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“Só não vale atirar a obra pela janela”

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D.R.

Até 21 de maio, o Palácio das Artes, no Porto, dá visibilidade ao trabalho de jovens artistas selecionados no concurso “Artes e Talentos”

André Correia

Até 21 de maio estão expostas no Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, no Porto, os sete trabalhos selecionados entre um conjunto de 44 propostas nas áreas da pintura, escultura, fotografia, gravura, instalação, arquitetura e design, apresentadas ao concurso "Artes e Talentos", organizado pela Fundação da Juventude.

A mostra estará dividida em dois momentos. Até 24 de abril todos aqueles que visitarem o Palácio das Artes terão a oportunidade de ver cinco das propostas selecionadas. A partir de 29 de abril inicia-se a segunda fase da exposição, com a apresentação dos dois últimos projetos artísticos. Por agora, os espectadores podem encontrar expostos os trabalhos individuais de Inês Henriques, Bárbara Branco, Margarida Alves e Jorge Américo, bem como o projeto coletivo de Fábio Colaço e Bárbara Bulhão.

Com uma licenciatura em Pintura, concluída em 2008 na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, Inês Henriques contou ao Expresso que nunca teve uma exposição individual. “Este tipo de iniciativas são muito importantes para o meu trabalho. Nunca tive muito jeito para me promover”, confessou entre risos. O trabalho agora exposto no Palácio das Artes não tem, à partida, qualquer referente e tem como objetivo a exploração do espaço. A cor azul constitui o traço de unidade do objeto estético, que não resulta de uma busca de novos significados. “Todo o meu trabalho gera-se um pouco a ele próprio. Não há uma mensagem”, explicou a artista de 32 anos.

Na sala ao lado encontra-se o trabalho de Bárbara Branco, com 27 anos e um mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas, concluído em 2014, na Universidade do Porto. Este projeto surge da investigação de acontecimentos do quotidiano da artista, que trabalha essencialmente com redes e grelhas distribuídas pelo espaço. A recolha de pequenos detalhes, objetos, vídeos e fotografias, permite então, numa fase posterior em atelier, mapear ligações e possíveis paralelismos. “São pequenos rompimentos de rede”, sintetiza a criadora.

Numa outra sala o espectador entra sem aviso num universo de ruina, colapso e memória. É o projeto de Jorge Américo, de 32 anos, a questionar o próprio plano da pintura. “Eu não tenho tela. Sou eu que crio a tela”, disse o artista natural de Sines. Na verdade, Jorge arranca, com as próprias mãos, a superfície da sua obra. “Aplico a tinta nessas antigas ruínas e deixo-a absorver um pouco daquele espaço. Posteriormente, retiro-o”, explicou. A obra surge assim no momento em que é extraída da parede e uma espécie de pele interna é exposta. “É sempre uma descoberta”, descreveu o artista plástico.

Depois da ruína, chegamos a um espaço onde saberes ancestrais se cruzam com o conhecimento científico. Trata-se de uma instalação composta por um modelo do universo feito manualmente em cestaria de cana, acompanhado por um vídeo, fotografias e desenhos de uma família algarvia que mantém as ligações à terra e ao mar. Ao Expresso, a criadora Margarida Alves contou que ia “beber” muito à parte científica. “Entretanto, comecei a trabalhar com pastores, com famílias que se dedicam à agricultura e à pesca. Ao mesmo tempo, ia lendo bastante Alberto Caeiro e era como se esses dois mundos se começassem a cruzar. Esta obra parte dessa aproximação entre duas realidades”, afirmou a artista algarvia licenciada em Escultura. Já trabalhou em engenharia, mas é na arte que encontra a sua realização pessoal. “É quase como beber água”, enfatizou.

No projeto coletivo de Fábio Colaço e Bárbara Bulhão – os mais jovens participantes nesta exposição, com 21 e 24 anos, respetivamente – encontramos uma proposta de total liberdade e interação com a obra. No interior da sala, um conjunto de objetos escultóricos podem ser mudados de posição e os objetos são para serem usados e gastos. “É dar espaço ao espaço”, explicou Bárbara Bulhão. O público deixa, assim, de ser um mero espectador e é convocado para o processo criativo. “O trabalho não é o que aqui está neste momento, mas, sim, o que o público vai fazer com ele”, referiu Fábio Colaço. “Só não podem atirar a obra pela janela”, ressalvou, em jeito de brincadeira.

Na segunda fase da exposição, a partir de 29 de abril, serão mostrados o projeto individual de Lucy Valente Pereira e o trabalho videográfico da artista Clara Pais, em colaboração com o inglês Daniel Fawcett.

A exposição foi inaugurada este sábado, dia 2 abril, e coincidiu com a data em que por toda cidade várias atividades assinalaram o Dia Nacional dos Centros Históricos. “A história tem um valor cultural e económico muito grande e as novas gerações começam a identificar oportunidades neste património”, disse Ricardo Carvalho ao Expresso.

Para Ricardo Carvalho, presidente executivo da Fundação da Juventude, é necessário convocar os mais jovens para a vida ativa e promover a inserção no meio profissional. O concurso consistiu num convite para a apresentação de propostas individuais ou coletivas nas áreas da pintura, escultura, fotografia, gravura, instalação, arquitetura e design, ao qual se puderam candidatar todos os jovens residentes em Portugal, dos 18 aos 35 anos.

Já no próximo ano, para a terceira edição do concurso, o objetivo é alargar horizontes e fazer confluir o talento de jovens artistas portugueses e galegos, avançou o presidente executivo da Fundação da Juventude.