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Do outro lado da vida

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EXPOSIÇÃO. O projeto ECOAR levou um fotógrafo a acompanhar experiências artísticas em vários estabelecimentos prisionais da zona do Porto

FOTOS PAULO PIMENTA

O tranquilo final de tarde da rua de Stª Catarina, espaço privilegiado de diárias peregrinações comerciais pela baixa do Porto, é de súbito rasgado pela voz lançada por um corpo em movimento. É um jovem. Não terá mais de 25 anos. Vai em passo acelerado. Junto ao café Magestic continua a gritar uma quase litania iniciada muito lá atrás. É uma explosão de sentimentos. Proclama: “Saí da prisão há uma semana. Tenho saudades dos meus amigos.” Segue sem parar. Repete a frase como se fora um disco riscado. No ar ficam duas palavras: prisão e amigos.

Nunca se saberá quem são os saudosos amigos. Os de cá? Os deixados lá? Poderá ou não haver uma relação necessária entre aqueles dois conceitos. Neles se associa, por um lado a separação forçada do dia a dia onde se cruzam os comparsas de sempre, por outro a singular aproximação ou necessidade de não perder pontes com os companheiros conquistados num universo fechado. Podem vir da mesma rua, do mesmo bairro, da mesma cidade. Mas, ali, nunca serão o que foram. Parecem os mesmos. São outros.

Passa por aí, por essa perceção de duplicidade contida nos encontros inesperados, o projeto apresentado no Espaço Mira Fórum, em Campanhã, por Paulo Pimenta, um dos mais prestigiados fotojornalistas portugueses, com um muito marcante trabalho tantas vezes desenvolvido nas margens da sociedade tida por convencional. O seu olhar penetra e transporta para primeiro plano realidades escondidas, ou verdades cuja acutilância se torna mais cómodo ignorar, ou deixar cair no limbo da indiferença.

paulo Pimenta

Há nos seus trabalhos um sempre renovado sentido da descoberta, uma continuada procura de autenticidade, mesmo nas difíceis circunstâncias de vidas encenadas. Como as vividas numa prisão. Nada ali é natural. Nada ali é normal. Nada ali decorre do fluir natural das horas e dos dias. Tudo ali é uma construção.

A PELE é uma estrutura artística do Porto que desde a sua fundação, em 2007, assume o teatro como espaço de diálogo e criação coletiva, e tem procurado colocar os indivíduos e as comunidades no centro da atividade criativa. Há mais de um ano desafiou Paulo Pimenta a dar continuidade à sua participação no projeto ECOAR, desenvolvido desde 2009 em contexto prisional, e no qual participaram já mais de 160 jovens em diversificadas propostas com uma componente artística.

Desta vez tratava-se de proceder ao registo documental de um conjunto de atividades inseridas no projeto arte e cidadania, desenvolvidas no Estabelecimento Prisional do Porto, nos Estabelecimentos Prisionais de Santa Cruz do Bispo Feminino e Masculino – Regime comum e clínica psiquiátrica, e no Estabelecimento Prisional de Vale do Sousa.

paulo pimenta

São, no total, 27 imagens a preto e branco captadas ao longo de 13 meses de permanência no terreno. 27 fragmentos de uma narrativa marcada pela noção de fronteira. Há naquelas imagens, mesmo quando se impõe a ilusão de liberdade, espelhada nos momentos de entrega dos presos à experiência do circo, do teatro, ou da performance, a inevitável perceção dos limites. Os muros serão invisíveis, mas estão lá. Mesmo se não se impõem na sua materialidade. São outros muros, feitos barreira constante entre modos de ser e de estar.

Do Outro Lado... foi o título escolhido por Paulo Pimenta para esta exposição. E, a partir daquele lado outro, são tantos os mundos possíveis. Tantas as vidas imaginárias. Tantos os retratos captados pelo olhar solidário de um fotógrafo para quem cada homem, cada mulher, é um universo submerso em dúvidas, em interrogações. Não há certezas. Há esperanças. Há um percurso sempre em aberto. Mesmo num espaço fechado por definição. Assim se vive do outro lado da vida.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras