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Tudo é belo

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Leonel Sousa

O sexto álbum de Old Jerusalem, cantor e compositor ‘encarnado’ pelo portuense Francisco Silva, é não só o seu melhor trabalho até hoje como um dos melhores discos deste ano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Viajar pelas canções de Old Jerusalem é um deleite. É-o desde 2003, ano em que Francisco Silva se estreou com “April”, inaugurando uma estrada que tem mais de América do Norte — não só na estética seguida como nas próprias letras, escritas num inglês de raro brilho — do que de Portugal, onde nasceu vai para 39 anos. Curiosamente, este portuense que faz da análise económica o seu ganha-pão nunca atravessou o Atlântico para conhecer a personagem maior da sua obra. “Não conheço nada!”, confessa. “Mas quando me perguntam: ‘Qual o destino que não queres morrer sem visitar?’, são os Estados Unidos. É o sítio que exerce mais fascínio sobre mim.” O país ‘cai’ nas suas letras por “interposta pessoa: conheço pessoas que vivem ou viveram lá. Tenho dificuldade em falar sobre coisas que não vivi. Ser-me-ia muito difícil fazer um disco de americana puro. Não vou fazer canções sobre o Louisiana! Sentir-me-ia um novelty act, como se o fizesse por paródia”, explica. Quanto à estética de Old Jerusalem, nome que pediu emprestado a uma canção de Will Oldham, deve quase tudo à “tradição anglo-saxónica. Mas o tipo de canções pende mais para os Estados Unidos do que para o Reino Unido. Boa parte das minhas referências — os músicos que admiro, o estilo de escrita — vem de lá”, confirma, partilhando outros aspetos que o fascinam no Novo Mundo. “A diversidade — é um país único, mas só por acaso — e a matriz da liberdade, quando transferida para os Estados Unidos, levou outro rumo, que me parece mais coadunado com a própria ideia de liberdade.”

Em “A Rose Is a Rose Is a Rose”, sexto álbum de Old Jerusalem, o habitual perfeccionismo na escrita de canções junta-se a arranjos de luxo (sem hipérbole), da autoria de Filipe Melo. Ainda que admire o trabalho do músico, Francisco não deixou de se surpreender com o resultado da colaboração. “Primeiro pela eficácia. Por exemplo, o quarteto de cordas gravou tudo numa noite. Depois, tinha algumas reservas quanto às cordas”, reconhece. “Podiam adocicar as coisas. Há cordas que são uma espécie de papel de parede.” Depois de um fim de semana a escrever os arranjos com Filipe Melo (“Mais ele que eu, que não tenho a mesma capacidade”), as dúvidas dissiparam-se: “Tornou-se evidente que ia ser interventivo, mas com a subtileza suficiente. As cordas iam servir a canção, não se impondo a ela”, explica. E basta ouvir ‘A Charm’ para ilustrar esta ideia.

Dessa abertura poderosíssima até ‘Twenties’, nove perfeitas canções depois, Old Jerusalem está em topo de forma: nunca a aparente ligeireza folk-pop (‘One for Dusty Light’, ‘All the While’) casou tão bem com a maior densidade que temas como ‘Florentine Course’ sugerem. Ao vivo, apresentará o disco com banda, mas praticamente sem os músicos que o acompanharam em estúdio (“Serão novas versões das canções; as que estão no disco são só mais uma, que ficou cristalizada”). E 13 anos depois dos primeiros passos, o que continua a norteá-lo é uma visão pessoal de beleza. “Socialmente, o conceito de beleza começou a instituir-se de forma muito limitada. E há muitas coisas, que até podem ser trágicas, caricatas ou pirosas, que são bonitas”, expõe. Bonito não é, aqui, ‘bonitinho’. “Qualquer pessoa que faça um objeto artístico procura criar algo esteticamente apelativo para quem dele usufrua. E isto pode ser o Merzbow com o ruído — usando um meio muito mais extremo, mas não há de ser aleatório. Ou a pintura do Jackson Pollock: tem muito de aleatório, mas parte de uma vontade. Estamos todos a lidar com essa questão de expressar, de mil e uma maneiras, o belo.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016