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Tomara que chova

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NEGRAS. Estudo de paisagem marítima com nuvem de chuva, John Constable

Celebramos a primavera com um livro sobre... chuva, que também abundou por estas paragens na chegada da estação

Chegou ontem às 4h30, sem que se desse por ela, e promete ficar até às 10h34 do próximo dia 20 de junho. Falo da primavera: por pouco primaveril que esteja o dia, o certo é que o Equinócio já passou, deixando-nos a estação. E que melhor tema – para quebrar estereótipos e ideias feitas – do que a chuva? Se o dia de hoje nos mostra que não só uma andorinha não traz a primavera como esta não traz, ipso facto, o bom tempo, recordemos que a chuva é parte integrante e abundante do tempo que vivemos.

Surge esta reflexão a propósito de Melissa Harrison, escritora inglesa que há cerca de um mês publicou um livro sobre a primavera e, há duas semanas, deu à estampa outro sobre chuva. Foi este último que mais chamou a atenção da imprensa britânica, tendo o diário “The Guardian” escrito que “há algo de consciente, quase budista”, no método da autora. Harrison conta que teve esta ideia no Lake District, uma das regiões mais procuradas em Inglaterra para comungar com a natureza, ao caminhar à chuva por um velho caminho-de-ferro. Nele, conta quatro passeios à mercê do proverbial clima inglês, uns sozinha, outros acompanhada.

Desengane-se quem esperar apenas prosa idílica a descrever prados, bosques e a respetiva fauna, que também há, na pessoa de pica-paus e guarda-rios, formigas e toupeiras, ou flora, de prímulas a algas, passando por jacintos e narcisos. Passeando por diferentes regiões em janeiro, abril (águas mil), agosto e outubro de 2014, Harrison – que é guia turística – observa a interação entre o homem e a paisagem virgem, conduzindo o leitor, diz o jornal, por “1500 anos de tentativas engenhosas para gerir as planícies húmidas, dos diques romanos às atuais bombas hidroelétricas”.

Borda d’Água à inglesa

No inverno leva-nos a Wicken Fen, East Anglia, o leste do país a norte de Londres. Por entre terrenos aráveis, Harrison reflete sobre a pouca atenção que a origem daquilo que comemos suscita à maioria dos cidadãos, “para lá do que vem escrito na embalagem”. Em Shropshire, mais a norte, recorda rimas e ditados populares sobre a meteorologia, tão abundantes na velha Albion como entre nós nas páginas do almanaque Borda d’Água.

É que Harrison olha muito para o céu, acrescenta o “Financial Times”, tendo um olho invejável para a altura das nuvens e a densidade do ar. Sem descurar o título, mas abjurando de “rapsódias sacarinas”, a obra descreve os nimbostratos que cobrem o céu naquele dia. Trata-se de “chuva causada por ar quente que sobe calmamente e devagar sobre uma frente fria, condensando-se em gotículas de água”. Quando estas se precipitam para a terra, e se o fizerem com determinado volume e frequência, causam cheias, assunto que a autora também aborda, bem como os esforços históricos para conseguir uma medição precisa da chuva. “É um livro desavergonhadamente inglês”, remata “The Guardian”.

O “FT” elogia a ausência de sentimentalismos, tão frequentes quando se trata de escrever sobre o campo. No verão descreve uma trovoada brutal no vale do rio Darent, no Kent (a sul de Londres), e o outono leva-a a uma difícil caminhada – e não a nível apenas físico – no Dartmoor (sudoeste de Inglaterra), que o jornal classifica de “reveladora”, das que “fazem com que a viagem valha completamente a pena”.

A escrita sobre a natureza tem ganho visibilidade nos últimos tempos do outro lado da Mancha, em livros como o autobiográfico e premiado “H is for Hawk”, de Helen Macdonald (“A de Açor”, na edição da Lua de Papel). Melissa Harrison tem currículo no género. “Spring”, publicado em fevereiro, é uma antologia de prosa e poesia britânica – Chaucer, Orwell, Bates – sobre a estação, a primeira de quatro a lançar ao longo do ano. É, ainda, autora dos romances “Clay” e “At Hawthorn Time”. Não tem obra editada em português.

“Rain: Four Walks in English Weather”, de Melissa Harrison, ed. Faber & Faber, 128 páginas, £12,99 (€16,59)

“Rain: Four Walks in English Weather”, de Melissa Harrison, ed. Faber & Faber, 128 páginas, £12,99 (€16,59)