Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

De médico e de louco

  • 333

Reinaldo Serrano

d.e.

Numa altura em que boa parte do mundo – sem exceção portuguesa - assiste, ao mesmo tempo em que nervosamente quase se autorrecrimina, à reedição de “Mein Kampf”, pareceu-me oportuno chamar a atenção para obras infinitamente menos conhecidas mas não menos interessantes sobre um dos períodos mais negros da história da Humanidade.

Antes disso, porém, detenhamo-nos um pouco sobre este “Mein Kampf” (“A Minha Luta”), que Adolf Hitler escreveu nos idos de 1923 quando, na prisão de Landsberg, cumpria pena por traição depois da gorada tentativa de alcançar o poder no golpe (o “putsch”) de Munique. Ora, aquela que é ainda hoje uma das mais controversas obras da Europa Ocidental é, também hoje, olhada como um vasto documento panfletário, carregado de egocentrismo, antissemitismo puro, exacerbado ódio racial e um radical ultra-nacionalismo; ou seja, é um atabalhoado manifesto ideológico de um mitómano que teve, por razões sobejamente analisadas, a oportunidade de pôr em prática o seu muito próprio plano de um mundo dominado pela raça ariana e pelo ressurgimento de uma nova e poderosa Germânia.

Dito isto, que se diga também que a (re)edição portuguesa é, na verdade, uma nova edição, dado ser a primeira que contém a versão integral dos escritos de Adolf Hitler. Permito-me destacar a cuidadosa e apelativa edição da Guerra&Paz, com um interessante introito de Manuel S. Fonseca que, de forma clara e sucinta, nos propõe “Uma História da Ascensão, Poder e Cime do Nazismo”. Quanto ao mais, a obra de Hitler é um curioso, anacrónico e errático objeto de uma reflexão aqui e ali algo alucinada, pese embora o seu passado de quase “objeto de culto” a torne nos dias de hoje um perverso exercício no qual algumas mentes perversas procurarão encontrar um qualquer fundamento, uma qualquer justificação, para os motivos que moveram o Fuhrer a desencadear o segundo conflito mundial.

Mas o que queria hoje destacar é um livro bem menos conhecido, mas de leitura vivamente aconselhada aos que se interessam pela figura de Hitler e do nazismo. Chama-se “Karl Brandt” na lombada, mas é importante a extensão do título: “The Nazi Doctor – Medicine and Power in the Third Reich”. Quer isto dizer que o que autor nos propõe (e consegue alcançar) é uma viagem à vida e carreira do médico pessoal de Adolf Hitler, tarefa que desempenhou com esmero, ao mesmo tempo que foi comissário para a Saúde e Saneamento do regime nazi.

A obra, que descobri apenas em língua inglesa, data de 2007 e foi escrita por Ulf Schmidt, um reputado professor de História Moderna e diretor do Centro para a História da Medicina, Ética e Humanidades da Universidade de Kent. Autor de profusa obra sobre o eufemístico e sinistro “programa de eutanásia” do regime nazi, o seu vasto conhecimento sobre a matéria reflete-se sem margem para dúvida neste livro que é absolutamente original e fascinante ao mergulhar na mente de um homem (na verdade, dos homens e das mulheres) que chamou a si a perfídia de transformar seres humanos em joguetes. É uma viagem desconcertante, porque assente em princípios extremamente racionais dos protagonistas, que revela, passo a passo, os alicerces da “lógica” que transformou milhares de pessoas, grande parte delas bastante cultas, em esbirros e serventuários de um poder ao serviço do mal.

O que as cerca de 400 páginas da obra de Ulf Schmidt nos mostram (na verdade, nos revelam) é um novo olhar sobre o círculo íntimo de Hitler e de um homem culto e ponderado, que se tornou na figura de proa do regime em matéria de Saúde e do perverso e retorcido conceito em que esta foi transformada. Restará acrescentar o óbvio: Karl Brandt foi um dos julgados em Nuremberga, naquele que ficou conhecido como “O Processo dos Médicos”. Na verdade, a figura de Brandt era de tal forma importante que o nome oficial do processo foi “The United States of America vs. Karl Brandt et al”. Num total de 23 réus, 7 foram absolvidos, 9 foram condenados a penas de prisão entre os 10 anos e prisão perpétua e 7 foram sentenciados com a pena de morte, entre os quais Karl Brandt. Morreu por enforcamento aos 44 anos.

O mundo há de continuar a debruçar-se e a não esquecer o horror do que foi e do que podia ter sido o império nazi; há de lembrar-se do nome de Josef Mengele como “o médico da morte”. Talvez seja agora o momento de conhecer com o detalhe possível a figura de Karl Brandt e, através dele, entender o impossível: como um ser humano consegue alhear-se dos seus semelhantes por não os considerar como tal, como se, por uma obscura congregação de fatores, edificasse em torno de si próprio um sortilégio de maldade que o transformou num dos mais ignóbeis criminosos de guerra, sobre o qual Hipócrates desviaria o olhar em sinal de repulsa. “Karl Brandt” está disponível no mercado nacional.

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras