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Sintonia marítima

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Porto, Matosinhos e Gaia juntam-se para a organização de um Festival Internacional de Dança. Imagem de trabalho de Ambra Senatore

FOTO VIOLA BERLANDA

Porto, Matosinhos e Gaia juntam-se para a organização de um Festival Internacional de Dança

As cidades do Porto, Matosinhos e Gaia estão a revelar um forte empenho em integrar-se na harmonia suscitada por uma partitura exigente e alheia a qualquer gosto pela desafinação. Não que tenham passado a atuar a uma só voz, mas sobretudo por terem percebido as vantagens, evidentes em algumas áreas, de um caminhar em paralelo e em colaboração. Conseguem assim potenciar múltiplas capacidades que, isoladas, teriam escasso efeito. Num compromisso de partilha podem assumir uma dimensão nunca pensada.

Esta semana foi dado um passo cuja real importância só muito mais tarde será compreendida em toda a sua plenitude. Em resultado de uma comunhão de objetivos muito incentivada ainda em tempo de vida do vereador da cultura da CM do Porto, Paulo Cunha e Silva, Fernando Rocha e Delfim Sousa, os homólogos de Matosinhos e Gaia, abraçaram a ideia de pensar cada vez mais em projetos conjuntos a partir de uma ideia base: partilham território, partilham conhecimento, partilham uma geografia que as une e leva a que seja por vezes difícil perceber com exatidão por onde passam as fronteiras de cada um dos conselhos.

A primeira aplicação prática de algo tão óbvio que surge como inusitada a constatação de que só agora se concretiza, traduz-se na realização do Festival Internacional de Dança DDD – Dias da Dança, que decorrerá de 27 de abril a 7 de maio.

Os serrenhos do caldeirão, de Vera Mantero

Os serrenhos do caldeirão, de Vera Mantero

humberto araújo

O Porto já tinha uma programação muito forte na área da dança contemporânea. Por outro lado, existem já na cidade importantes festivais de teatro, cinema ou música. Faltava, assim, dar corpo, de um modo consistente e com reflexos na atividade dos criadores locais, a uma iniciativa que, pelas suas características de festival, possibilite os mais inesperados encontros, geracionais ou estéticos. Há também uma questão de visibilidade para os dançarinos e coreógrafos da região, a quem será proporcionada a oportunidade de serem observados ou contactarem com alguns dos principais programadores e coreógrafos europeus.

O Grande Porto – e aqui já se incluem Gondomar, Valongo ou Maia – possui inúmeras escolas de dança com milhares de alunos. É uma realidade nem sempre percetível, mas justificadora de factos como o de o Rivoli ter na dança os espetáculos aos quais sempre assiste mais público.

O Festival circulará por espaços abertos e fechados do Porto, Matosinhos e Gaia. Apresentará 27 espetáculos e um vasto conjunto de atividades paralelas. Trará novas criações de reputados artistas, como o alemão Raimund Hoghe, a italo-francesa Ambra Senatore, ou os portugueses João Fiadeiro e Vera Montero. Em onze dias consecutivos de espetáculos serão apresentadas sete criações em estreia.

Criação de Né Barros

Criação de Né Barros

d.r.

Sim, às vezes impõe-se a tentação do trocadilho suscitado pelas palavras. Não é difícil um qualquer automatismo de leitura sugerir um título onde se leia".

“Sinfonia” em vez de “Sintonia”, como está escrito acima. A aposta nesse efeito é interessante quando, no final, acaba por ser indiferente a utilização de um outro dos termos. A ideia a transmitir fica de igual forma bem espelhada, conforme ocorram ou não desvios de leitura. As três cidades querem constituir uma espécie de Frente Atlântica e anunciam mais possibilidades de ação conjunta. Esse será o único caminho capaz de evitar que no final, e após tantas expectativas criadas, não sobre apenas uma sinfonia incompleta. Mesmo se marítima.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO