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“Ter de ter graça é cansativo.” Nicolau Breyner (1940-2016)

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Nicolau Breyner, a 20 de abril de 2010, num ensaio do espetáculo comemorativo dos 50 anos de carreira

André Kosters / Lusa

Tinha acabado de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Foi em junho de 2012, aos 71 anos. “A única vantagem desta idade é poder dizer tudo o que penso.” O Expresso pediu-lhe então para ele dizer o que pensava. A rubrica chamava-se “Íntimo”, ele esteve à altura: falou de sentimentos e pedidos privados. “Estou agora a falar nisto e comovi-me... nestas coisas sou um bocado maricas”. Esta é a republicação desse documento raro, narrado na primeira pessoa. Nicolau Breyner morreu esta segunda-feira, aos 75 anos

Esta história vem a propósito do riso. Conheci o Vinicius (de Morais) no bar do Hotel Império, teria eu uns 30 anos, e foi amor à primeira vista. Começámos a falar e nunca mais nos calámos. Foi assim até ele morrer.

Falávamos de tudo, mas o mais importante era rir. Um dia, estávamos juntos há horas, e às tantas perguntei-lhe: "E, agora, que vamos fazer?" "Rir mais", respondeu. E ficámos a rir e a falar de poesia, das pessoas e dos sentimentos, e a contar histórias de Portugal e do Brasil, e assim ficámos até às tantas da madrugada. Quando for grande quero ser como ele.

Era um ser humano de eleição. Com o Jô Soares também tenho uma amizade de riso que começou com uma brincadeira. Estávamos num restaurante e puseram-se a cantar "Ó Elvas, ó Elvas, Badajoz à vista..." e o Jô disse: "É espantosa a admiração que vocês têm pelo Elvis (Presley)". Era a sério - e quando lhe expliquei, escangalhámo-nos a rir! Falamos ao telefone semanalmente só para contar um episódio engraçado que nos aconteceu. O telefona toca e ele começa "ah ah ah! Você nem imagina, mas é tão engraçado"... fica naquilo durante dez minutos.

Arquivo “A Capital”

Trabalhar com humor é cansativo. Não se aprende a ser comediante. Podemo-nos aperfeiçoar, mas não é uma técnica que se ensine. Gosto da expressão inglesa to play. Representar é fazer de conta, É um jogo, um divertimento. Complico pouco o trabalho. O mais difícil é decorar páginas e páginas de texto. Invento muito. Não sou metódico, mas sou muito observador e faço as coisas por instinto. Só penso no papel quando visto o fato. A roupa é importante e define muita coisa. Quando me visto, começa a aparecer a personagem: 'Ele vai andar assim, vai falar desta maneira...' O teatro aconteceu-me por causa da ópera.

Queria ser cantor e fui fazer o curso do Conservatório como complemento. Participei em várias óperas e adorava aquilo, mas rapidamente percebi que não teria a coragem para a disciplina física que a profissão exige. Não poder isto, nem aquilo... Tinha 20 anos, queria poder tudo.

Trabalhar no estrangeiro nunca me atraiu. Cheguei a estar com o Peter Brook em Avignon, tinha-o conhecido num curso de teatro em Lisboa, mas entretanto desisti. E o trabalho que me dava? Ficar longe de Serpa, não comer sardinhas assadas! Sou um grande comodista, e em Portugal a minha vida é boa e fácil. As pessoas conhecem-me, sou bem tratado.

Arquivo “A Capital”

Gosto muito de estar em casa. Fui casado cinco vezes. Agora vivo numa casa com cinco crianças. Duas são minhas. O mais chato é o barulho que fazem e o espaço que ocupam. Preciso de me isolar. Serpa está ligada às coisas mais antigas. Sou olfativo, as memórias de infância são cheiros das estevas, dos cozinhados da Bia, o cheiro do meu pai e do meu avô, e os cavalos. O Alentejo é um cavalo a atravessar a planície e o concerto de Aranjuez. Esta imagem pode ser um grande cliché mas não me importo nada.

A única vantagem desta idade é poder dizer tudo o que penso. A perda das capacidades mentais assusta-me mas não me revejo na palavra velhice. Sinto muita energia, chega a ser assustador, porque trabalho brutalidades. Hoje entrei no estúdio às seis da manhã, já fiz não sei quantas coisas, fui à ginástica, voltei, ainda não parei e não me sinto cansado.

Arquivo “A Capital”

Apetece-me iniciar novos projetos. Provavelmente a energia vem desta vontade tremenda de agarrar tudo antes que a morte chegue. Perdi a conta aos papéis que fiz. Não gosto de repetir personagens.

Tive um grande amigo, o César de Oliveira, que trabalhava muito comigo e que criou a Tia Eva, aquele "boneco" que se metia com os políticos. Quando morreu, deixou-me uma carta a pedir que nunca mais fizesse a tia Eva. Nunca expliquei porque não o fazia. Estou agora a falar nisto e comovi-me... nestas coisas sou um bocado maricas.

Arquivo “A Capital”