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'Kaddish' para o Nobel húngaro que sobreviveu ao horror

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Imre Kertész, prémio Nobel da Literatura em 2002, escreveu uma obra de um tema só: a sobrevivência aos campos da morte nazis. Morreu esta madrugada, em Budapeste

Getty

A sua foi obra de um tema só: a sobrevivência. Mas não uma sobrevivência qualquer. Imre Kertész esteve em Auschwitz, para onde os judeus húngaros foram arrastados em 1944 nos estertores da II Guerra Mundial, e a seguir em Buchenwald, numa das últimas deportações de um conflito moribundo. Tinha na altura 14 anos. Se viveu para o contar, passou a vida a fazê-lo. Em 2002 tal entrega valeu-lhe o Prémio Nobel, o primeiro da história atribuído a um húngaro.

"Quando penso num novo romance, penso sempre em Auschwitz", diria. "Sem Destino" (1975) e "A Recusa" (1988) provam-no, como o prova o livro que completa esta trilogia e que é também uma perspetiva do terror: "Kaddish para uma Criança que Não Vai Nascer" (1990). Em "Um Outro - Crónica de uma Metamorfose" (como os anteriores, editados em Portugal pela Presença), o autor analisa os regimes totalitários. E constrói um estilo de romance baseado na procura exaustiva das razões por que escrever.

Para o autor, o Holocausto em si não pode ser narrado. O que sim o pode ser é o extremo absoluto que simboliza, a rutura civilizacional - a queda do ser humano. Não é por acaso que em 1993 criticou ferozmente Steven Spielberg e a seu filme "Lista de Schindler". "Considero kitsch qualquer representação do Holocausto que seja incapaz de compreender ou que resista a perceber a conexão orgânica entre o nosso modo de vida deformado e a própria possibilidade do Holocausto", declarou.

Crítico feroz do seu país

Kertész nasceu em Budapeste, no seio de uma família judia, em 1929. Foi deportado e no fim da guerra regressou ao seu país, onde trabalhou algum tempo como jornalista. A ingerência do regime comunista, então em vigor, na imprensa ditou o seu despedimento em 1951. Após dois anos de serviço militar, dedicou-se à tradução de autores alemães como Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Freud, Wittgenstein e Canetti – este último teria grande influência na sua obra, tal como Thomas Mann. Não foi um autor amado pelo seu país, razão pela qual emigrou para a Alemanha, embora continuasse a escrever em húngaro e a tentar publicar na Hungria.

A sua relação com a Hungria sempre foi controversa. Um dos episódios mais agrestes dessa relação foi a entrevista que Kertész deu ao jornal alemão "Die Welt", na altura em que fez 80 anos. Nessa ocasião, afirmou pertencer a Berlim, cidade onde "todos fazem o que querem" e onde "não há stress nem violência" - a antítese de Budapeste, que encarnava "o discurso predominante do antissemitismo e da direita". "A velha paixão húngara, a hipocrisia, a tendência para a intolerância" eram apontadas pelo escritor como características húngaras "de sempre", e rematava: "A Hungria na guerra, a Hungria e o fascismo, a Hungria e o socialismo: de tudo isto não aprenderam nada, tudo ficou disfarçado sob um manto de ornamentos".

Mais recentemente, em 2012, desabafou ao jornal britânico "The Guardian": "Não é bem visto ser-se amigável comigo. Lembre-se da violência desenfreada de quando ganhei o Nobel. As pessoas estavam zangadas por eu me tornar no único Nobel húngaro, não sendo um glorificador da 'hungaridade'. Após o meu romance "Um Outro", fui atacado pelo retrato escuro que fiz do meu país. E alguns até duvidaram de que eu fosse um verdadeiro escritor húngaro....".

Imre Kertész morreu esta quinta-feira de doença prolongada – Parkinson – aos 86 anos. E, contra todas as expetativas, morreu na sua casa em Budapeste, para onde acabou por voltar.