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O que a guerra faz à alma das pessoas

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MARIO TAMA/Getty Images

“Desmobilizados” é o livro de estreia de Phil Klay, um antigo veterano do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos, que serviu no Iraque entre 2007 e 2008. Desmultiplicando a sua experiência em doze contos, Phil Klay transporta-nos tanto para o terreno de combate como para as rotinas e vivências de ex-marines que mataram e viram morrer

Helena Bento

Jornalista

Muitos filmes, livros e séries têm tentado retratar a guerra do Iraque, mas só muito poucos o conseguiram verdadeiramente fazer. Dentro desse grupo restrito podemos encontrar, por exemplo, o muito aclamado “Hurt Locker” (2008), de Kahtryn Bigelow, que aborda o tema como nenhum outro filme o fizera antes. A realizadora norte-americana filma o dia-a-dia de uma unidade de elite do Exército responsável por desmantelar bombas na capital iraquiana de Bagdade. E fá-lo de uma forma tão honesta quanto convincente, evitando com grande inteligência todos os truques e artimanhas que eventualmente teria a seu dispor. Em “Hurt Locker”, se há uma tomada de posição ela é feita a favor dos soldados, sempre. Não há amigos e inimigos, durões ou piegas, homens em quem confiamos e em quem não confiamos. Não há um lado bom que devemos aplaudir e um mau que devemos vaiar; decisões certas e erradas, louváveis e condenáveis, golpes d’asa extraordinários e outros feitos inacreditáveis, embora nos surpreendamos muitas vezes de coração nas mãos.

O filme de Kahtryn Bigelow tem estes méritos todos, mas tem ainda outro, talvez ainda mais exemplar, que é o de retratar a guerra - nesse lugar tão tóxico e letal como o era o Iraque após a invasão dos Estados Unidos - do ponto de vista psicológico, enquanto vício e tormenta. A maior guerra é aquela que vai na cabeça do “sergeant James”.

“Generation Kill”, uma mini-série dividida em sete episódios que estreou nos EUA em julho de 2008 (produzida pela HBO) e foi exibida em Portugal meses depois, no canal MOV, é outro exemplo disto que falamos. A série é baseada no livro homónimo de Evan Wright, um jornalista da "Rolling Stone" que acompanhou o 1º Batalhão de Reconhecimento durante a invasão do Iraque, em 2003, e foi escrita por David Simon e Ed Burns, criadores da série “The Wire”. Mais uma vez, estamos perante uma abordagem da guerra tão crua quanto arejada.

Os acontecimentos, pequenos acontecimentos, pequenos acasos, vão-se sucedendo a um ritmo muito lento, assim, uns atrás dos outros, sem atropelos, a velocidade caracol. Os Humvees deslocam-se muito devagar – tudo é que vemos é estrada e terra - os marines são lentos, as conversas arrastam-se - tudo é tédio e paisagem. Paisagem castanha, monótona, feita de um silêncio sepulcral.

De vez em quando surge uma casa, surgem pessoas, iraquianos, civis, atordoados, confusos. As mensagens que vão sendo transmitidas através dos intercomunicadores ajudam a distrair, as cantorias dos marines também, esses marines que todos os dias se fazem à estrada rumo nem eles sabem bem ao quê. Da série fica-nos precisamente isso, a noção de que a guerra pode tornar-se uma coisa terrivelmente aborrecida e fastidiosa. E a noção dessa enorme desorientação que reinou meses a fio entre as forças norte-americanas no Iraque, provocada por um misto de imaturidade, desorganização e informação transviada, que fazia com que muitos dos soldados andassem como baratas-tontas a brincar aos tiros com um inimigo que nem eles sabiam muito bem que era, submetidos muitas vezes, mais vezes do que desejaríamos, aos caprichos e devaneios dos seus superiores hierárquicos.

“Para mim, são todos iguais. São todos o inimigo”

Num dos contos do livro “Desmobilizados”, que venceu em 2004 o National Book Award na categoria de Ficção, tendo sido também finalista do Prémio Frank O'Connor e considerado pelo “New York Times” um dos dez melhores livros norte-americanos publicados naquele ano, há uma situação que ilustra bem essa brincadeira de crianças crescidas sem um adulto por perto para lhes dizer que há coisas que não é suposto fazerem, como pôr os marines mais novos a fazer papel, tesoura ou pedra para ver qual deles ia para o telhado, de cuecas e colete à prova de balas, gritando insultos, para fazer de isco aos rebeldes, atraí-los de modo a que os marines, tendo-os ali tão perto, pudessem dar cabo deles e passassem a ser “mais respeitados”.

Um desses episódios acabaria da pior forma possível, com a morte de um marine, atingido a tiro, como nos é contado em “Oração na Fornalha”, que tem sido considerado, com toda a justeza, um dos melhores contos deste volume. A história é narrada na primeira pessoa, por um capelão. O episódio é-lhe contado por Rodriguez, um marine da companhia Charlie que ao fim de alguns meses em missão no Iraque tem a cabeça em água e dirige-se ao capelão porque precisa de falar - embora nunca o reconheça, com medo de passar por fraco - e não tem com quem fazê-lo. Quando o capelão lhe pergunta quem é que disparou sobre o soldado norte-americano, Rodriguez responde-lhe que não sabe, que deverá ter sido um dos rebeldes. “Não sei. E, para ser honesto, senhor padre, também não quero saber. Para mim, são todos iguais. São todos o inimigo.”

As palavras de Rodriguez e as de um outro marine da mesma companhia deixam o capelão em estado de alerta, preocupado com o facto de os marines já não distinguirem entre civis e combatentes - disparando indiscriminadamente sobre uns e outros - tomados pela loucura e pela falta de fé; pela falta de um objetivo que justifique aquela e outras missões do género - onde todos os dias morriam soldados - que justifique, se quisermos, a intervenção dos EUA em solo iraquiano, e, sobretudo, tomados por um medo terrível da morte.

Mas os maiores problemas viriam no fim dessa missão. Crimes, drogas, suicídios. Já quase no fim do conto, o capelão recorda as palavras de um ex-marine. “Tínhamos estado num sítio que era completamente diferente de tudo o que os hippies que estavam a assistir pudessem alguma vez compreender. Todos aqueles idiotas que se acham muito bonzinhos porque nunca estiveram numa rua em Ramadi e nunca tiveram de escolher entre a vida deles e a vida das pessoas que estão no prédio donde estão a disparar contra nós. É impossível descrever isso a alguém que não esteve lá. Quase nem conseguimos lembrar-nos, nós que estivemos lá, porque não faz sentido nenhum. E fazer de conta que se pode viver e combater meses a fio no meio daquela merda sem enlouquecer, bem, isso é que uma loucura completa.”

Editado pela Elsinore no final do ano passado (com tradução de Maria do Carmo Figueira), “Desmobilizados” reúne uma série de contos da autoria de Phil Klay, um veterano do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos que serviu no Iraque entre 2007 e 2008, e depois de ser desmobilizado decidiu dedicar-se à escrita. O livro foi muitíssimo bem recebido. O “New York Times Book Review”, suplemento do “New York Times” dedicado à crítica de livros, considerou-o “o melhor livro já escrito sobre o que a guerra faz à alma das pessoas”. Os contos são narrados por pessoas diferentes - um sargento, um primeiro-cabo, alguns veteranos - uns ex-combatentes, outros antigos funcionários administrativos, um capelão - e cada um deles dá uma perspetiva diferente da guerra.

A burocracia, as mortes, os suicídios. O regresso a casa

Nathan é um funcionário administrativo que assim que aterra na base militar de Taji, uma zona rural a norte de Bagdade, onde ficará encarregue de dirigir uma equipa de reconstrução provincial, vê-se aturdido no meio de uma série de processos burocráticos vagamente kafkianos e de algum desmazelo e desorganização, enquanto tenta a todo o custo reverter decisões erradas, endireitar prioridades e garantir financiamento para uma clínica para mulheres iraquianas - que além de prestar cuidados de saúde, ajudava as mulheres que precisavam de se divorciar, que eram vítimas de violência doméstica ou que queriam apresentar queixa contra as forças da coligação para receberem a indemnização pelos familiares mortos acidentalmente.

“A paisagem era uma desolação. Nem árvores, nem animais, nem plantas, nem água - nada. Muitas vezes, quando as pessoas tentam descrever o Iraque, ouvem-se referências ao 'Mad Max', a trilogia de filmes pós-apocalípticos em que gangues de motoqueiros vestidos à sadomasoquistas atravessam o deserto, matando-se uns aos outros por causa de gasolina. Nunca achei que a descrição fosse particularmente adequada. (...) Mas ali, sem ver uma única coisa de vida, teria tido muito gosto em avistar outros seres humanos, nem que fosse um bando de motoqueiros com máscaras de cabedal e calças abertas no rabo. Mas, infelizmente, a guerra não é como nos filmes”, diz Nathan, no conto “O Dinheiro como Arma”, enquanto se dirige a uma estação de tratamento de água onde terão sido enterrados em tempos e em vão um milhão e meio de dólares.

O regresso a casa - e de que forma os militares lidam com isso - é outro dos temas abordados e em mais do que um conto. Em “Fim de Missão”, o narrador, de volta à sua cidade, vê-se preso numa rede de pensamentos - em que são protagonistas os seus colegas, a guerra, os tiros, as mortes, a sua mulher, que o espera, o seu cão - de que não consegue soltar-se, caindo seja para que lado for, de um lado a guerra, do outro a casa, a família. Fica ali, a balançar, com a cabeça em loop, sem saber o que fazer. “Quando cheguei ao postigo e entreguei a minha arma, senti falta de qualquer coisa. Era a primeira vez em muitos meses que me separava dela. Fiquei sem saber onde pôr as mãos. Primeiro, meti-as nos bolsos, depois tirei-as e cruzei os braços e, por fim, deixei-as caídas, inúteis, junto ao corpo”, diz.

Essa experiência, esse conflito interior, é particularmente evidente e dramático num dia em que o ex-marine decide ir fazer compras com a mulher. “Da última vez que andaste na rua de uma cidade, o marine que ia na dianteira seguia pela beira da rua, a ver o que se passava à sua frente e a vigiar os telhados de um lado e do outro. O marine que ia atrás dele ia a vigiar as janelas dos andares superiores dos prédios, o marine a seguir a ele a vigiar as janelas um pouco mais abaixo, e assim por diante, até termos a rua toda sob controlo, e o marine que ia atrás de todos ficava com a retaguarda. Em Wilmington, não tens um pelotão, não tens companheiros de guerra, nem sequer tens uma arma. Assustas-te dez vezes quando vais à procura dela, e não está lá. Estás em segurança e, por isso, não precisas de estar alerta, mas estás.”

Além desta multiplicidade de perspetivas, há ainda a elogiar a escrita de Phil Klay, direta e despojada, como uma seta apontada à página. Também não poderia ser de outra forma. É que Phil, mais do que escritor é um veterano de guerra, e mais do que escritor e veterano de guerra é um sobrevivente. E, como tal, sabe o que é realmente importante e o que é acessório.