnhill, britânica de 11 anos que em breve terá o seu nome espalhado pelos quatro cantos do mundo — é ela quem interpreta Sophie, a miúda órfã que, no País dos Gigantes, encontrará num deles o seu melhor amigo. Falámos com Spielberg sobre a obra, ainda em fase de pós-produção, na semana dos atentados de Bruxelas — assunto pelo qual ele fez questão de começar ao saber que um dos jornalistas à mesa era belga.

Qual foi a sua reação aos atentados?
Não posso responder a essa questão de outra forma que não esta: é uma tragédia global que tem de ser partilhada por todos nós.

A América não está menos vulnerável.
Pois não. Quando não se consegue encontrar a cabeça da serpente, como é que se mata a serpente? Toca-me muito a compaixão que sai das pessoas quando algo assim acontece. É uma coisa que nos une, tal como aconteceu no 11 de setembro e nos atentados de Paris. Claro que era preferível unirmo-nos por outros motivos...

Por um filme chamado “O Amigo Gigante”?
É uma boa transição.

É verdade que este filme está a ser preparado há 25 anos?
Mas não por mim! Há muito tempo que a Melissa Mathison [autora, entre outros, do argumento de “E.T. — O Extra-Terrestre”] trabalhava nesta versão de “O Amigo Gigante”, até o projeto ir parar à secretária da DreamWorks. Mas a Melissa morreu em novembro do ano passado. Foi uma perda irreparável. O filme ser-lhe-á dedicado.

Acha que este filme vai ser um regresso aos anos 80?
“O Amigo Gigante” tem sido um membro da minha família ao longo de todos estes anos, uma companhia que os meus filhos aprenderam a estimar desde o momento em que tiveram idade suficiente para perceber uma história. Ou seja, é um livro que tem vivido comigo desde que me tornei pai. E eu fui pai sete vezes! Ironicamente, o livro foi publicado no ano em que se estreou “E.T.”, em 1982. E o filme que agora fiz vai estrear-se no ano em que Roald Dahl completaria o seu centésimo aniversário. Estas coincidências são tão engraçadas.

Que idade tinham os seus filhos quando lhes contava esta história?
Comecei a contá-la ao primeiro, Max, quando ele tinha 3 anos, era ainda novo de mais para a compreender. Continuei até ele ter 10, numa altura em que já percebia tudo. Ficava assustado e encantado ao mesmo tempo.

Não era esse o objetivo?
Esse é o objetivo de todas as histórias infantis, mas nem todas o conseguem. O Roald Dahl tinha esse dom. Tal como o Walt Disney. Eles inventaram histórias que sabiam levar-nos até à beira da escuridão e que depois nos salvavam. E as crianças são atraídas pelo que as assusta. “O Amigo Gigante” faz parte deste padrão.

O medo é uma boa sensação?
Quando se conta uma história, ter medo é importante.

É hoje mais fácil para si fazer o casting de uma criança, depois de tantos anos, ou isso é também um bocadinho assustador?
Não, é tão difícil como sempre foi!

Quantas crianças auditou antes de escolher Ruby Barnhill?
Duzentas. Nem todas pessoalmente. Vi muitas através de vídeos, o meu assistente trazia-me o iPad. Isto aconteceu numa altura em que eu ainda estava ocupado com “A Ponte dos Espiões”. Estava na Alemanha quando encontrei o vídeo da Ruby Barnhill. O meu coração começou a bater.

Como é que um realizador sabe que aquela é a pessoa certa?
Sabe, simplesmente. Intuição. Ela teve receio, é apenas uma menina, fez umas coisas na televisão...

É inglesa?
Sim, de Manchester. Pedimos aos pais dela que nos viessem ver a Berlim. A minha mulher [Kate Capshaw] estava lá, e eu fiquei paralisado, não consegui falar com a miúda, foi a Kate que a entrevistou enquanto eu gravava a conversa com o meu iPhone. Fizemos depois um ensaio com ela, já no Reino Unido. No dia seguinte, assinámos contrato.

Voltou a usar a técnica do motion capture, depois de “Tintin”?
Ah, sim, mas a outra escala. Tecnicamente, “O Amigo Gigante” é de longe o filme mais difícil que realizei. Há questões de escala e de ritmo muito complexas. Acho que o James Cameron vai pegar nas técnicas que temos estado a usar e catapultá-las ainda para mais longe no segundo “Avatar”.

Mas a tecnologia está sempre a desenvolver-se...
O que não é uma coisa má, se a nossa imaginação conseguir ser realizada. É essa a função das máquinas: ajudar-nos a dar vida à nossa imaginação.

São célebres as contrariedades técnicas que enfrentou em “Tubarão”...
E nesse caso o filme ficou melhor porque a tecnologia falhou! Quando já não podíamos mostrar o tubarão, então sugeríamos que ele ia atacar.

Como é que mantém viva a sua imaginação de criança? É tão fácil perdê-la ao longo do caminho.
Acho que ter filhos ajudou-me a manter uma imaginação de criança. Ajudou-me a recordar a criança que eu fui. E a ficar profundamente conectado com a infância.

É importante para si que a Sophie seja órfã?
É muito importante. Mas esse aspeto vem do livro, ao qual permaneci fiel. Sabia que o Roald Dahl tardou a escrever o livro? Foram os filhos dele, a quem ele contava a história, que o encorajaram a publicá-lo.

E do novo “Indiana Jones”, o que nos pode dizer?
Temos uma história — um MacGuffin, como se dizia — e uma data de lançamento. E temos o Harrison Ford. O argumento ainda não está escrito. Só vou filmar em 2018. Estrear-se-á em 2019. Mas até lá ainda vou dar notícias.

O Expresso viajou a convite da NOS