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“A nossa sala de ensaios é o Whatsapp”

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TRIO. Ricardo Peres, Carlos M. Cunha e César Mourão arriscam na criação do primeiro musical de improviso

Luís barra

Passaram 16 anos desde o primeiro espetáculo dos Commedia a La Carte e a data é comemorada com um musical. A Carlos M. Cunha, César Mourão e Ricardo Peres junta-se agora uma banda, back vocals e um grupo de bailarinos. Tudo improvisado, durante uma hora e meia e com histórias de amor para contar. São 90 minutos “como se estivessem na Broadway”, mas nos Coliseus

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Já era tempo de fazer algo assim. Pegar no baralho de cartas do improviso, baralhar tudo e voltar a dar. Os Commedia a la Carte estão de regresso aos palcos dos Coliseus de Lisboa e do Porto, mas agora trazem novas cartas na manga e um espetáculo completamente diferente. É que aos membros de sempre junta-se uma equipa mais vasta — cinco músicos, duas back vocals e oito bailarinos —, capazes de fazer um “musical tipo Broadway a sério, com coreografias e músicas criadas no momento, que têm de rimar e de casar com o que os músicos estão a tocar”. Ninguém disse que seria fácil juntar tudo isto, mas quem assistir a “O Musical” pode esperar o mesmo de sempre e até um pouco mais. César Mourão explica que nesta hora e meia “tudo será diferente” e que “este era o momento para algo assim, impossível de fazer há cinco anos”. O ponto de partida é simples (uma história de amor contada por um casal da plateia), pelo que o pior — ou o melhor — virá depois.

Claro que há estratégias e que os perigos estão controlados, “até porque os músicos têm entre eles alguns temas que sabem que vão tocar”, explica Carlos M. Cunha, mas isso não garante a inexistência de surpresas. César Mourão dá um exemplo, para ilustrar como o improviso é exatamente isso: improviso. “Se um casal diz que se conheceu num concerto dos U2 em Alvalade, os músicos vão ter de tocar uma música dos U2. Se o homem disser que nasceu em Angola e que dançava kizomba com a mulher, tem de haver kizomba”.

luís barra

Não são os músicos os únicos a arriscar, pois o trio do costume também terá de acompanhar a banda sem receios. Carlos M. Cunha conta como tudo costuma acontecer e relembra que “em caso de engano, é a vez de o outro salvar a cena ou fazer exatamente o oposto” e usar o erro para construir futuro. É uma técnica que vem do Séc.XV e da italiana Commedia dell'arte, como explica Ricardo Peres, para quem um dos segredos “é a utilização do acidente”. “Evidenciar a falhar”, elucida César Mourão. No fundo é “escavar ainda mais fundo”, como nos diz Carlos M.Cunha. Depois há o pequeno pormenor de apenas César Mourão saber cantar, mas o trio está mais resguardado do que se pensa. “Isto é como quando andávamos à porrada com o matulão lá da escola: como temos pessoas atrás que vão suportar tudo, podemos ser afoitos e dizer 'o que é que foi? Anda cá, anda...' Depois temos um gajo lá atrás, que é o maluco da história, e que ajuda se for preciso”. César Mourão constrói a cena, mas esse maluco de que se fala é plural e tanto pode ser a banda como os bailarinos.

Estes — aqueles que terão de dar corpo à música — terão sido apanhados de surpresa e não tiveram muitas indicações. “Não houve qualquer ensaio que juntasse toda a equipa”, explicam, dizendo que apenas houve “ensaios de boca”. Os bailarinos aceitaram, mas não terão ouvido muito sobre o espetáculo. “Vamos fazer a história e quando vocês sentirem que devem entrar, fazem a vossa coreografia”. Simples. “Isto é como se fosse um ensaio mas o primeiro ensaio acontece com plateia”. Direto. A logística para um musical é grande mas os encontros aconteceram sobretudo através do telemóvel, com uma aplicação a juntar a equipa. “A nossa sala de ensaios é o whatsapp”, explica Carlos M. Cunha, “até porque está um em cada lado”.

Não têm medo do resultado e César Mourão relembra que o maior risco é mesmo para o público, pois “eles é que gastam dinheiro para ir ver uma coisa que nem eles nem nós sabemos o que vai ser”. Há vontade de continuar. “Se correr tudo bem, fazemos um novo musical no próximo ano com a mesma estrutura”, promete o cantor do grupo, que deixa em aberto “umas novidades no final do ano (que ainda são segredo). Por enquanto o foco está em “Commedia a La Carte — O Musical”, de 22 a 24 de abril no Coliseu de Lisboa e a 8 e 9 de maio no Coliseu do Porto.