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“Eu Serei Shakespeare” no Teatro do Bolhão

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D.R.

Peça é um espetáculo laboratorial, no qual se viaja pela vastidão da obra do autor inglês

André Correia

“Ser ou não ser, eis a questão.” Esta frase escrita por Shakespeare é uma das mais marcantes da história da literatura universal, capaz de captar dores e dilemas comuns a todos os homens em todos os tempos. Passados 400 anos sobre a morte do dramaturgo, a peça “Eu Serei Shakespeare” traz ao palco do Palácio do Bolhão, no Porto, a partir de quarta-feira, os desabafos de um ator encarregue de interpretar a personagem de Hamlet.

Neste monólogo, escrito por Zeferino Mota, o protagonista “debate-se com problemas do tempo contemporâneo: das coisas serem mais superficiais, da arte estar muito mais dependente do preenchimento visual para quem está a assistir, da falta de imaginação e até da economia dos espetáculos”, explicou ao Expresso o ator Daniel Macedo Pinto.

Sozinho, no camarim, o ator queixa-se a um amigo imaginário, que vai tocando a espaços uma leve melodia de piano, pelo facto de ter de interpretar Hamlet sozinho e de já nem existir interesse e orçamento para apresentar a peça na íntegra. Enquanto isso, o intérprete envolve-se num jogo conflituoso com o próprio Shakespeare, uma relação intempestiva na qual o ator enfrenta os seus próprios fantasmas pessoais.

“Todos nós somos um conjunto de emoções caóticas que por vezes nos assolam”, afirma Daniel Macedo Pinto. Na sua opinião, esta peça apresenta uma perspetiva bastante “crítica e mordaz”, mas ao mesmo tempo conduz a um ambiente “quente e aprazível”. O espetáculo tem por base a “paixão pelas palavras” e tenta “resgatar o tempo em que a palavra era suficiente”, reforçou o ator.

Num cenário minimalista, que remete para uma arquitetura industrial, com uma total ausência de dispositivos modernos e sem necessidade de sonoplastia, propõe-se que o público se interligue à poética das palavras e seja capaz de ver para lá do aparentemente real. “Queríamos que fosse um espetáculo que partisse muito de uma estrutura e de um depuramento em termos de interpretação e conceção. Reduzimos tudo ao essencial”, explicou o diretor artístico Pedro Fiúza.

Eu Serei Shakespeare é um espetáculo laboratorial que pesquisa o dionisíaco na obra do dramaturgo inglês convocando situações, personagens e cenas de diversas peças – de Ricardo II a O Mercador de Veneza, de Henrique V a Hamlet, assim como textos de escritores e pensadores que se fixaram na obra do autor. Trata-se da tentativa de “fazer justiça a alguém que quis criar uma ponte com as palavras que nos deixou”, contou Daniel Macedo Pinto.

Nesta peça, a música fica exclusivamente entregue ao piano de Ernesto Coelho. O desenho de luz é feito por Mário Bessa, enquanto a cenografia e os figurinos são da autoria de Cátia Barros.

O espetáculo vai estar em palco entre 6 e 17 de abril e os bilhetes têm um custo de 10 euros. Há sessões à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h30, e ao domingo, às 16h.