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Reconstrução de Palmira divide opiniões

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STRINGER / Reuters

A reconquista da cidade de Palmira por forças leais ao regime de Bashar al-Assad revelou a extensão real da destruição de património pelas forças jiadistas durante o período no qual a antiga cidade, uma das pérolas arqueológicas da região, esteve sob ocupação do Daesh, que ali chegou em maio de 2015. A possibilidade de reconstruir o que foi deitado abaixo — talvez tendo como termo de comparação os mausoléus em Tombuctu (Mali), igualmente destruídos por jiadistas e entretanto recuperados — divide contudo as opiniões.

O responsável governamental sírio pelo património e antiguidades, Maamoun Abdelkarim, que descreveu o período de ocupação como “um pesadelo”, prometera, ainda a dias da libertação da cidade, a restauração dos monumentos sob o eventual auxílio da UNESCO, comparando a reconquista de Palmira ao Dia D da II Guerra Mundial.

A entrada do exército sírio na cidade, no passado domingo, após uma campanha que durara três semanas, abriu entretanto lugar a uma primeira inventariação do que fora de facto afetado pela ação jiadista. Confirmou-se a destruição dos templos de Baal-Shamin e de Bel, o Arco do Triunfo (que datava do ano 200 da era cristã) e uma série de túmulos. E apontaram-se outros sinais de devastação, como por exemplo uma inscrição numa pedra junto aos escombros do Templo de Bel, na qual se lê, em árabe, “Dar tiros sem a autorização do chefe não é permitido”.

O museu, que o Daesh transformara em tribunal, revelava sinais de vandalismo. E, ao contrário do que se julgava, afinal as peças não tinham sido dali retiradas a tempo, antes da chegada dos jiadistas. As figuras representadas em sarcófagos foram quebradas e todas as estátuas foram derrubadas, depois decapitadas ou, pelo menos, partidas. Em declarações à AFP, o mesmo responsável governamental apontou na segunda-feira que oitenta por cento das ruínas estão “em bom estado”. E voltava a insistir na ideia de uma reconstrução, falando de um processo que poderia levar cinco anos a concluir, admitindo que, para já, enviará equipas de arqueólogos para fazer um rastreio pormenorizado da situação.

Uma especialista síria ao serviço das Nações Unidas comentou depois à AFP que lhe pareceu muito duvidosa a possibilidade de reconstrução do património destruído em Palmira. Annie Sartre-Fauriat, que integra um grupo de especialistas em património da região criado pela UNESCO em 2013, admitiu que nem com ajuda internacional esses planos de restauração lhe parecem viáveis. Questionou mesmo como, no caso do Templo de Bel, que tinha cerca de dois mil anos e era um dos edifícios mais bem preservados de Palmira, se pode reconstruir algo que “foi reduzido a pó”?... Esta historiadora foi ainda mais longe e afirmou que não estará tranquila enquanto apenas o exército sírio estiver em Palmira, recordando que, quando estas mesmas forças ali estiveram entre 2012 e 2015, “causaram muita destruição e pilhagens”.

Amr Al-Azm, que em tempos trabalhou no departamento de antiguidades da Síria e agora dá aulas numa universidade no Ohio, comentou ao “The Guardian” que esperava que a destruição fosse contudo mais acentuada, e que temera que a própria batalha de reconquista da cidade pudesse ter gerado mais situações dramáticas. E descreveu os atos de destruição de património como parte de uma campanha de propaganda que serve para demonstrar como os jiadistas “agem impunemente” sob a “impotência da comunidade internacional” em travar as suas ações.

A cerca de 200 quilómetros de Damasco, a cidade de Palmira surgiu na confluência de antigas rotas comerciais e prosperou sobretudo no período em que esteve sob domínio romano, mantendo-se aberta ao culto de várias religiões. Datam dessa etapa muitas das ruínas que fazem o corpo patrimonial que esteve dez meses sob domínio jiadista.