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Proteção ou censura? O site que filtra todas as cenas de sexo, violência ou qualquer coisa ofensiva

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O aparentemente inocente filme dos "Mínimos" tem 154 momentos ou cenas considerados potencialmente ofensivos

ADRIAN DENNIS

A ideia é que cada um possa ver o que quiser - "O Lobo de Wall Street" sem palavrões, a "Guerra das Estrelas" sem Jar Jar Binks ou até os "Mínimos" sem insinuações (muito) rebuscadas sobre sexo

Conhece o filme de animação "Mínimos"? É aquele dos bonequinhos amarelos que usam jardineiras e falam numa língua esquisita e adorável. Já está a ver qual é? Se sim, fazemos outra pergunta: vê alguma coisa de ofensivo na hora e meia que dura o filme?

Se respondeu que não, uma vez que este é um filme para crianças com muitos fãs e pouca polémica à sua volta, não está de acordo com os criadores do VidAngel, o novo website de streaming de filmes e séries. O que o distingue da Netflix, por exemplo, é que o utilizador pode escolher se quer ver os filmes na versão original ou censurados, de forma a não ferirem (as mais variadas) susceptibilidades.

Dizemos que podem ser variadas porque um filme aparentemente inocente com o dos Mínimos, por exemplo, tem 154 filtros sugeridos – ou seja, há 154 cenas ou momentos no filme que o VidAngel sugere que podem ser ofensivas para alguém e se encarrega de censurar, se esse for o desejo do utilizador.

Façam o amor, não a guerra

Vamos a exemplos: ainda no caso dos bonecos amarelos, se escolhermos a categoria de filtros relativa à linguagem sexual temos a frase "Make love, not war" ("Façam o amor, não a guerra) proferida por uma personagem em certa parte do filme. No filtro que se destina a censurar "linguagem discriminatória" temos a ocasião em que uma personagem chama a outra "imbecil" - e quando o assunto é violência, podemos escolher se queremos ou não ver a parte em que um dos simpáticos bonecos se torna de pedra.

Como é que o esquema dos filtros funciona? É precisamente esta característica que faz do website legal, explica-se na página inicial do VidAngel. Assim, em vez de editar e vender os filmes, o que o VidAngel faz é vender os filmes sem os alterar, sendo opção do utilizador colocar os filtros que quiser. Por cada filme ou episódio de uma série o utilizador paga 20 dólares; depois, no dia seguinte pode escolher ficar com o produto ou revendê-lo ao website por 19 dólares, custando o total da operação apenas 1 dólar.

Sexo, violência e blasfémia

A empresa, que foi criada no Utah, Estados Unidos, em agosto passado, não revela os seus lucros ou número de utilizadores. Mas a verdade é que há uma comunidade que é fã da ideia, principalmente formada por casais casados com crianças pequenas, como é o caso de Neil Harmon e três dos seus cinco irmãos, fundadores do VidAngel. Ao ver os filmes, é esta comunidade que classifica as potenciais situações que merecem filtragem e as transmite aos criadores do website – tudo o que possa parecer ofensivo cabe, de cenas de sexo e violências a blasfémia.

Um dos maiores exemplos é "O Lobo de Wall Street", que Leonardo DiCaprio protagonizou em 2013 e que pelos vistos é o filme em que se dizem mais asneiras de sempre. Aqui, a palavra "fuck" é dita 528 vezes e há 27 cenas de sexo ou nudez. Em "Carol", protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara, há filtros para deixar de ouvir as vezes em que as personagens dizem as palavras "Jesus" ou "Jesus Cristo".

Há um vídeo que explica melhor os objetivos do VidAngel. Nele, uma família sorridente, toda vestida de branco, sorri em frente ao televisor enquanto se prepara para assistir a um filme. Com "E Tudo o Vento Levou", o clássico de 1939, a família é atingida por uma bala de paintball depois de ouvir a palavra "damn" (traduzível por "porra"), o primeiro palavrão da história do cinema. Pela altura em que assiste ao "Lobo de Wall Street", a família e a casa já foram cobertas de exatamente 3.192 balas que destroem, supõe-se, a sua moralidade e pureza. Depois, o slogan da empresa: "Protege-te a ti e à tua família".

A proteção sugerida pelo VidAngel vai ao extremo de proteger os utilizadores de personagens de quem não gostam, como Jar Jar Binks, da Guerra das Estrelas: "Muitas pessoas não gostam dele", explica Neal Harmon, cofundador do website, à Quartz (por isso, os filtros funcionam para qualquer cena em que Jar Jar Binks apareça, fale ou seja mencionado). Um utilizador fez o pedido "mais estranho de sempre", requisitando um filtro para todas as aparições de Ben Affleck, em qualquer filme.

É por pedidos como estes que a estratégia do VidAngel tem sido criticada por poder atacar a liberdade de expressão e artística. Para Harmon, o problema não se põe: "Concordamos que o realizador deve ter o direito de determinar a forma como o seu trabalho é projetado num meio público. É liberdade de expressão. É a América. Mas uma vez que tens algo em tua casa, faz sentido que ninguém te possa dizer como é que o deves consumir".

"Alterar estes filmes e entregá-los com o nosso nome escrito não é apenas fraude, mas violação artística", argumentava o realizador de "L.A. Confidential" Curtis Hanson em 2002, referindo-se não a VidAngel mas ao site CleanFlix, o pioneiro neste tipo de negócio. Mas uma coisa separa os dois websites - e é algo que pode ser uma grande diferença ou um pormenor téncico: é que o Cleanflix, que entretanto acabou, recebia os filmes comprados pelos utilizadores e editava-os irremediavelmente, enquanto o VidAngel produz filtros que podem ser aplicados ou não na casa de cada um, o que o torna legal.