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O Brasil é mais do que vemos. O Brasil também é isto

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Brasília

FERNANDO BIZERRA JR./EPA

O Brasil está a viver dias muitos conturbados. Os números ajudam a fazer o diagnóstico do país e os números não são bonitos de ver, não. Desemprego, inflação, corrupção. O convite de Dilma Rousseff ao ex-presidente Lula da Silva, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito do processo Lava Jato, foi a gota d'água. Mas o Brasil não é só isso. O Brasil também é, por exemplo, literatura, música, cinema e artes plásticas. O Brasil também é, por exemplo, João Paulo Cuenca, Tatiana Salem Levy, Julian Fuks, Boogarins, Mutantes, Kleber Mendonça Filho, Anna Muylaert, Rosangela Rennó, Vik Muniz. Bem sabemos que ainda é mais do isso, mas estes exemplos servem perfeitamente para ilustrar a ideia de que o Brasil é, de facto, sempre mais do que aquilo que julgamos ser

Helena Bento

Jornalista

O Brasil vive atualmente dias muitos conturbados. Os números ajudam a fazer o diagnóstico do país e os números não são bonitos de ver, não. Com uma taxa de desemprego de 9%, registada no último trimestre de 2015 (um aumento de 40,8% face ao valor observado no período homólogo de 2014), segundo números recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e uma taxa de inflação que ultrapassa os 10%, o Brasil está a caminho da pior recessão em mais de um século. Cerca de 9,08 milhões de brasileiros não têm trabalho – quase o total da população portuguesa. Mas há mais, mais números, nenhum deles bonito, todos eles desagradáveis. Segundo dados divulgados pelo IBGE no início deste mês, o PIB brasileiro caiu 3,8% em 2015 – o pior resultado desde 1990, segundo a “Folha de São Paulo” - e o rendimento per capita recuou 4,6%. O país é, aos olhos das principais agências de notação financeira, “lixo”.

Como se tudo isso não bastasse, o Brasil enfrenta o maior escândalo de corrupção de que há história no país, investigado no contexto da operação Lava Jato, que tem vindo desde 2014 a expor uma intrincada teia de corrupção política e empresarial envolvendo a companhia estatal Petrobras, as principais construtoras do país e políticos de diferentes partidos. Um deles é Lula da Silva, que está a ser investigado por suspeitas de favorecimento a algumas construtoras e por ter recebido "prendas" provenientes do esquema de corrupção. Lula, como é óbvio, tem negado tudo, dizendo-se vítima de uma perseguição política. E de tal modo se considera uma vítima, que decidiu aceitar o convite de Dilma Rousseff para assumir a pasta da Casa Civil. Houve, porém, quem não gostasse e tentasse travar o processo junto de alguns tribunais do país. Lula foi ministro e deixou de ser ministro e voltou a sê-lo no espaço de 48 horas - um pingue-pongue de nomeações e suspensões que parece finalmente ter chegado ao fim na sexta-feira à noite, após ser conhecida a decisão - de carácter provisório, sendo preciso esperar pela resposta definitiva do plenário - do Supremo Tribunal Federal. Lula, que disse “sim” a Dilma para vê-la sorrir “pelo menos dez vezes por dia”, terá, portanto, de esperar.

O Brasil é isto, mas não é só isto

Mas tudo isto são detalhes complexos de uma situação ainda mais complexa e com ainda mais detalhes. Dizíamos, no início, que o Brasil está a viver dias muitos conturbados e apresentávamos números, números feios, duros, para mostrar o quão conturbados esses dias têm sido, mas o Brasil não é apenas números feios, duros, nem é sequer apenas números - feios e duros ou, pelo contrário, bonitos - e não é apenas a corrupção e as taxas estupidamente altas de inflação e desemprego ou os presidentes ou ministros ou candidatos a ministros que geram ódios e dividem a população em vez de uni-la. O Brasil também é, por exemplo, literatura, música, cinema e artes plásticas.

O Brasil que é literatura também é, por exemplo, escritores como Tatiana Salem Levy, Julian Fuks e João Paulo Cuenca, os três apontados pela revista Granta como alguns dos mais promissores romancistas brasileiros. Autora de três romances (“A Chave de Casa”, seu romance de estreia, venceu em 2008 o Prémio São Paulo de Literatura) e dois livros infantis, tendo também participado em várias antologias de contos, Tatiana Salem Levy foi distinguida em 2013 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil brasileira na categoria de escritor revelação. Nas suas obras, são frequentes as referências a Portugal, o que se deve, segundo explicou numa entrevista Público, às suas leituras. “Lia Camões, Pessoa, as cantigas de amigo, Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Raul Brandão, Alexandre Herculano, Eça, Augusto Abelaira, Lídia Jorge, Lobo Antunes e Saramago”, contava a escritora brasileira.

Escritor, jornalista, cineasta e dramaturgo, o brasileiro João Paulo Cuenca é um dos nomes mais conhecidos da literatura brasileira atual. Autor de quatro romances muito premiados, dois deles publicados em Portugal, Cuenca também tem assinado vários contos para publicações diversas, assim como argumentos ("Afinal o que querem as mulheres?", série que passou em horário nobre na TV Globo e foi bem recebida pela crítica) e peças para teatro. Embora João Paulo Cuenca seja uma referência incontornável no Brasil, por cá é provável que o nome de Julian Fuks, o terceiro deste trio de escritores brasileiros por nós improvisado, esteja mais presente. Isto porque o autor de 34 anos acabou de lançar em Portugal, no festival literário Correntes d'Escritas, na Póvoa do Varzim, o seu quarto e mais recente romance, "A Resistência", que deixou a crítica literária rendida ao seu talento.

Além destes e de outros escritores brasileiros que não são referidos no texto mas podiam perfeitamente sê-lo, o Brasil, que está a viver dias de grande tensão e agitação social, também é, como dizíamos, música. É Boogarins, esse rock psicadélico de Goiânia, no Estado de Góias, aberto ao mundo. No final de 2014, o quarteto foi destacado pela “Rolling Stone Brasil” e pela Globo TV enquanto “Melhor Novo Artista”. As influências do grupo são várias, verdadeiras autoridades que não admitem dúvidas. Beatles, Tame Impala, Syd Barrett. E Mutantes, pois claro. Pois que o Brasil também tem Mutantes, é verdade. O Brasil tem Mutantes e isso é ter muito mais do que a maior parte dos países. É motivo para inveja, pois é. Formados em 1965 pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, e Rita Lee, os Mutantes são considerados ainda um caso único da história do psicadelismo. Tendo aparecido inicialmente muito colados ao tropicalismo, movimento cultural brasileiro surgido no final dos anos 60, em plena ditadura militar, influenciado pelas correntes artísticas da vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira, a banda optou depois por se afastar do movimento e seguir o seu próprio caminho.

Nas artes plásticas, o Brasil também é exemplar. O Brasil que tem, por exemplo, Vik Muniz, o bem-sucedido artista com mais de 30 anos de carreira radicado nos Estados Unidos, que faz arte a partir de produtos e resíduos do quotidiano. E que tem Rosangela Rennó (Belo Horizonte, 1963), que já expôs em alguns dos maiores museus internacionais, desde o Reina Sofia, em Madrid, à Tate Modern, passando pelo Stedelijk Museum, em Amesterdão, e tem mostrado regularmente o seu trabalho em Portugal, incluindo no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e na galeria Cristina Guerra, dedicada à arte contemporânea.

E o Brasil que tem, no cinema, Kleber Mendonça Filho (“O Som ao Redor”, considerado pelo “New York Times” um dos dez melhores filmes realizados em 2012), descrito algures como o ponta-de-lança do novo cinema brasileiro. E que tem também, por exemplo, Anna Muylaert, cujo filme “Que Horas Ela Volta?”, sobre uma empregada doméstica, Val, que deixa Pernambuco para ir trabalhar para São Paulo, foi exibido recentemente em Portugal. Premiado no Festival de Cinema de Sundance (onde recebeu o Prémio do Júri) e no Festival de Berlim (arrecadou o Prémio do Público), tendo sido ainda o candidato brasileiro à nomeação para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro na 88ª edição dos Óscares, que decorreu em Fevereiro deste ano, “Que Horas Ela Volta?” põe verdadeira e impiedosamente o dedo na ferida das desigualdades sociais do país.

Não podemos que negar que o Brasil dos dias de hoje é aquele que nos chega pela televisão e Internet. O Brasil da corrupção, da pobreza e das desigualdades sociais. O Brasil dos dias negros e conturbados e dos números feios, feiinhos. Mas o Brasil não é só isso. O Brasil também é arte e cultura. É isso, isto, e o que mais quisermos que seja. Tudo menos reduzi-lo a uma imagem.