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Burros e elefantes

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d.r.

Reinaldo Serrano

Não é difícil constatar a prolongada consistência dos ecos remanescentes de uma jornada de folguedo que coloriu como poucas a ascensão de Marcelo Rebelo de Sousa ao mais alto cargo do Estado. Depois de uma campanha feita com uma calma olímpica, subordinada ao tema dos afetos, sem “entourage” ou séquito, sem propaganda que faz mal aos olhos, o professor deu uma lição inequívoca à classe política sobre a importância da personalidade acima de qualquer outro esquema ou diatribe para fazer valer a força de uma candidatura... e de um candidato.

Serve o introito como rampa de lançamento, ou ponte de pequena escala, para introduzir um notável trabalho saído da produtora norte-americana Showtime a propósito da corrida presidencial que há de ditar o sucessor ou sucessora de Barack Obama à frente dos destinos da superpotência. Intitulado “The Circus: Inside the Greatest Political Show on Earth”, é um retrato empolgante dos bastidores da liça mais apetecível e não menos icónica que faz vibrar durante meses a peculiar vida política “made in America”.

Sem qualquer guião pré-definido, sem qualquer tese apriorística sujeita a escrutínio ou confirmação, o documentário segue sem encanto ou desencanto as peripécias semanais da luta eleitoral dos diversos candidatos, democratas e republicanos, durante as ações de campanha ao longo do vasto território norte-americano. As visitas, feitas em tempo real, estão a cargo de três figuras: Matk McKinnon, estratega político que foi conselheiro de George W. Bush; Mark Halperin, analista político da “Time”, “Bloomberg” e “MSNBC”; e John Heilemann, jornalista político da “New York Magazine” -- os dois últimos com obra publicada sobre campanhas presidenciais nos Estados Unidos.

A originalidade deste documentário é ser, literalmente, um processo em construção permanente: em cada semana de campanha democrata e republicana, a equipa lá está para acompanhar as incidências, o ambiente, os bastidores, as conversas que jamais seriam escutadas não fosse a presença da objetiva que as mostra e do microfone que lhes outorga uma nova dimensão. Da América profunda às grandes cidades, as caravanas -- onde se destacam os autocarros dos candidatos -- percorrem os muitos quilómetros na esperança que a estrada que fique para trás os faça chegar à frente de um eleitorado que, de forma mais ou menos espontânea, está ávido de contacto com as figuras que são, em primeiro lugar, televisivas, e só depois políticas.

O resultado deste empenho no terreno é abrir a cortina das campanhas e expor sem subterfúgios ou edições mais ou menos tendenciosas as ocorrências de um combate político sem paralelo em qualquer outro país -- e é de eleições primárias de que falamos, obviamente. Este mergulho de perto nas águas campanhísticas permite, entre outros exemplos, observar de perto uma conversa entre o democrata Bernie Sanders e a atriz Susan Sarandon ou ver o estado de alma do republicano Donald Trump antes de entrar num comício ao som de “Eye Of The Tiger”, dos Survivor. Claro que um trabalho em cima do acontecimento está subjugado pela ditadura do tempo: o material recolhido, seja de onde for, é enviado para a sede, em Nova Iorque, onde é trabalhado pelos editores, que têm pouco tempo para lhe conferir a versão definitiva que há de ser exibida. Não por acaso, esta metodologia, ditada pelas circunstâncias, segue a tendência da era das redes sociais -- sobretudo o twitter ou o instagram -- que tornam quase imediata a divulgação de qualquer evento. E o facto é que assistir a cada um dos episódios já disponíveis, sobretudo na página oficial da Showtime, é constatar sem reticência que a apresentação de “hard news” pode, em última análise, constituir-se como um produto televisivo que se vê, semana após semana, com agrado e sem esforço, ao mesmo tempo que nos sentimos a viajar em primeira classe pela longa jornada que constitui a seleção dos candidatos do Partido Democrata e do Partido Republicano ao derradeiro frente a frente de onde sairá o próximo Presidente norte-americano.

“The Circus: Inside the Greatest Political Show on Earth” é um misto de documentário, produto jornalístico e “reallity TV”; o cenário é um palco gigantesco, uma imensa paleta de cores, pelo que o seu maior trunfo é focar-se no que é essencial e dispensar o acessório. É um filtro, é certo, mas nele temos de confiar sem prejuízo das conclusões que retiramos a nosso gosto daquilo que nos é mostrado.

1960. O então senador John Fitzgerald Kennedy numa imagem do documentário “Primary”

1960. O então senador John Fitzgerald Kennedy numa imagem do documentário “Primary”

d.r.

Uma última palavra para lembrar outros dois documentários que são considerados uma referência no âmbito das campanhas presidenciais nos Estados Unidos: “Primary”, dirigido em 1960 por Robert Drew, acompanha as esperanças de poder do senador John Fitzgerald Kennedy, que disputava com o também senador Hubert Humphrey a nomeação Democrata na corrida à Casa Branca; e o bem mais recente “The War Room” (1993), que retrata os bastidores da campanha de Bill Clinton. Assistir a ambos é perceber como o olhar e a perspetiva de observação de eventos semelhantes evoluíram com a passagem do tempo e com o advento de novas tecnologias, mais acessíveis e mais globais. E perceber porque é que “circo” é uma palavra adequada para descrever as campanhas políticas norte-americanas... mas não só; afinal de contas, é a própria política que faz (que obriga) espetáculo. Quem disser o contrário será cínico... ou insensato.

A derradeira palavra explica o título para os menos atentos ou mais distraídos: o burro é o símbolo do Partido Democrata e o elefante o símbolo do Partido Republicano. Não são fábulas, nem sequer fabulosos...