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O dragão põe trancas na porta

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d.r.

“Se o vento soprar de uma única direção, a árvore crescerá inclinada”, diz o provérbio chinês. Face ao avassalador crescimento do número de pessoas que cada vez mais vão ao cinema na China, o governo de Pequim veio reforçar a proteção da florescente indústria da sétima arte no país perante a oferta da indústria cinematográfica de Hollywood

Luís Proença

As cadeias de salas de cinema que realizarem dois terços das receitas de bilheteira anuais com a exibição de filmes chineses terão uma redução fiscal de 50% sobre a taxa cobrada pelo Estado nos ingressos. Na China, o imposto aplicado aos bilhetes de cinema é de 5% e estas receitas são canalizadas no apoio ao desenvolvimento do sector dentro de portas.

De forma a defender a indústria doméstica do cinema em rapidissimo crescimento, a China tem erguido muralhas regulamentares à ofensiva estrangeira, nomeadamente frente à poderosa armada dos estúdios norte-americanos. O número de filmes importados tem um teto definido: 34 títulos por ano. Esta quota de partilha de receitas não caiu do céu. Há quatro anos eram somente vinte. O acréscimo verificou-se como forma de resolver temporariamente um conflito que opôs os Estados Unidos à China, após uma queixa levantada na Organização Mundial do Comércio pelos norte-americanos, alegando restrições desleais no acesso ao mercado.

De acordo com as novas regras anunciadas na semana passada, as empresas proprietárias das cadeias de salas de cinema podem candidatar-se à redução fiscal se assegurarem que não mais de um terço dos filmes exibidos por ano são importados para além de fazerem prova de possuírem um registo legal limpo do histórico de receitas de bilheteira.

Na senda da defesa do cinema chinês, os reguladores impõem períodos de 'blackout' às estreias de filmes estrangeiros, sobretudo no verão e em feriados, facultando adicionalmente os melhores fins de semana do calendário às estreias dos filmes chineses com maior potencial de bilheteira.

No ano passado, os filmes 'made in China' renderam mais de 60% do total das receitas de bilheteira que trepou aos seis mil milhões de euros. Este ano e até ao mês passado, a quota de mercado subiu aos 70%. Em 2014, o cenário era bem diferente: uma grossa fatia dos cinéfilos chineses tinham optado por assistir em sala aos filmes saídos da indústria de Hollywood. Quase metade do bolo (45%) das receitas coube aos 'blockbusters' norte-americanos. Ainda assim, o 'boom' de popularidade das idas ao cinema na China é muito relevante para as receitas financeiras dos estúdios norte-americanos, senão anote aí que a venda de bilhetes cresceu 48% no ano passado. Estima-se que a China venha a tornar-se no maior mercado de consumo de cinema em sala já no ano que vem, ultrapassando os Estados Unidos que detêm historicamente o primeiro lugar do pódio.

De acordo com a publicação "The Hollywood Reporter", não é fácil de alcançar o impacto da nova ação regulatória, dado que os filmes chineses mais populares já tomam de assalto as preferências dos espectadores. O filme "A Sereia", uma coprodução Hong Kong-China, assinada por Stephen Chow (cujo trailer por ver AQUI), bateu o recorde de venda de bilhetes, com um total de 465 milhões euros até agora e desde a estreia, em meados de fevereiro.