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Como ser mais produtivo em oito histórias

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ANTES E DEPOIS. No início do século XX e na era do Model T, queria-se 'eficiência'. Hoje, queremos produtividade

REUTERS

Quantas vezes já ouviu que tem de ser mais produtivo — no trabalho e na vida? Muitas, provavelmente. Um novo livro diz-lhe como atingir maior produtividade nestes tempos tão difíceis. Oito passos, oito histórias

Na recensão que faz ao livro “Smarter Faster Better”, para a “New Yorker”, Louis Menand, crítico literário e intelectual e historiador cultural, explica que este é um livro que serve o modelo da economia atual, a economia da informação — da mesma forma que outro título muito popular o fez há uma década, “Quem mexeu no meu queijo?”, na versão portuguesa. “Hoje, se está a lançar uma empresa tecnológica (hey, se calhar está!), iria simplesmente contratar em outsourcing a força de vendas e o contacto com os clientes. Dentro de casa, quereria que os seus empregados fosse inovadores e flexíveis, capazes de trabalhar em equipas e de se ajustarem aos novos objetivos que vão surgindo. Quereria encorajar a criatividade dos seus trabalhadores fazendo-os sentirem-se valorizados, agentes ativos e não tanto robôs pré-programados. (...) Quererá confiar em pessoas que também conseguem pensar 'fora da caixa', não em pessoas que pensam que uma performance de sucessos significa simplesmente atingir os objetivos definidos previamente”. No fim, o que se quer é produtividade, palavra-chave dos tempos em que vivemos. Da mesma forma que, na época do Model-T e dos princípios de gestão de Frederick Taylor (1911), o mote era a eficiência.

Para Louis Menand, estes livros refletem a natureza económica dos seus tempos e podem ser fácil e brevemente caracterizados. “Não é surpreendente que cada época tenha diferentes modelos humanos para servir diferentes teorias de produtividade, mas é desanimador perceber como tão prontamente importamos estes modelos para as nossas vidas diárias”, escreve. Ainda assim são uma realidade.

E ainda que “Smarter Faster Better” seja um livro que nos transporte para esses conceitos e modelos predefinidos, a verdade é que não é um livro qualquer. O autor, Charles Duhigg, é um jornalista do “The New York Times”, vencedor, em 2013, de um Pulitzer por uma série de artigos sobre as práticas de gestão e negócio da Apple e de outras 'super' tecnológicas, que já em 2012 tinha lançado outra obra, que procurava desvendar os meandros dos processos cognitivos que nos ajudam a formar e a modificar rotinas: “The Power of habit: Why We Do What We Do in Life and Business”. Como o seu sucessor, cabe no mesmo estilo e “no formato da não-ficção contemporânea”, como assim descreve Menand: histórias exemplares, intercaladas com alguma ciência social e cognitiva.

Ao segundo livro, Duhigg organiza o livro ao redor de oito capítulos, cada um deles concentrando-se numa única ideia sobre como aumentar a produtividade, na vida ou no trabalho. Uma história diz-nos como uma ideia funciona na prática.

Assim, Charles Duhigg conta-nos porque razão um avião da Air France acabou por despenhar-se e como outro, da companhia australiana Qantas, apesar de danificado, conseguiu aterrar em confiança. O segredo, claro, está na atitude dos pilotos e o importante é perceber porque razão o piloto da Qantas conseguiu ter sucesso na complicada missão que tinha em mãos (o segredo está na “história” que o piloto assumiu para si).

Ficamos também a conhecer as razões que levaram a que as primeiras temporadas da famosa série cómica norte-americana “Saturday Night Life” tivessem tanto sucesso (neste caso, a liberdade criativa e de julgamento da equipa foi o segredo).

Duhigg conta-nos ainda a história do agente do FBI que conseguiu resolver um caso de rapto que, à partida, parecia insolúvel (mas que, afinal, devido à perseverança e ao espírito de iniciativa de um único agente, que seguiu uma pista completamente diferente, acabou bem).

Como nota a crítica do “Financial Times” ao livro, muitas dos “segredos” que perpassam nas quase 400 páginas do livro não são mais do que dicas de “senso comum”, algo que facilmente compreendemos porque também assim sentimos que é. Contudo, as histórias que as ilustram sublinham a importância de tornarmos esses “segredos” em práticas. Sobretudo quando essas mesmas histórias são interessantes e estão escritas com mestria, intercalando narrativa, ciência e conselhos. Não quer saber como agente do FBI foi tão produtivo na sua missão e conseguiu concretizar um objetivo difícil de alcançar? Antes disso, vai ter de ler o livro quase todo... Lá para o final, terá a resposta.

“Smarter Faster Better —The Secrets of Being Productive in Life and Business”, de Charles Duhigg, Random House, 380 páginas, €16,30 (preço na Amazon)

“Smarter Faster Better —The Secrets of Being Productive in Life and Business”, de Charles Duhigg, Random House, 380 páginas, €16,30 (preço na Amazon)