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Uma última nota

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d.r.

Reinaldo Serrano

Falta exatamente uma semana para que o senhor Bruce Weber complete 70 anos de vida. E daí?, dirá o eventual leitor, sem que de tal facto sinta ou tenha qualquer responsabilidade. É que, sejamos realistas, a vida e obra deste importante fotógrafo norte-americano não é uma prioridade óbvia ou sequer remota nos nossos escaparates ou demais veículos de divulgação cultural. E, no entanto, este cidadão, nascido e criado em Greensburg, Pensilvânia, é um nome maior numa certa cultura pop, não tanto na sua essência, mas na projeção de um trabalho cujas origens remontam à década de 70, quando começa a sua colaboração na revista GQ (outrora conhecida como “Gentleman´s Quarterly”).

Desde então, o trabalho de Bruce Weber espalhou-se pelos corredores da moda, tendo trabalhado de perto com nomes e marcas como Ralph Lauren, Calvin Klein, Revlon ou Versace. Além do mais, parte importante do seu trabalho como fotógrafo pode ser vista em revistas como “Vogue”, “Vanity Fair”, “Interview” ou “Rolling Stone”.

Curiosamente, porém, não é tanto seu trabalho enquanto fotógrafo que justifica o enfoque desta crónica, mas sim a sua obra enquanto realizador de alguns belíssimos documentários de curta ou longa duração. Mais especificamente, o que aqui hoje se sugere é uma viagem a propósito de “Let´s Get Lost”

Na esperança de convencer os que já se preparam para abandonar a leitura da modesta prosa, aqui se diz desde já que este documentário sobre a vida de Chet Baker conquistou o Prémio da Crítica no Festival de Veneza de 1989. Realizado um ano antes, “Let´s Get Lost” foi concebido, escrito e realizado por Bruce Weber, e resulta de um fascinante acompanhamento dos últimos tempos da vida restante do grande trompetista de jazz.

Sem mais delongas, importa sublinhar que a mais dura constatação deste documentário é a do brutal declínio físico do músico e outrora cantor, em virtude da sua dependência de várias drogas, nomeadamente da heroína. Com efeito, aquele que em tempos foi visto como um misto de James Dean e Jack Kerouack terminou os seus dias como uma grotesca e quase mórbida caricatura de uma época que foi sua, sobretudo na década de 50 do século passado. O que este documentário mostra, contudo, é que esta metamorfose foi essencialmente (ou em primeiro lugar) resultado de uma transformação interior de alguém com um latente e inexplicável complexo de inferioridade que o conduziu a um declínio irreversível.

Por uma estranha coincidência, muito antes de me ter deparado com este trabalho de Bruce Weber colidi de forma casual com um álbum fantástico de Chet Baker, disponível nos recantos da nossa praça discográfica: data de 1954, foi lançado pela Pacific Jazz Records e, em 2011, foi outorgado com o Prémio Grammy Hall of Fame. Resta dizer que se chama tão simplesmente “Chet Baker Sings” e é um absoluto regalo. Tal facto contribui ainda mais para inflacionar o sentimento de surpresa e consternação que emana do visionamento de “Let´s Get Lost”.

O documentário recolhe depoimentos de familiares e amigos, bem como excertos de entrevistas/conversas com o próprio Chet Baker, além de se constituir como uma espécie de “fresco” quase sórdido que reflete a transformação decadente de um génio na amargura de alguém que estilhaçou a sua própria genialidade.

Filho de um guitarrista e de uma pianista talentosa mas amadora, Charles Henry Baker, Jr nasceu no Oklahoma, e o seu primeiro contacto com a música foi quando integrou o coro da igreja local. Chegou ao trompete depois de pôr de lado o trombone, com ambos contactou graças à influência do pai. A evolução rumo ao jazz aconteceu de forma natural e cresceu de forma exponencial quando Baker foi dando nas vistas juntos de músicos bem mais experientes e com nome feito no meio. Assim se aproximou de Stan Getz ou Charlie Parker, até ter o seu próprio Chet Baker Quartet, que alcançou um sucesso assinalável. Se este sucesso, e fama subsequente, foi um primeiro ou definitivo passo para a dependência de drogas, é apenas uma leitura possível. O facto é que, desde meados da década de 50 até ao fim da sua vida, com uma ou outra intermitência, a heroína foi presença assídua na vida que se extinguiu a 13 de maio de 1988.

“Let´s Get Lost” não é uma apologia ou uma tese moralista sobre a vida conturbada de Chet Baker. Mas é seguramente uma fantástica porta de entrada para um mundo de luz e sombra e que, apesar disso, não é a cores ou a preto e branco, assim se edifica na complexa paleta de tons que formam (e deformam) a condição humana. O documentário foi nomeado para Óscar da categoria mas, mesmo sem estatueta, o que prevalece é o ouro envelhecido de um dos nomes maiores da história do jazz.