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O safanão musical que estremeceu o Atlântico

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paulo prata

Durante uma semana, São Miguel, nos Açores, recebeu o melhor da música independente que se faz por cá e lá fora. Foi há uma semana, parece que foi hoje. É hora de proclamar música

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

em São Miguel, Açores

Jornalista

Há um rapper que arregaça as mangas numa loja de roupa masculina e, de costas para um expositor de camisas de executivo, canta um 'hip hop' intervencionista, de rua. O estabelecimento está à pinha. O público do Festival Tremor tomara de assalto a 'Londrina', no centro histórico de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores. O momento é inusitado, estranho até, mas acima de tudo fascinante.

'O Gringo Sou Eu' atou numa loja de roupa masculina

'O Gringo Sou Eu' atou numa loja de roupa masculina

Renato Cruz Santos

Aquele espaço de bem trajar passa também a ser um espaço de bem tocar. Um pequeno instante que é tudo. "Isto está bom. Isto está bom.", deixa escapar o orgulhoso Carlos Sá, o proprietário do estabelecimento há mais de 40 anos neste ramo. Entre fatos de homem, pullovers, gravatas e camisas para cavalheiros a multidão agita-se ao som d´O Gringo Sou Eu, com as letras aguçadas de Frankão (sambista, funkeiro, rapper) a remexerem feridas sociais com o melhor 'beat'. "É tudo falso, é tudo 'fake', é tudo truque. Pessoas só são felizes no Facebook". Show de bola com sotaque brasileiro.

As pessoas saem dali e dividem-se entre os dois concertos que arrancam de seguida, quase em simultâneo. Os Killimanjaro, três rockers de Barcelos com som 'heavy metal' que faz subir às alturas com a sua potente batita atuam no restaurante Casa da Rosa.

E, quinze minutos depois, o restaurante típico "Solar da Graça" tem as mesas e as cadeiras arredadas para acolher a atuação de Julianna Barwick, a americana nascida no Louisiana e descoberta em Brooklyn, Nova Iorque. Os olhos fecham-se. Os corpos embalam-se devagar. O momento convida a silêncio e instrospecção. A voz aveludada de Barwick, cheia de efeitos e reverberações, soa a uma dança de sereias ou a um canto de baleias que ecoa por paisagens belas e longínquas.

A maratona continua por Ponta Delgada. Há que fazer escolhas. Ser salta espaços e salta artistas, porque não é possível ouvir todas as atuações do dia, que começam a cada 15 minutos. Tal como a vida este festival é também feito de opções, para várias sensibilidades.

É sábado e o último dos cinco dias de boa música independente que se faz por cá e lá fora. Durante a semana (de 15 a 19 de março) houve concertos surpresa pela ilha - chamados de "Tremor na Estufa" em locais grandiosos, alternativos às paragens do costume, como o Estádio de Futebol de Sâo Miguel ou as Termas da Ferraria, em que o público fez da àgua quente o melhor lugar para ouvir o concerto surpresa da noite. E, por instantes, parecia estarmos a assistir ao vivo a uma versão rock n´roll do filme "Juventude", de Paolo Sorrentino.

Na semana em que o mundo coube numa ilha, destaque para Zeca Medeiros e para a dupla Joana Gama & Luís Fernandes, com quem estivemos num directo em Sâo Miguel. Medeiros é um figura intelectual da terra conhecido pela voz grave, profunda e rouca que nos atinge, envolve e desconcerta. E a dupla Joana e Luís, que atuou no centro cultural Arquipélago, encantou a plateia como num sonho inspirado. Joana usa um piano como uma mesa de operações, puxando as suas cordas como quem puxa tendões e músculos. Uma cirurgia musical que se ouviu tão bem. Ao lado, numa mesa de mistura e fios, Luís deu-nos o gosto da exploração eletrónica. Uma dupla sem medo que arriscou fazer um encontro entre a erudição de um piano e as sonoridades da eletrónica. Quem não os conhece, deve-os descobrir.

Joana Gama e Luís Fernandes atuam no centro cultural Arquipélago, em São Miguel

Joana Gama e Luís Fernandes atuam no centro cultural Arquipélago, em São Miguel

Renato Cruz Santos

Ouvidos atentos a esses e a tantos outros dos 50 projectos musicais apresentados este ano na 3ª edição do festival em bares, cafés, galerias de arte, lojas, igrejas, museus, restaurantes, e até num estádio e num skate park. Bandas com sonoridades variadas do hip hop ao eletrónico e ao rock mais alternativo.

Qual a origem deste sismo musical que sacode os palcos e a ilha de São Miguel? O Tremor nasceu da um abanão de ideias e vontades entre Luís Banrezes, editor da Yuzin, magazine cultural de Ponta Delgada e o curador, dançarino, cantor e performer António Pedro Lopes. Havia que dar vida, mundo e fôlego à ilha que começava a desertificar-se. António saiu da sua ilha aos 16 anos, viveu em inúmeros países e regressou com vontade de agitar a sua terra. Luís queria o mesmo. Inspiraram-se no festival de arte urbana Walk & Talk (que decorre em Agosto e já vai na 6ª edição), mas criaram uma versão com ADN próprio dedicado ao melhor da música independente que se faz na ilha, no continente e no mundo.

A eles juntou-se a editora e promotora portuense Lovers & Lollypops e, em 2014, arrancou a primeira edição. Dois anos depois o festival cresceu e a ilha mudou. Está mais cosmopolita e vivida. E a invasão dos espaços comerciais feito por este festival contribuiu para essa movida. São Miguel ganhou 'hype' e amor próprio.

Festival Tremor nas Termas de Ferraria, São Miguel

Festival Tremor nas Termas de Ferraria, São Miguel

joana_camilo_ferraria

São Miguel já não é só uma ilha com paisagens bonitas, bom peixe, lapas (ah, as lapas) e o bom cozido das furnas. É um lugar reinventado de mãos dadas com o seu contexto e tradição. "O Tremor já faz parte do lugar, das suas gentes, é maior do que nós e cria nova cultura independente local e do que chega do mundo. E tem uma relação íntima com a ilha, faz uma parasitagem nos mais diversos espaços, abre as suas portas, e estimula à criação de novos artistas da terra. Este caminho de música independente eclética e transversal vai estender-se durante o ano com residências artísticas e concertos pontuais. Não é um carnaval de uma semana", diz-nos António Pedro Lopes.

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a atuação da dupla catalã Za! com os alunos da Escola de Música de Rabo de Peixe no Auditório Luís de Camões. Este duo que é tudo em si e que cabe em todas as formações musicais, do jazz à eletrónica e ao rock, criou um raro momento de beleza e partilha.

Os olhos de alguns da assistência ficam marejados, sorrisos em todos os rostos, quando sob a batuta de um dos elementos da dupla, jovens e crianças de um dos bairros mais pobres e problemáticos tocam com graciosidade baterias, saxofones, trompetas, clarinetes, guitarras, flautas. O maestro também convoca o o público na assistência a participar. Todos juntos em comunhão. O Tremor é isto. E é, de facto, maior do que a ilha.

Rui Carvalho, aka Filho da Mãe atua na Igreja do Colégio, em São Miguel

Rui Carvalho, aka Filho da Mãe atua na Igreja do Colégio, em São Miguel

Renato Cruz Santos

A poucos metros, no altar da majestosa Igreja do Colégio ecoam os acordes da guitarra de Rui Carvalho, nome de palco 'Filho da Mãe'. Um homem e a sua guitarra a tirar-nos o fôlego com o redemoinho de emoções que nos passa a cada nota. Ali a missa é outra. Os sons metálicos dedilhados pelo Filho da Mãe a alimentarem-nos a alma. E a noite ainda com tanto para dar.

A banda canadiana Black Mountain, com o seu revivalista rock psicadélico, ou rock cósmico com pitadas de modernidade, rebenta a sala do Solar da Graça com um som a puxar forte e a provocar o agitar das cabeças e dos sentidos. Rock on!

Bonnie 'Prince' Billy a atuar no Festival Tremor

Bonnie 'Prince' Billy a atuar no Festival Tremor

Vera Marmelo

Em seguida, todos os caminhos foram dar ao concerto de Will Oldham, levando consigo a expressão cénica e teatral do seu alter ego Bonnie 'Prince' Billy, de olhos e unhas pintadas, a personagem criada também é música nele, a juntar-se aos sons xamânicos do trio de Chicago Bitchin´Bajas.

Uma ligação certa que nos embala e transporta aos melhores lugares. E aquele ´Prince´ prova que continua a reinar com liberdade e originalidade no reino da música. Se não conhece, aproveite para o descobrir. Um artista sublime.

A noite segue com o hip hop açoriano de Swift Triiga e Fred Cabral no Coliseu Micaelense, canções de rua, de bairro, e línguas articuladas para cantarem o que lhes vai lá dentro e o que os trouxe aqui.

Logo depois as atuações dos Capitão Fausto, uma das bandas mais interessantes do panorama pop rock português com três discos editados ("Gazela", "Pesar o Sol" e "Os Capitão Fausto têm os dias Contados") a aquecerem o público do Coliseu Micaelense.

Os PAUS com as suas baterias siameses voltaram a partir tudo, num terreno entre a eletrónica e o rock levando ao palco o novo álbum, "Mitra", o terceiro da sua carreira. E nesse momento já a plateia ferve.

A madrugada alcança a apoteose com a atuação do norte-americano Dan Deacon e das suas musicas de som saturado e garrido num estilo apelidado de "Future Shock". Só os resistentes ficam. A plateia abre uma grande cratera e dança em círculo. O lado festivo da elétrónica leva à entrega dos corpos. "Isto é São Miguel! Isto é São Miguel!" - Ouve-se várias vezes naquela noite, num misto de êxtase e surpresa. Isto é o mundo numa só ilha.

Final de festa apoteótico

Final de festa apoteótico

Renato Cruz Santos