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Como ver o mundo de forma diferente

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PROCRASTINAÇÃO CRIATIVA. A genialidade do discurso de Martin Luther King, “Eu tenho um sonho”, proferido em 1963, advém do facto de ter sido escrito à última da hora, diz o autor de “Originals”

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A criatividade pode ser treinada. Adam Grant, professor da Wharton Business School, na Pensilvânia, e antigo mágico profissional, explica como. A procrastinação é um dos segredos...

Façamos o teste. Qual o browser que utiliza para as suas pesquisas na Internet? Mantém-se fiel ao velhinho Internet Explorer (prestes, aliás, a ser exinto pela Microsoft, que está a preparar uma nova versão, por enquanto ainda só conhecida pelo nome de código 'Project Sparta') ou já descarregou as últimas versões do Chrome e do Firefox e, sempre que possível, experimenta outras novidades no campo das tecnologias?

Se a sua resposta tender para a primeira hipótese, então é daqueles conservadores que, só por obrigação, tende a sair da sua zona de conforto; se, pelo contrário, enquadrar-se na segunda hipótese, é bem possível que seja uma daquelas pessoas natural mais predispostas para a inovação. Adam Grant, um dos professores mais adorados da prestigiada escola de negócios Wharton School da Universidade de Pensilvânia, testou esta teoria no mundo real e concluiu que os trabalhadores de call centers de apoio ao cliente que usam o Chrome ou o Firefox são mais bem-sucedidos e satisfeitos com as suas funções.

No seu livro, “Originals”, Grant explora a forma como os inovadores veem o mundo de forma diferente e arrastam outros, consigo, no caminho do sucesso. O autor, que antes de se tornar professor especialista em comportamento organizacional, motivação no trabalho e mudança, foi mágico profissional, repete a fórmula da sua obra antecessora, “Give and Take”, onde se debruça sobre a forma como a generosidade e a inveja podem contribuir para a progressão na carreira. Nela, o académico demonstra que, se dermos incondicionalmente no nosso local de trabalho estamos, na verdade, a agir no nosso próprio interesse profissional: os 'givers', que se distinguem dos 'takers' e até dos 'matchers' (que protegem os primeiros e castigam os segundos), dominam o topo da escada do sucesso. Contudo, como apontou, os 'givers' também predominam na base dessa escada e o seu livro serve como guia: como dar mais para progredir mais.

Neste livro, Grant olha agora para os 'originals', os originais. E não tanto para os inovadores. Em entrevista ao 'The New York Times', o professor explica a diferente entre a originalidade e a criatividade: “Criatividade é a geração de ideias que são novidades e que são úteis. Eu defino os originais como pessoas que vão para lá da criação de ideias, pessoas que tomam iniciativa para tornarem as suas visões em realidade. Este livro é como a sequela da criatividade — é sobre a forma como se faz vingar as novas ideias”, referiu. E assume: “Este livro é sobre como todos nós podemos tornar-nos mais originais.” E dá ferramentas práticas para que possamos 'libertar' a criatividade escondida que existe em nós. Não apenas no loval de trabalho, mas também em casa, para que consigamos “construir culturas de originalidade”.

É o filho mais velho ou o mais novo? É que disso também depende a inovação

Adam Grant fala de um estado intermédio de conservadorismo, que pode matar toda a originalidade que temos. Quanto mais familiarizados com um assunto ou domínio em particular, menos criativos tendemos a ser. Por outro lado, se estivermos em funções intermédias, igualmente mais difícil se torna ter ideias e pô-las em práticas. É no princípio e no final da hierarquia das organizações que se encontra mais espaço para se impor novas ideias.
Apresentado diversos estudos e teorias, de forma prática e humorística, muito ao estilo do Malcolm Gladwell e do seu “Blink” ou “Outliers”, Adam Grant explica como existe uma maior tendência, entre os filhos mais novos, para serem mais originais de forma a distinguirem-se dos irmãos mais velhos, tendencialmente mais bem comportados e obedientes. Nota: Grant fala apenas de tendências. Porque se é verdade que alguém que seja o filho mais novo tem mais probabilidades de fazer uma descoberta científica, são os filhos mais velhos que, normalmente, se tornam prémio Nobel ou chegam a presidentes executivos de uma companhia. Mais uma vez, probabilidades.

O mérito da procrastinação

Por outro lado, Grant explica que a procrastinação, geralmente, é boa para a criatividade e gera resultados mais produtivos. Só quando o 'deadline' se aproxima é que o cérebro parece processar o problema e resolvê-lo. Parece que, afinal, temos agora uma boa desculpa para afastar o sentimento de culpa que, normalmente, nos assombra durante o período em que arrastamos a decisão de lançarmos, ou não, mãos ao trabalho.

Segundo Adam Grant, cerca de 20% dos adultos dizem-se procrastinadores crónicos. Mas a verdade é que, provavelmente, também são mais criativos. Grant conta que se tornou mais sensível a este tema quando uma das suas alunas mais criativas lhe contou que as suas ideias mais originais chegavam, na sua maioria, depois de ter procrastinado.

O autor aponta para um estudo da professora Jihae Shin, da Universidade do Wiscosin, que investigou esta hipótese fazendo inquéritos em duas companhias diferentes. Shin analisou a frequência com que os trabalhadores procrastinavam e pediu às chefias para avaliarem a criatividade e a inovação de cada um dos colaboradores. Conclui que aqueles que mais diziam procrastinar eram, precisamente, aqueles que as chefias diziam ser mais criativos.

Em laboratório, Shin concluiu também que as pessoas que, durante cinco minutos, jogavam ao famoso jogo de cartas “Solitário”, no computador, davam respostas 28% mais criativas às mesmas perguntas do que o grupo de pessoas que não tinha passado por esse momento de prazer e perguiça.

Grant explica que a procrastinação faz a mente vaguear, sentir-se mais liberta e, por isso, encontrar visões mais inovadoras.

Sem procrastinação, o mundo nunca teria conhecido a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci, obra-prima que levou 16 anos — e muitas interrupções — a fazer; e nunca teria sido inspirado pelo famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. À BBC Radio 4, como conta o 'The Independent', Grant explicou: “Os grandes discursos da História foram rescritos no último minuto e, por isso, tinham uma grande flexibilidade para o improviso, muito mais do que se o texto tivesse sido escrito com meses de antecedência”.

Ao mesmo tempo, explica o autor, os rasgos brilhantes dos 'originais' tendem a ocorrer em catadupa. Einstein, por exemplo, publicou ao longo da sua carreira 248 artigos, a grande maioria num período curto de apenas alguns anos. Da mesma forma, nem todos os quadros de Picasso ou das composições de Mozart, Bach ou Beethoven, são consideradas obras-primas. E aquelas que o são foram criadas, quase sem exceção, num determinado período de tempo, “que não ultrapassa os dois dígitos”.

Em entrevista ao 'The New York Times', Adam Grant afirma que “os génios não têm melhores ideias do que o resto das pessoas. Simplesmente têm em maior quantidade do que nós”. Quando questionado sobre os “melhores atalhos” para chegar à criatividade, Grant não complica: “É diversificar a base de experiências. Quando as pessoas pensam que são pouco criativas ou originais é porque têm o mesmo tipo de experiências que toda a gente tem.”

"Originals: How Non-Conformists Move the World", de Adam Grant, ed. Viking, 336 páginas, €14,60 (preço na Amazon)

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