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Vieiras da Silva trocados por terrenos

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Seis quadros da pintora, avaliados em 6 milhões de euros, vão ser ‘comprados’ por permuta

As seis obras mais emblemáticas da pintora Maria Helena Vieira da Silva que ainda se encontram no museu lisboeta que leva o seu nome não vão ser vendidas em leilão. Os herdeiros do banqueiro Jorge de Brito, um dos maiores colecionadores de arte em Portugal, e proprietários dos quadros concordam em aceitar terrenos do Estado em troca dos 6 milhões de euros que custariam os trabalhos da pintora.

A permuta dos terrenos pelos quadros é avançada ao Expresso por fonte próxima do gabinete do ministro da Cultura, João Soares, e confirmada por João de Brito, um dos descendentes do colecionador. “Sim, de facto, a proposta que temos em cima da mesa é uma ideia de permuta”, afirma, explicando que a família ainda está a analisar o assunto. “Estamos dispostos a seguir em frente se essa proposta facilitar a transação. Esperamos é que o Estado esteja em condições de dar seguimento às conversas que tem tido connosco.”

O Expresso sabe que o ministério da Cultura avançou com a proposta de permuta já há mais de um mês e que a discussão se prende agora com a localização e o tipo de terrenos a trocar pelas seis obras de Vieira da Silva. Nenhuma das partes quer adiantar pormenores, “para não prejudicar as negociações”.

A história das negociações

Iniciadas ainda em dezembro, as conversações acontecem pouco antes do fim do protocolo assinado entre a família de Jorge de Brito e o anterior Executivo, que determinava que as seis obras ficariam expostas no Museu Arpad Szenes — Vieira da Silva até 31 de dezembro de 2015. O acordo foi feito a 9 de agosto de 2011, era então secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, mas nunca foi revisto.

“Nada foi feito”, diz António Gomes de Pinho, administrador da Fundação Arpad Szenes — Vieira da Silva. “As nossas diligências e alertas foram constantes, mas nunca obtivemos uma resposta positiva ou que nos garantisse um mínimo de suporte”, continua. Com a batata quente na mão, Gomes de Pinho foi contactando “todas as instituições e colecionadores do país” no sentido de os sensibilizar para a necessidade da aquisição das peças à família Brito, de modo a que pudessem permanecer no país. Porém, “todos os esforços foram em vão”.

O dedo do PSD

O alerta sobre o final do protocolo chegou à Assembleia da República no início de dezembro pela mão do grupo parlamentar do PSD. Recorrendo à figura da pergunta parlamentar ao ministro da Cultura, mais de uma dezena de deputados daquele partido questionaram João Soares sobre “que medidas concretas tenciona fazer adotar para impedir que o país venha a perder em breve seis telas de Vieira da Silva?”. Os primeiros signatários foram mesmo Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro, e Luís Montenegro, líder parlamentar.

Na altura, a família Brito fez saber publicamente que, se não se chegasse a outro acordo, as obras seriam vendidas. Em 2011, das 26 obras que existiam no museu pertencentes à família Brito, Francisco José Viegas só conseguiu manter seis no país. As outras 20 seguiram para Paris, onde foram vendidas em leilão por valores que oscilaram entre 800 mil euros e 1,5 milhões de euros por tela.

“Se se chegar a acordo, será a primeira vez que um Governo entende a importância da obra de Vieira da Silva e da existência deste museu”, argumenta a diretora, Marina Bairrão Ruivo. O Museu Arpad Szenes — Vieira da Silva tem sido o fiel depositário das obras da artista portuguesa e tem neste momento os seis quadros expostos na mesma sala, numa tentativa de pressão para que as duas partes se entendam.

“Na medida das nossas possibilidades, estamos colaborantes com uns e com outros e não nos cansamos de pedir aos colecionadores públicos e privados que depositem aqui os seus quadros para que o público tenha acesso a eles”, frisa a diretora do museu.

O acervo

Cerca de 3200 peças de desenho, pintura e gravura doadas por Maria Helena Vieira da Silva à Fundação Calouste Gulbenkian em 1987 — ainda o museu dedicado à sua obra e à de Arpad Szenes não passava de uma ideia — englobam o primeiro grande núcleo de trabalhos que o museu alberga. Uma doação que já tinha por condição que todas as obras fossem depositadas num futuro Museu Arpad Szenes — Vieira da Silva, devendo anexar-se-lhe um conjunto de 71 obras de artistas portugueses da coleção privada da artista.

Acrescem a estes trabalhos iniciais 20 obras de Arpad Szenes e 18 de Vieira da Silva, selecionadas pela pintora e destinadas em testamento ao Estado Português e negociadas entre os Governos de França e de Portugal. Estas obras chegaram a Portugal em agosto de 1994 e integraram de imediato a coleção do museu.
Mais representativo pela sua importância e valor é um conjunto de obras pertencentes a privados, instituições ou colecionadores particulares, colocado em depósito no museu desde novembro de 1994, data da sua inauguração.