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À pala de Camões

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Numa reedição aumentada de um volume de ensaios literários, Miguel Tamen desmonta falsas evidências e engodos sentimentais, ideológicos, metafísicos

PEDRO MEXIA

Uma nota de pé de página de “Artigos Portugueses” lembra o seguinte episódio contado por Wittgenstein: “Estou sentado no jardim com um filósofo; ele diz muitas vezes ‘Sei que aquilo é uma árvore’ e aponta para uma árvore próxima. Uma terceira pessoa ouve isto e eu digo-lhe: ‘O homem não está maluco. Estamos só a fazer filosofia.’” O mesmo acontece com Miguel Tamen: quando olha para um texto e diz “sei que aquilo é um texto”, não está maluco, está apenas a fazer crítica literária.

O método crítico de Tamen é, digamos, wittgensteiniano, herdeiro da tradição anglo-saxónica da filosofia analítica. Privilegia a lógica, a clareza, a comunicabilidade, mas também uma espécie de “senso comum” que é, na verdade, o oposto daquilo a que geralmente chamamos senso comum. Um senso incomum, talvez, que desmonta falsas evidências e engodos sentimentais, ideológicos, metafísicos.

Os equívocos que estes ensaios contestam são essencialmente dois. Um tem a ver com o suposto “excepcionalismo português”. O outro, com a ideia de que os poemas e os romances descrevem o mundo. Comentando “Os Lusíadas”, Tamen desconfia que o nosso épico é sobretudo “Poesia & fingimento”, como escreveu, à época, um censor benigno e perspicaz. Claro que há factos documentados, saberes de experiências feitos, uma intenção colectiva; mas o poema de Camões deve tanto às “musas” quanto à História. Quando o romantismo e depois o republicanismo inventaram um cânone nacional, ou nacionalista, Camões era o candidato ideal, oficializado em versos e estátuas e feriados. Que a gesta se prestava e ainda se presta a discursos sobre o esplendor de Portugal não há dúvida; mas isso não nos deve levar a imaginar que “Os Lusíadas” são uma “descrição do país”, o de outrora ou o de agora, muito menos uma descrição “intemporal” dos portugueses. O poema descreve, antes do mais, a cabeça, linguisticamente comunicável, de Camões, um grande poeta. E isso importa muito. Um sábio inglês avisou que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas; mas um grande poeta é um acontecimento que às vezes séculos seguidos não produzem.

Outros ensaios retomam essa tese. A “Peregrinação”, por exemplo, é lida à luz do seguinte conceito: como se reconhecem dois portugueses quando estão no estrangeiro? Fernão Mendes Pinto concebeu descrições vívidas e fantasiosas do Oriente, mas também nos deixou uma hipotética e intuitiva descrição dos portugueses expatriados no momento em que estes se encontram e reconhecem. Um reconhecimento que, note-se, não passa necessariamente pelo facto de um português (pessoa) falar português (língua). Dizer que fulano é português ou que fala português não é verdadeiramente conhecê-lo; mas a “Peregrinação” supõe um sentimento de comunidade que permite ao menos “reconhecer” um português, seja isso verdade ou não.

Esta segunda edição, modificada e aumentada, de “Artigos Portugueses” (a primeira é de 2002) reúne 14 textos desta índole, nascidos como notas de aulas ou intervenções em seminários e conferências. Cada ensaio propõe um “argumento”, global mas não-exaustivo, e defende-o com densidade, brevidade e verve. O argumento sobre as “Viagens na Minha Terra” é que se trata apenas de uma viagem à volta de um quarto e de que não há nenhuma distinção útil entre a viagem e a novela da Joaninha. O argumento sobre Cesário Verde é que a “análise” e o “real” que ele invocou são pouco fiáveis enquanto instrumentos poéticos. O argumento sobre “A Cidade e as Serras” é que não há oposição nenhuma entre serras e cidade, nem são verosímeis mudanças de personalidade motivadas por uma Arcádia de província. O argumento sobre o “Só” é que a linguagem coloquial-sentimental de António Nobre tem mais a ver com uma exasperação individual do que com uma tristeza “portuguesa”. Um dos argumentos sobre Pessoa é que a famosa “carta sobre a génese dos heterónimos” não explica a génese dos heterónimos. O argumento sobre a poesia, por intermédio de Alexandre O’Neill, é que a “Avenida da Liberdade” que aparece num poema é incomensurável com a Avenida da Liberdade que nós conhecemos e atravessamos, isto é, com “a realidade”. Em todos os casos, o mesmo cepticismo face a “descrições gerais da tribo”, essencialistas e trans-históricas, e à atribuição de um “sentido” específico, decifrável, assertivo, à literatura.

O cânone, em Miguel Tamen, é estudado em contiguidade com outros “artigos portugueses” (o sentido “de mercearia” é voluntário). Artigos como a toponímia lisboeta, um bilhete da Rainha, uma resolução do Conselho de Ministros ou a confusão entre o Conde de Valbom e o visconde de Valmor. Estratégias mais académicas, como o close reading, assumem uma feição inusitada, concentrando-se em tempos verbais como o imperfeito do conjuntivo ou em figuras de estilo como o quiasmo. E o tom faceto ajuda o argumento, não o enfraquece, poupando-nos além disso a divagações satisfeitas sobre a “narratologia” e a “alteridade”. Situado algures entre o filósofo da linguagem John Austin e a lúcida Alice de Lewis Carroll, Tamen entende os textos literários como um conjunto fascinante de “barulhos linguísticos”, objectos interpretáveis mas ambíguos, e não como avatares da língua, da pátria, da identidade ou até do sentido. Era mais que tempo.