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Pedra sobre pedra

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Filho da Mãe toca hoje na Igreja de São Domingos, em Viana do Castelo, sexta no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e sábado 19 no TREMOR, em Ponta Delgada, Açores

renato cruz santos

Menos torrencial, Rui Carvalho regressa a Filho da Mãe para um terceiro álbum gravado no Minho. Uma beleza descarnada

Luís Guerra

Jornalista

É um terceiro disco e nota-se: Filho da Mãe — ‘nome de guerra’ do guitarrista lisboeta Rui Carvalho — procura o resguardo de uma música mais esparsa. É a principal diferença que assoma face a “Palácio” (2011) e “Cabeça” (2013): uma economia sónica amiga do detalhe, mais distante da narrativa sem freio — entre-se na intimidade de ‘Nó’, por exemplo. Era importante dar espaço aos espaços em volta da guitarra acústica? “Muito”, reconhece Carvalho. “Normalmente ‘encho’ as músicas com frases diferentes a mudarem bruscamente. Neste caso, queria algo mais simples e natural. Gosto que o espaço entre na guitarra.”

“Mergulho” não é um disco de gestação espontânea; nasce de uma residência artística do músico no Mosteiro de Rendufe, em Amares, promovida pela Encontrarte Amares. Aí, a música de Filho da Mãe cruzou-se com o cinema de Miguel Filgueiras, também em residência no concelho minhoto, para documentar o processo de alterar com som a composição molecular da pedra — é um ‘superpoder do som’, aquele que lhe permite, grosso modo, picar pedra.

“Gosto de sair de Lisboa. Gosto de me deitar a pensar no que gravei e no que vou gravar no dia seguinte e acordar a pensar no mesmo. Dias contínuos, em que o chip da gravação e da música nunca desliga”, refere Carvalho. Dias contínuos em que a rotina é, por paradoxal que possa parecer, a melhor amiga do artista. “Pequeno-almoço, café, gravar um pouco de manhã, desesperar um pouco pelo almoço, almoçar, café e talvez mais alguma coisa para acompanhar, gravar bem à tarde, sair às 19 ou mais tarde, preparar jantar, ouvir as músicas do dia com talvez mais alguma coisa a acompanhar, talvez gravar de noite — depende do Senhor Padre —, deitar, sonhar com unhas partidas e guitarras a cair. No dia seguinte, o mesmo.”

A distância da cidade é, contudo, uma ilusão. “Não se consegue tirar a cidade da cabeça, só do corpo.” E é também por isso que Rui Carvalho não vê neste álbum de Filho da Mãe um sintoma do que será a sua abordagem às cordas no futuro. “As pessoas têm uma certa inclinação, natural, para procurar padrões que indicam uma mudança de caminho. No meu caso, espero fazer o contrário. Ou seja, algo que aqui se ouça mais calmo será porque seria interessante cortar um pouco com algo que se ouvisse mais nervoso nos discos anteriores. Mas provavelmente até farei questão de voltar a um estado de tensão.” Para já, esta inflexão é um pequeno bálsamo. É o Minho verde que imaginamos em “Mergulho” (até pela capa assinada por Cláudia Guerreiro, baixista dos Linda Martini) e até num tema chamado ‘Madagáscar’ há uma paisagem bem portuguesa que se insinua. Está tudo na nossa cabeça, claro — e nos dedos de Filho da Mãe.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 12 março 2016

Mergulho, Filho da mãe, Lovers & Lollypops/ Cultura Fnac (à venda dia 18)

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