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Nicolau Breyner, o homem dos sete instrumentos. Por Jorge Leitão Ramos

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O teatro, o cinema, mas sobretudo a televisão foram marcados pela energia criativa de Nicolau Breyner. Morreu esta segunda-feira, em Lisboa. Tinha 75 anos

Arquivo “A Capital”

O público habituara-se a vê-lo como comediante, na televisão, desde os tempos heroicos do “Sr Feliz e do Sr. Contente” que fez, na RTP, em 1975, com um Herman José em estado de verdura. Corria a revolução pelas ruas e eles intimavam-se, mutuamente, em crítico humor, “diga à gente, diga à gente, como vai este país”. Já então Nicolau Breyner tinha um programa em nome próprio – “Nicolau no País das Maravilhas” – não era exatamente um novato.

Na juventude pensara ser tenor de ópera e, para tanto, ingressara no Conservatório Nacional, em 1959. A meio caminho virou agulhas para o teatro, declamado, como então se dizia. E ainda chegou a fazê-lo, pela mão do severo mestre Francisco Ribeiro, no Teatro Nacional Popular. Corria o ano de 1960. Nos primeiros tempos fez de tudo – do boulevard ao teatro infantil, da alta comédia ao drama e à revista. Até Shakespeare experimenta nesses anos de uma tarimba de pequenos papéis à espera de crescer – era um tempo em que não havia vedetas instantâneas que só a televisão torna, hoje, possíveis. Mas no cair da década é já nome primeiro no teatro de revista e nas graças do público. Chegam os ‘números’ que lhe garantem um lugar na memória daquele género de teatro hoje em estado de quase extinção – como o Marquês de Pombal de “Ó Zé Aperta o Cinto !...”, em 1971, ou o travesti de Golda Meir em “Pró Menino e Prá Menina”, dois anos depois.

Após 1974, continua a ter presença nos palcos, mas progressivamente mais espaçada, até que, a partir de meados da década seguinte, abandona o teatro como atividade regular. É na televisão que a sua presença se torna assídua, em sucessivos programas de humor que encabeça. É também ele que ousa o arranque da produção de telenovelas em Portugal (com “Vila Faia”, em 1982), como autor, intérprete e, mais tarde, realizador. Em 1990, com outros sócios, funda a NBP (Nicolau Breyner Produções), que se tornará num gigante da produção audiovisual em Portugal. É nessa “Vila Faia” pioneira que o grande público descobre um Nicolau Breyner intérprete dramático. O seu João Godunha tornou-se inesquecível.

António Pedro Ferreira

Curiosamente, o melhor que fez em cinema, como ator, também não foi na vertente cómica. Lembremos o duro e magoado dirigente comunista de “Adeus Princesa” de Jorge Paixão da Costa (1992), o inspetor da Judiciária cheio de manha e fado, em “Os Imortais” de António Pedro Vasconcelos (2003), o homem de negócios fascinado por uma doce meretriz, em “O Milagre Segundo Salomé” de Mário Barroso (2004), o avô sonhador de “Atrás da Nuvens” de Jorge Queiroga (2006) ou o presidente de um clube desportivo nortenho com propensão para pagar favores e entrar em esquemas turvos no filme “Corrupção”, que João Botelho acabou por não assinar, em 2007. E são apenas alguns dos (muitos) desempenhos que fez, assegurando-lhe um lugar cimeiro na memória dos portugueses: o cinema tem essa importante função, também. Gerações vindouras poderão saber o grande ator dramático que Nicolau Breyner era, enquanto as cinematecas continuarem o trabalho de preservar o património fílmico.

Igual mérito não se poderá sustentar sobre o que fez como realizador de cinema – seu grande e antigo sonho que foi, longamente, adiando e que, nos últimos anos, conseguiu concretizar. Primeiro em telefilmes, depois, sucessivamente, com um filme de ação (“Contrato”, 2008), um thriller (“A Teia de Gelo”, 2012), finalmente uma comédia (“7 Pecados Rurais”, 2013) em que consegue um enorme êxito de bilheteira (cerca de 300 mil espectadores). Não era um grande filme, mas o sucesso é sempre uma bênção merecida para um homem que, nas artes do espetáculo, tocou múltiplos instrumentos, generosamente, e com um sorriso. Agora, na casa dos setenta, gostaria de ter feito, no teatro, o “Desejo sob os Ulmeiros” de Eugene O'Neill, para o qual já tinha idade, além de realizar mais três ou quatro filmes que entre ideia, escrita e produção estavam na calha. Não teve tempo.