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A matéria pura da escultora Graça Costa Cabral

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Vista da exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes

Revisitar a escultora Graça Costa Cabral pela mão da família, três meses depois da sua morte. A partir de hoje na Sociedade Nacional de Belas Artes, até dia 13 de maio

Ferro, chumbo, vidro, ardósia, cristal. Matéria-prima que rompe do solo em estado bruto. Pedaços de porcelana levíssima, distribuídos em cima de uma mesa coberta por uma toalha de chumbo polido. Poderiam ser pedaços de pão. Graça Costa Cabral, a escultora açoriana, chamou a esta peça “Mesa do Espírito Santo.

Faz parte da exposição "Graça Costa Cabral, Escultura e Desenho 2016", preparada pela família - Manuel Costa Cabral, os filhos Bruno, Barbara e Carlota e o neto Ivan - três meses depois da morte da artista, e inaugura na Sociedade Nacional de Belas Artes, em parceria com a Fundação Carmona.

Concebida no decorrer de 2015, a exposição, que inclui duas obras novas, foi realizada com peças recuperadas pela escultora entre a sua coleção privada e outras coleções, imprimindo-lhes uma nova vida e um outro significado.“Não pretende ser uma retrospetiva, nem uma antologia. Muito menos uma exposição evocativa”, diz-nos Manuel Costa Cabral, curador da exposição. É um momento de revisitação.

Quando Graça Costa Cabral , que teria hoje 76 anos, soube que estava com um cancro no pulmão, sentiu urgência de realizar a sua última obra, mesmo sabendo que provavelmente não a chegaria a ver. Convocou a família para a ajudar e começou a prepará-la meticulosamente. Determinou que o curador seria o homem com quem esteve casada trinta anos e divorciada vinte, companheiro na aventura da AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual), pai dos seus filhos e avô dos seus netos. Aos três filhos - Bruno, Barbara e Carlota - fotógrafos e designers gráficos, pediu que fizessem a execução do catálogo e tantas outras coisas necessárias no decorrer de uma montagem. Ivan, o neto de 26 anos, cozinheiro, foi convocado em setembro passado a vir de Porto Santo, onde estava a viver, para ser seu assistente. “Pela primeira vez trabalhávamos juntos”, conta Barbara. “A minha mãe deixou tudo determinado. Como não tinha a certeza que resistiria até à fase de montagem, ia elaborando num caderno A3, anotações e desenhos com a disposição das peças como se estivesse a construir uma guião que para nos ajudar. A ideia foi pôr-nos a trabalhar juntos, ocupando-nos num ano tão doloroso e mantendo-nos próximo dela. Foi um gesto de incrível generosidade e uma ideia genial”, conta a filha.

Ilha

Graça Costa Cabral nasceu em São Miguel, Açores, em 1939. “Isto marca”, diz-nos Manuel Costa Cabral. “Uma ilha, vulcânica e telúrica, com horizonte largo e perspetivas confinadas”. Cedo veio para Lisboa e com 15 anos entrou na Escola António Arroio: “A Graça detestava a escola normal, não se enquadrava. Ter entrado numa escola de artes tão cedo foi uma grande sorte, desde logo descobriu a sua vocação“, explica Manuel. Conheceram-se em Belas Artes, casaram, e juntos lançaram-se na aventura da AR.CO, uma escola de ensino livre que fundaram em 1973, para ensinar várias disciplinas artísticas sem o peso institucional da academia: “Um lugar sem limitações de faltas, sem notas nem diplomas. Uma escola aberta, onde os professores são os escultores, os fotógrafos, os ceramistas, os pintores e que ensina quem sabe a matéria com a qual trabalha” explica o curador.
A escultora nunca deixou de dar aulas, adorava trabalhar com os alunos, experimentar disciplinas novas. Mas, mais do que o desenho, adorava a escultura. Foi sempre uma pessoa ligada à forma. Uma mulher, com pouco mais de um metro e meio, que se encavalitava em blocos de pedras enormes, gostava de trabalhar nas pedreiras e explorou a linguagem das formas orgânicas e vitais e dos materiais puros. “Nunca deixou de trabalhar. Duas semanas antes de morrer, continuava a desenhar e escrever com uma alegria inacreditável. Teve tempo de se despedir, falou com imensa gente, pessoas com quem fez as pazes, parecia estar feliz. Esta exposição respira paz”, refere Costa Cabral.

Respiração

Visitar a exposição é como caminhar num poema. Pedaços de ferro que parecem ter sido abanados pelo vento inspirados na poesia japonesa haiku; Um cálice de cristal maciço de cor leitosa e uma pedra polida com veios talhados erguida na vertical que poderia também ser um totem. Os desenhos impressos sobre tela partem suspensos do teto e em cima de uma mesa simples de ardósia, foi montada uma pira de porcelana. São pequenos altares íntimos, arrancados à terra para serem esculpidos entre a luz e a sombra.

O que por aqui passa é a presença de uma sensibilidade. Como se no momento de despedida, ou na perspetiva de um encontro, alguém sussurrasse: "podes ver-me como sou. Eu fui assim".