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Caetano e Gil. Fazer história a meias

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Marcos Hermes

Em 2015, Caetano Veloso e Gilberto Gil estiveram em Portugal para um concerto conjunto em Oeiras. Agora, regressam para quatro espetáculos nos Coliseus do Porto e de Lisboa. É em abril que os portugueses vão poder voltar a ver essas duas lendas vivas da MPB. Em antecipação, Caetano abre aqui o livro sobre David Bowie e Roger Waters, o passado sempre presente e o facto de nunca ter tido telemóvel

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin aterraram na Lua, a 20 de julho de 1969, Caetano Veloso e Gilberto Gil terão sido das poucas pessoas acordadas a não assistir à transmissão televisiva do histórico momento. Razão: estavam em Salvador da Bahia, cidade natal de ambos, a protagonizar o espetáculo Barra 69. Nessa noite, a jovem dupla dava mais do que um concerto normal, despedindo-se do Brasil, rumo ao exílio em Londres. Impedidos de trabalhar, sujeitos a um regime de prisão domiciliária durante cinco meses e obrigados a comparecer todos os dias no quartel da Polícia Federal, Caetano e Gil negociaram com as autoridades o direito de dar este último concerto; a permissão chegaria, com uma condição — a de que abandonassem o Brasil logo depois de saírem de palco. A história é contada no site Tropicalia e, no ano passado, foi recordada numa entrevista das duas lendas ao jornal brasileiro “O Globo”. Numa conversa conduzida por Tom Zé, confessa o também veterano e também baiano, na pele de entrevistador: “Quando vocês estavam para começar o show na Bahia antes de ir para a Europa, eu estava do lado de fora do teatro, vendo pela TV a chegada do homem à Lua. E pensava: ‘Ai meu Deus, não posso deixar Caetano e Gil.’ Vocês iam começar e Armstrong estava descendo a escada. Aí deixei ele lá pelo terceiro degrau e entrei no show.” Concerto terminado e os dois amigos, que se haviam conhecido seis anos antes na Rua Chile, em Salvador da Bahia, seguiam viagem para Londres, ouvindo das autoridades um último conselho: “Não voltem mais a este país. Se voltarem, saiam do avião diretamente para a Polícia Federal, para nos poupar o trabalho de procurá-los.” Caetano e Gil voltariam ao Brasil, no início dos anos 70, ou seja, bem antes do fim da ditadura militar que vigorou até 1985, e nunca deixaram de ser vozes ativas e contestatárias no país que Caetano descreve como “uma oportunidade de originalidade”.

DISCO. Gravado em São Paulo
a 22 e 23 de agosto do ano passado, “Dois Amigos, um Século de Música” faz desfilar, em CD e em DVD, 28 temas

DISCO. Gravado em São Paulo
a 22 e 23 de agosto do ano passado, “Dois Amigos, um Século de Música” faz desfilar, em CD e em DVD, 28 temas

marcos herman

Em 2016, assistir ao espetáculo dos dois heróis da MPB não se reveste, naturalmente, das mesmas circunstâncias dramáticas do dia em que duas mil pessoas aplaudiram o seu talento e lamentaram a sua partida para Londres. No entanto, vê-los em palco, partilhando repertório e experiências, é presenciar um naco da história da música das últimas cinco décadas (“Dois Amigos, um Século de Música”, o título do disco ao vivo que recentemente lançaram, aponta, de resto, para essas contas: em 2015, assinalaram-se 50 anos sobre a edição do primeiro single de Gilberto Gil, ‘Procissão’, e outros tantos sobre a estreia de Caetano Veloso no mesmo formato, ‘Samba em Paz/Cavalheiro’). No verão passado, o Parque dos Poetas, em Oeiras, recebeu, no âmbito do festival EDP CoolJazz, um concerto dessa digressão. Agora, os dois ícones da música cantada em português voltam ao nosso país, para quatro concertos em sala fechada: a 24 e 25 de abril tocam no Coliseu do Porto, a 27 e 28 de abril no de Lisboa. É o reencontro de Caetano & Gil com um público que sempre soube acarinhá-los, e quem quiser saber com o que contar — não tendo assistido ao espetáculo de julho de 2015 — pode sempre consultar o DVD que acompanha o disco ao vivo editado em Portugal no início deste ano. Gravado em São Paulo a 22 e 23 de agosto, do ano passado, “Dois Amigos, um Século de Música” faz desfilar, em CD e em DVD, 28 temas, da abertura ‘Back in Bahia’ ao remate ‘A Luz de Tieta’, passando por ‘Nine Out of Ten’, que Caetano Veloso gravou em 1972, quando vivia em Londres, influenciado pelo reggae da comunidade jamaicana de Portobello Road e Notting Hill, ‘Esotérico’ ou ‘Desde que o Samba é Samba’.

Antes mesmo de ser anunciado o regresso de Caetano e Gil ao nosso país, o homem de “Fina Estampa” aceitou responder a algumas perguntas do Expresso, por e-mail. Pegando no mote “Dois Amigos, um Século de Música”, convidámo-lo então a recordar o dia em que conheceu Gilberto Gil, dando começo a esta centenária história conjunta. “Eu conhecia Gil da TV: ele fazia umas aparições num programa local, em Salvador, Bahia”, lembra Caetano. “Ficava fascinado com o modo dele tocar violão e cantar. Era alguém que morava na mesma cidade que eu e que tocava violão com João Gilberto ou Roberto Menescal. Uma tarde, subindo a Rua Chile, vi, vindo no sentido oposto, meu amigo Roberto Santana com Gil a seu lado. Roberto já sabia que eu o admirava e nos apresentou. Ficámos amigos imediatamente.”

Visitar o site de Caetano Veloso, inaugurado em 2012, ano em que completou 70 primaveras, é encontrar um grande manancial de informação organizada de forma bastante democrática, comentamos a certa altura, ao notarmos que, na biografia do músico, os parágrafos dedicados aos seus verdes anos não ofuscam, de todo, a prosa dedicada a anos mais recentes. Desvalorizando a sua biografia online (“Acho que nunca a li”, confessa), Caetano afirma: “Posso responder, [sim], por tudo o que eu próprio conto no livro intitulado ‘Verdade Tropical’, que é, em grande medida, uma autobiografia. Neste momento, não tenho tempo de ir conferir para entender o que você diz com ‘as décadas mais distantes não ofuscam as mais recentes’. Isso pode estar certo como pode estar errado”, considera. “A década de 30 ofusca, [pelo] menos relativamente, as de 40 e 50 na música brasileira, se considerarmos que a bossa nova — que ofusca quase tudo o que veio depois — eclodiu em 1959, sendo um acontecimento já ligado à década seguinte. Tanto no que diz respeito ao meu trabalho quanto ao dos meus colegas, brasileiros ou não, o presente e o futuro têm o poder até de rever a valoração do que foi feito antes. A bossa nova mudou muito o significado do que tinha sido produzido em décadas anteriores”, acredita, ilustrando ainda: “Dentro da obra de um único artista, uma composição nova pode mudar o julgamento sobre o que ele fez em anos passados. Por outro lado, é claro que o peso do seu trabalho passado pode ofuscar o que ele faz no presente. O futuro poderá sempre mudar tanto uma coisa quanto outra.”

Querido Portugal

Em 2015, Caetano Veloso participou no disco de homenagem a Amália Rodrigues urdido pelo realizador Ruben Alves, cantando ‘Naufrágio’ com a portuguesa Carminho. A paixão pela canção nacional não é de agora: em 2009, contava ao Expresso que começou a cantar fados aos nove anos, em Santo Amaro. “Comecei por ouvir Ester de Abreu, na Rádio Nacional, e depois foram os discos da Amália Rodrigues”, concretizou. Ao longo dos anos, o seu apego manteve-se, orgulhando-se mesmo de ter contribuído para uma maior curiosidade por parte dos jovens por um género geralmente conotado com o passado. Em 2016, a relação mantém-se acalorada: “Sou apaixonado pelo renascimento do fado, pelo interesse que este despertou em pessoas talentosas das novas gerações. Lembro-me do tempo em que jovens portugueses detestavam o fado”, recorda. “Em Lisboa, eu ia ouvir Maria da Fé no Senhor Vinho (e citei-a numa composição) e Dona Argentina [Santos] na Parreirinha de Alfama. Quando cantava um fado ao violão num concerto meu, ouvintes jovens [diziam-me] que, ao ouvirem-me, passavam a aceitar um pouco melhor o fado. Por isso acompanhei, com interesse e carinho, as trajetórias de Dulce Pontes, Mísia, Mariza, Ana Moura, Camané e Carminho, assim como o fado cool de António Zambujo [que se encontra a trabalhar num disco de versões de Caetano]. Tenho atração também pelo que faz Lula Pena, uma figura heterodoxa dentro do tema fado”, diz, mencionando ainda conhecer Gisela João, “com seu estilo perfeitamente fadista e sua aparência moderna (mas não estilizada como a de Mariza, que surgiu como uma figura pós-punk), sua beleza século XXI e trajes em tons claros.”

Conhecido pela facilidade com que chega, ele próprio, a várias gerações, Caetano Veloso esteve em 2014 no NOS Primavera Sound, no Porto, partilhando o palco principal com artistas como o aclamado rapper Kendrick Lamar ou as bandas indie The National ou Pixies. Nenhum cenário é despropositado para o septuagenário, que guarda na memória a passagem pela Invicta da seguinte forma: “Gostei muito de fazer o Primavera Sound, tanto no Porto quanto em Barcelona. Para mim e para a BandaCê foi gostoso tocar diante de plateias que nos viam como uma entre tantas atrações internacionais. Sendo que os Pixies foram inspiradores, tanto para mim quanto para o guitarrista Pedro Sá, quando formámos a banda.”

OEIRAS. Caetano e Gil atuaram a 31 de julho do ano passado no EDP CoolJazz

OEIRAS. Caetano e Gil atuaram a 31 de julho do ano passado no EDP CoolJazz

rita carmo

Nessa altura, Caetano e a BandaCê encontravam-se a promover “Abraçaço” (2012), ao que tudo indica a derradeira peça da trilogia gravada com aquele trio rock, iniciada em 2006 com “Cê” e prosseguida com “Zii e Zie”, de 2009. Escolher canções para esse espetáculo ou para aquele que voltará a trazer a Portugal em abril, com Gilberto Gil, apresenta um grau de dificuldade semelhante, argumenta, explicando que ter de deixar canções de fora ou lutar pelo alinhamento ideal “são problemas que sempre enfrentamos ao listar canções para um show. No caso do nosso concerto atual [com Gil], quase não tivemos tempo de viver essas questões. As ideias que mais facilmente vieram à cabeça foram aproveitadas. Tudo se passou de modo espontâneo e pouco planeado. Eu ainda estava na tournée do ‘Abraçaço’ e tivemos poucos encontros no estúdio do Gil para organizar o repertório”, conta. “Mas o resultado surpreendeu-nos com a força que teve diante das plateias. Nós próprios ficámos emocionados diante de certas passagens.”

Na sequência da morte de David Bowie, Caetano Veloso, que chegou a manter uma crónica regular na “Folha de São Paulo”, escreveu no seu Facebook um longo texto sobre a relação que tinha com a obra do britânico. Ao invés dos habituais elogios acríticos post mortem, o brasileiro reconheceu ter pedido “o bonde” (o elétrico, no sentido de “a boleia”) de Bowie nos anos 70 e ter mesmo rejeitado a ideia de colaborar com ele, depois de o ver em concerto em Londres. “Encontrámo-nos de modo breve e pouco significativo para ambos”, escreveu no Facebook. “Ralph Mace, o produtor dos meus dois discos londrinos, que tinha colaborado com Bowie, levou-me para ver um show dele na Roundhouse e depois apresentou-nos no camarim. Eu não tinha gostado do show. Isso deve ter sido em 1970.” Dizemos a Caetano que a sua honestidade é rara, ao que o nosso interlocutor retorque: “Sempre quero ser honesto. Aprendi com o meu pai. Quando Bowie morreu, contei o que tinha para contar da minha relação com o trabalho dele. De como passei a admirar a importância do caminho singular que soube desenhar para si”, reconhece. “Mas, desde meu encontro pessoal com ele até há poucos anos atrás, nunca me senti encantado com o que apresentava.” Sobre as leituras premonitórias da canção ‘Lazarus’, cujo vídeo Caetano considerou ter “algo das obras de arte arrebatadoras e inesquecíveis”, elabora: “Achei estranho demais [que Bowie tenha antecipado a sua morte no vídeo]. Quando o vídeo de ‘Lazarus’ me pareceu arrebatador, esqueci esse possível aspeto da coisa. O estilo superplaneado, superdesenhado de Bowie sempre me desagradou um pouco. Sou do período em que a espontaneidade, o horror à hipocrisia, a sujeira anárquica das performances eram o que dava força à arte. Bowie pareceu-me um retrocesso. Precisei esperar anos para entender que certos aspetos do que propunha apontavam para o futuro. Não que fosse necessariamente para um futuro melhor.” Quatro anos mais velho que a voz de ‘Starman’, como refere no mesmo texto, Caetano não acredita que o desaparecimento de contemporâneos seus o faça pensar (ainda) mais na sua própria mortalidade. “Penso sempre na mortalidade, na minha mortalidade. Mas é como um pensamento impossível. Somos o infinito aprisionado no finito.”

Em 2015, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram também notícia ao dialogarem com Roger Waters sobre o concerto da dupla em Telavive. O fundador dos Pink Floyd não queria que os brasileiros tocassem em Israel, escrevendo-lhes várias cartas abertas com razões de ordem política para boicotar o regime de Netanyahu. Caetano e Gil ouviram, agradeceram mas foram a Israel, onde o irmão de Maria Bethânia assistiu de perto a algumas das situações para as quais Waters quis alertá-lo. Mas não se arrepende da viagem: “Vivenciei emoções diferentes nessa última ida a Telavive. Quando li o que Waters escreveu ao saber que Gil e eu tínhamos aceitado cantar lá, achei-o muito agressivo e arrogante. Mas a ida a Susiya [aldeia palestiniana] com o grupo Breaking the Silence significou uma virada nos meus sentimentos em relação a Israel. Como disse no artigo [na “Folha de São Paulo”], amo Israel e tenho por Telavive um carinho especial. Mas o que ouvi dos membros do Breaking the Silence e vi nos territórios ocupados fez-me querer deixar claro que, embora não me identifique de todo com a [campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções] BDS, é preciso que em cada canto do mundo se saiba que as políticas do Estado de Israel não são admissíveis”, sublinha. “Quis, na reportagem que escrevi para a ‘Folha de São Paulo’, trazer toda a complexidade por que passou o meu espírito durante aquela visita. No meio da narrativa, conto que pensei em dedicar o show ao cineasta palestiniano Hany Abu-Assad, que se diz muçulmano por razões políticas, e à memória do compositor Franklin Dario, judeu pernambucano que foi para Israel nos anos 60 para lutar pelo seu povo. No final, homenageio o Breaking the Silence, o meu amigo e pintor Izhar Patkin, judeu de Nova Iorque nascido em Israel (que me levou a ler e ouvir Yeshayahu Leibowitz) e faço um aceno aos garotos do BDS que conheci em minha casa ao dizer que ‘acho que nunca mais voltarei lá’.” Caetano não sente, todavia, que esta “virada nos seus sentimentos” represente que tenha voltado atrás na sua posição inicial, de querer ir tocar com Gilberto Gil a Telavive. “Não sinto que tenha voltado atrás”, garante. “Eu era contra as políticas oficiais de Israel, como disse a Waters. Só não me sentia obrigado a aderir à BDS. Ainda não me sinto. Apenas vi de perto certos aspetos intoleráveis da política israelita e quis dizer isso. Mas continuo amando o que em Israel é amável. Sigo considerando a complexidade da questão e, quem sabe, talvez um dia volte a Telavive.”

De momento, Caetano Veloso ainda não trabalha num novo disco que suceda a “Abraçaço” e distribui o seu tempo com generosidade, colaborando com numerosos músicos de gerações diversas, como Criolo ou Otto. “Tendo tempo, gosto de estar com colegas”, assevera, quando o indagamos sobre os critérios que usa para escolher com quem trabalha, dentre os numerosos convites que deve receber. “Não aparecem situações de ter de escolher. Por alguma razão, essas trocas dão-se de forma muito fluida no Brasil.” Do seu quotidiano continua a fazer a descoberta de música e outras artes, com recurso q.b. a ‘novas’ tecnologias. Quando lhe perguntamos se ouve música em streaming, serviço por muitos apontado como o futuro da indústria discográfica, responde: “Não escuto música em streaming. Pelo menos não por ação minha. Às vezes alguém vem com um smartphone para me mostrar uma música. Eu próprio nunca tive um telefone celular [telemóvel]”, confessa, “e só uso o computador para enviar e receber e-mails, buscar alguma coisa no Google ou ver vídeos (de música, política, literatura, cinema) no YouTube. Aliás, ouvir música no YouTube é ouvi-la em streaming, não é? Então, o começo da minha resposta está errado.”

Em ano de Jogos Olímpicos no Brasil, Caetano vê com moderação o pessimismo com que muitos encaram o momento presente no país (a revista “The Economist” já falou da “queda do Brasil”, referindo-se à crise económica e política que assola o país). A experiência ajuda o músico a relativizar. “Sou velho o suficiente para ter passado a maior parte da minha vida ouvindo os meus compatriotas dizerem que aqui é tudo errado e que o Brasil nunca sairia do buraco em que sempre esteve. O professor português Agostinho da Silva [que Caetano chegou a conhecer], no entanto, dizia que o futuro do Brasil é tão grande que não há abismo que o caiba (ele usou essa forma de falar). Aprendi a pensar que o Brasil é uma oportunidade de mudança radical na face do mundo. No momento, parece que deixamos todas as promessas mais recentes escorrerem pelo ralo. A situação mundial não ajuda”, concede. “[Atualmente], não há motivo para nenhum otimismo. Assim, quase volto à sensação difundida por aqui de que não valemos nada. Mas sempre vejo alguma cena, alguma imagem, alguma coisa que me faz pensar que esse gigante mulato que fala português no Hemisfério Sul não pode deixar de dizer ao que veio.”

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 12 março 2016