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Novos sons na Basílica

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ANA DE JESUS RIBEIRO

É o maior órgão sinfónico português e o seu som voltará a ouvir-se este domingo, no concerto que abre as comemorações do centenário das aparições de Fátima. Entre as obras do programa, há uma estreia absoluta de João Pedro Oliveira

Tem 12 metros, cinco teclados, 6500 tubos. É o maior órgão sinfónico de Portugal, um gigante há muito em silêncio e a contas com uma longa recuperação que só agora — mais exatamente este domingo — será dada por concluída. Teclados e pedaleiras novas, e uma nova estrutura frontal, vão permitir que este instrumento com 65 anos soe como se tivesse sido construído há um. A sua inauguração antecipa as comemorações do centenário das aparições de Fátima, das quais este órgão, situado bem no interior da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, não poderia estar arredado. Nem, está claro, o regresso da música a este espaço, assinalado com um ciclo de concertos a decorrer até fevereiro de 2017.

Há três anos que João Pedro Oliveira trabalha neste programa, todo ele orientado para “mostrar as potencialidades do novo órgão”, como disse ao Expresso. Ele próprio organista e compositor, conhece como ninguém a sua monumentalidade, a variedade de timbres, aquilo que podem os seus cinco teclados e 90 registos. E, igualmente, as obras e as épocas que melhor se adequam ao seu temperamento. “Temos obras francesas, alemãs e sacras, mas também improviso e música contemporânea”, adianta. É a ele que o Santuário encomendou uma peça a ser estreada mundialmente no concerto de abertura, a cargo de Olivier Latry, organista titular da Catedral de Notre-Dame, em Paris.

“Queria escrever uma peça que se enquadrasse nas comemorações e que não fosse descritiva, porque não me interessava tratar diretamente o tema das aparições”, conta João Pedro Oliveira, que preferiu uma abordagem mais sugestiva, centrada nas primeiras profecias sobre Maria, do Antigo Testamento. “Está no Livro do Génesis e é a primeira profecia sobre o nascimento de Jesus”, desvenda. O compositor respeitou o texto em hebraico antigo ao intitulá-la “Hû yeshûphekâ rô’sh”, que significa literalmente “esta te ferirá a cabeça” — frase extraída de um fragmento em que Deus se dirige à serpente, após a tentação de Eva, prometendo: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Para João Pedro Oliveira, a escolha de uma alusão em vez de uma descrição emprestou à temática “uma maior profundidade”, como acontece sempre que se opta pela metáfora.

Em termos musicais, “a obra tenta usar todas as capacidades, todos os teclados e registos” do órgão da Basílica, o que lhe deu “um certo aspeto heroico”. Para um organista, nem sempre é fácil passar do instrumento de estudo para o do concerto. Isto porque o primeiro é condensado, pequeno e por vezes eletrónico, enquanto um órgão de igreja, pelo contrário, costuma ser enorme, assim como o espaço onde o som se projeta. “O organista tem o problema do instrumento: só o conhece quando o vai tocar. E, ao mudar para um ambiente de igreja, todo o seu pensamento tem de ser reequacionado. Não existem dois órgãos iguais e há toda uma adaptação no ato de passar de um órgão para outro”, frisa João Pedro. Um exemplo desta adaptação é o facto de, em geral, os compositores não indicarem os registos em que o organista deve tocar, deixando tal decisão ao critério de cada intérprete. “É como mudar de orquestra.”

Nascido em 1959, João Pedro Oliveira estudou órgão, composição e arquitetura. Doutorou-se em Música na Universidade de Nova Iorque e é professor catedrático na Universidade de Aveiro. Mas foi desde Minas Gerais, no Brasil, onde ensina na Universidade Federal, que falou connosco. “Nos últimos anos tenho vindo a compor muita música eletrónica, e isso prende-se com a minha bagagem de organista, com o trabalho tímbrico que os organistas estão habituados a fazer”, refere.

No concerto deste domingo, a sua peça está bem acompanhada. Por Bach, por Brahms, por Messiaen, por Duruflé. O próprio Olivier Latry irá improvisar no final tendo como base o ‘Ave Maria de Fátima’. Quanto ao ciclo, outros nomes foram chamados a dominar o órgão da Basílica ao longo de 11 meses, todos eles ligados ao ensino e à divulgação do instrumento em Portugal: António Esteireiro, a tocar música alemã (8 de maio); António Mota, com música contemporânea (10 de julho); Felipe Veríssimo, a trazer música sacra (9 de outubro); Giampaolo Di Rosa, com melodias Marianas (11 de dezembro); e João Santos, a fechar com música francesa (12 de fevereiro de 2017)