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Perfeita é a imagem definitiva

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Um ator que parecia que não tinha falhas. Eis uma breve impressão sobre Nicolau Breyner pelo crítico de teatro do Expresso João Carneiro

João Carneiro

Quando me telefonaram do jornal a pedir um texto sobre o Nicolau Breyner, não poderia, nunca, escrever um obituário em forma e informado, porque não teria os conhecimentos necessários para o fazer. E no entanto foi quase com naturalidade que considerei escrever alguma coisa sobre uma pessoa que eu não conheci senão superficialmente. Cumprimentávamo-nos, simpaticamente, quando nos cruzávamos, em Lisboa, nalgum lugar público. E, é claro, conhecia o Nicolau Breyner como figura pública, conhecia-o muito antes ainda de fazer crítica de teatro.

Conhecia-o, como o conheci continuadamente, essencialmente, da televisão. Vi-o, durante muitos anos, muitas vezes casualmente; e não poderia ter guardado melhor impressão do Nicolau Breyner. Como ator, sempre o achei certo, parecia que não tinha falhas.

É aqui que as impressões da pessoa e do profissional se cruzam, e de maneira significativa, importante, invulgar. A pessoa do Nicolau Breyner que eu cruzava casualmente na cidade coincidia com a pessoa do Nicolau Breyner que eu via na televisão, a falar, a representar. Seria a voz? Seria a representação? Seria a sua verdadeira natureza que condicionava a natureza da persona cénica e televisiva?

Muitas vezes, ao passar pela entrada da escola de atores que criou, no mesmo edifício onde existe uma outra escola onde dou aulas, ao subir a escada para a minha sala, e até desaparecer por completo a imagem daquela porta de entrada, muitas vezes, dizia, dei por mim a pensar na figura do Nicolau Breyner, a pensar como seria a relação daquela pessoa, e daquela personagem, com aquele espaço que eu, muitas vezes, já só via, e vejo, de passagem e a horas crepusculares, com o dia a acabar. Agora, infelizmente, terei de ficar com a imagem que já tinha, reconfigurada por essa ‘visitante inoportuna’. Felizmente, essa imagem do Nicolau Breyner ficou fixada, inoportunamente como sempre que esta visitante se manifesta, de uma maneira definitiva, e essa imagem definitiva é praticamente perfeita.