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Portas que se abrem, mas não para todos

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VAIVÉM. Patente de uma porta giratória registada pelo engenheiro alemão Theophilus van Kannel em 1888. A metáfora serve para designar a circulação de figuras poderosas entre a política e os negócios

d.r.

Uma investigação publicada em Espanha mostra como o vaivém entre política e negócios, não raro com escasso escrúpulo ético, é um fenómeno que não conhece fronteiras

O que terá acontecido primeiro: um político sentar-se na poltrona de uma grande empresa após uma carreira em cargos de Estado ou um empresário adivinhar que a política podia ser útil ao seu percurso nos negócios? O enigma é capaz de ser tão complicado como o de saber se surgiu primeiro o ovo ou a galinha, mas o assunto é decerto atual.

Por estes dias Portugal assiste – não sem espírito crítico, faça-se justiça – à contratação da ex-ministra Maria Luís Albuquerque por uma empresa do sector que tutelou, em funções para as quais nada - a não ser a passagem pelo Governo - a qualifica, e após ausente ou ínfimo período de nojo. E se alguém nos disser que isso se deve ao facto de as empresas procurarem “contactos, gente capaz de bater à porta e ser recebido nos mais importantes gabinetes”, em vez de “especialistas nos seus sectores de negócio”?

É esta a base de que parte um livro lançado há dias no país vizinho. Em “El club de las puertas giratorias” (O clube das portas giratórias), o jornalista Luis Miguel Montero (antigo redator do diário “El País”, agora na revista “Interviu”) escreve sobre influências retroalimentadas, num panorama em que “os eleitos pelas multinacionais acabam a trabalhar nos sectores em cuja regulação influíram decisivamente quando legislavam”. “A grande tarte do Estado reparte-se entre comprometidos de todas as cores, como se se tratasse de uma empresa de colocação. Mas estas situações de privilégio costumam ser um péssimo negócio para os cidadãos”, acrescenta.

Dos grandes aos emergentes, ninguém escapa

Os exemplos não faltam no volume, desde o recente Agustín Conde (ex-deputado do Partido Popular, no Governo, que ingressou no Conselho de Administração da Red Eléctrica espanhola, detida pela empresa Sepi, dependente do Ministério das Finanças) à ex-ministra socialista Elena Salgado, que da pasta da Economia seguiu para a Nueva Pescanova, não sem antes passar pela elétrica Endesa, meros quatro meses depois de a tutelar.

As dezenas de casos descritos em “El club de las puertas giratorias” não são exclusivas dos dois maiores partidos espanhóis. Dirigentes de regiões e de partidos bascos, catalães e navarros, nomeadamente, também surgem no rol. E até forças emergentes como o Podemos, que brada contra a “casta” dos instalados, têm, afinal, dirigentes com percursos questionáveis, assegura o autor.

Montero dizia há dias ao Canal Extremadura que teve de selecionar entre os 143 casos que investigou ao longo de 18 meses. Ficaram menos de 60, por razões de espaço. “E isto passa-se em todos os países, mas com graus distintos de transparência”, afirma o autor, recordando que nos Estados Unidos os membros do Congresso têm de declarar as empresas com as quais têm contactos (o lóbi é assumido).

Tanto faz se é do PS ou do PSD

Se o livro é sobre Espanha, não se pense que os irmãos ibéricos são nisto muito distintos. Lembre-se que Joaquim Pina Moura (ministro da Economia e das Finanças com Guterres) reestruturou o sector energético, tendo promovido a entrada da empresa espanhola Iberdrola no capital da Galp; depois da queda do Governo, tornou-se presidente da Iberdrola em Portugal. Jorge Coelho, também do PS, foi para a Mota Engil depois de ter sido ministro das Obras Públicas. Ferreira do Amaral (PSD) seguiu da mesma pasta para a Lusoponte, constituída durante o seu consulado, nos governos de Cavaco Silva.

Dividido em 11 capítulos, o livro de Montero vai além do mero carrossel das contratações (que, já agora, incluem não só políticos no ativo e jubilados como familiares e amigos dos mesmos). Aborda temas que vão da cartelização de preços entre grandes empresas, tolerada por sucessivos governos, às ligações pouco transparentes entre negócios – imobiliários, designadamente – e política, de que é exemplo a influência da banca na mais recente reforma laboral.

Apesar da perspetiva cinzenta, Montero procura analisar que propostas de alterações à legislação têm surgido nos últimos tempos. É que a lei espanhola atual, que proíbe durante dois anos a participação em conselhos de administração de empresas que o político tenha tutelado, é insuficiente: “muitos ex-ministros entram para filiais estrangeiras de empresas que tutelaram”, explica. As sanções também são inócuas o bastante para que valha a pena (em termos financeiros) prevaricar.

Haverá uma réstia de esperança? “Se nem para empossar um primeiro-ministro são capazes de se pôr de acordo!”, exclama Montero, criticando a inércia dos parlamentares. “Acho que não lhes interessa muito”, comenta, mas frisa que “não se deve generalizar”, porque há políticos honestos, por quem sente “profunda admiração”. Cruze os dedos, leitor. Ou arregace as mangas.

“El club de las puertas giratorias”, autor: Luis Miguel Montero, editora: La esfera de los libros, páginas: 276, preço: €20,90 (preço de editora)

“El club de las puertas giratorias”, autor: Luis Miguel Montero, editora: La esfera de los libros, páginas: 276, preço: €20,90 (preço de editora)