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O socialista que seduz meia América

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ESPERANÇA. Sanders passou de candidato excêntrico a ameaça real a Hillary Clinton

JAMES BROOKS

Com as primárias americanas no auge, olhemos para o homem que desafia probabilidades no Partido Democrata. É Bernie Sanders, o senador esquerdista cuja eleição para a Casa Branca já não é ficção científica

Esta terça-feira o Partido Democrata celebra eleições primárias no Wisconsin, o 36.º entre os Estados e territórios americanos onde aquela formação política consulta os seus militantes e/ou simpatizantes para escolher o candidato a Presidente dos Estados Unidos da América na disputa de 8 de novembro próximo. Que melhor dia, então, para prestarmos atenção ao homem que já marcou esta contenda pelos êxitos inesperados que tem colhido? Senhoras e senhores, “feel the Bern”, ou seja, sintam a potência de Bernie Sanders, o senador de Vermont e socialista declarado que veio atrapalhar o antecipado passeio de Hillary Clinton na corrida à Casa Branca. Já agora, as sondagens do Wisconsin são-lhe favoráveis.

Aos 74 anos, o único membro do Congresso dos EUA que se diz socialista – termo que para o cidadão médio daquele país soa a soviético – tem liderado uma campanha que podia ter por lema uma frase que proferiu há 45 anos, quando ainda militava no Partido da União pela Liberdade: “A concentração de poder faz com que o homem médio se sinta irrelevante.” É em nome dos 99% e fazendo frente às elites que o senador vai conquistando delegados. Já elegeu 1038, contra os 1266 da antiga primeira-dama, senadora e secretária de Estado.

Se Clinton venceu em 20 das circunscrições onde se votou até à data, Sanders triunfou em 15, fazendo alguns no círculo de Clinton temer uma repetição da desilusão de 2008, quando a também então favorita foi batida por Barack Obama, outro recém-chegado. É certo que Hillary tem vantagem entre os “superdelegados”, figuras que têm assento por inerência na convenção partidária (a realizar de 26 a 28 de julho em Filadélfia). Mas uma vitória por essa via em caso de superioridade de Sanders em delegados eleitos pelo povo seria um dilema democrático.

FRONTAL. O senador socialista tem um discurso próximo do eleitor comum

FRONTAL. O senador socialista tem um discurso próximo do eleitor comum

MICHAEL VADON

No mês em que formalizou a sua candidatura (maio de 2015), as sondagens davam a Sanders valores entre os 6 e os 20%, contra os 57 a 71% de Clinton. Passado menos de meio ano, o premiado jornalista Harry Jaffe considera importante perceber “Why Bernie Sanders Matters” (Porque é que Bernie Sanders importa), título do livro que lançou recentemente. Como é que um “judeu de 74 anos de Brooklyn, com o sotaque inconfundível”, seduz universitários que vão votar pela primeira vez, agricultores, operários e jubilados, a base do seu apoio eleitoral.

Um milhão de notas de 20

Sanders só aderiu ao Partido Democrata para poder disputar as primárias. Era, até então, o único membro independente do Senado, onde tem assento desde 2007, depois de uma tentativa falhada em 1972, em que só obteve 2,2% dos votos. O estatuto de outsider poderá explicar parte do apelo que exerce perante um eleitorado cansado dos políticos de sempre. Se Clinton está no palco nacional desde 1992, ano da eleição do seu marido, Bill, Sanders não era conhecido, apesar de ter sido membro da Câmara dos Representantes (1991-2007) e mayor da sua cidade, Burlington, nos anos 80. Se a candidata é campeã de recolha de donativos em Wall Street, Sanders prefere o seu milhão de contribuições individuais, cujo valor médio é de 27 dólares (24 euros), refere a revista britânica “New Statesman”, de inclinação esquerdista.

“Velho rabugento que protesta contra os ricos”, “professor de Economia estiloso” ou “tio zangado” são expressões usadas por Jaffe para descrever o candidato. Narra a sua biografia de filho de um emigrante judeu polaco chegado à América nos anos 20. Bernard nasceu em 1941 e o passado da sua família – grande parte dela vítima da barbárie nazi – influenciou-o decisivamente, tal como os livros emprestados pelo irmão mais velho, Larry (que vive em Inglaterra e é do Partido Verde). Uma vida de apertos também o interessou pelas desigualdades económicas, quase uma obsessão.

Formado em ciência política, cedo se tornou ativista, tendo vivido na juventude os anos quentes dos direitos cívicos e da guerra do Vietname.

FENÓMENO Bernie já venceu em 15 Estados, face aos 20 de Clinton

FENÓMENO Bernie já venceu em 15 Estados, face aos 20 de Clinton

ted eytan

“Sempre pobre”, trabalhou como carpinteiro ao mesmo tempo que publicava ensaios em jornais universitários. No Vermont, com um filho pequeno de uma relação já terminada, demoliu a maioria republicana e foi quatro vezes autarca, antes de parlamentar. Nos anos conservadores da América de Reagan, defendia o orgulho gay, visitava a Nicarágua e a União Soviética.

Sanders não quis falar com Jaffe para esta obra, mas o autor fez jus ao ofício e seguiu o biografado em campanha, o que permite um retrato ao vivo do fenómeno democrata de 2016, pelo menos tão surpreendente e – a nosso ver – menos assustador do que o seu homólogo republicano Donald Trump.

Longe de ser hagiográfica, dizem os críticos, a obra – bem documentada e com contributos de amigos próximos – explora as contradições do candidato, um político veterano que diz hoje, como há meio século, que não é político.

Genuíno, apaixonado, quase missionário e imune à produção por assessores de imagem que afasta tantos dos seus colegas do povo que aspiram a representar, Sanders mudou menos em décadas do que o contexto em que se bate. Que as ideias de um suposto revolucionário que ostenta com agrado o rótulo de “vermelho” se revelem tão atraentes na América de hoje diz mais sobre o país, provavelmente, do que sobre o homem. Poderá ser Presidente? Ocorre-me escrever (como, em abono da verdade, em relação a Trump) que, se há um ano se dissesse que ia estar em condições de ser o nomeado do seu partido, muita gente riria. O que nos obriga a rever todos os impossíveis.

“Why Bernie Sanders Matters”, autor: Harry Jaffe, editora: Regan Arts, páginas: 240, preço: $13,36 (€11,72)

“Why Bernie Sanders Matters”, autor: Harry Jaffe, editora: Regan Arts, páginas: 240, preço: $13,36 (€11,72)