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Preso à vida

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Cena de “Prison Terminal – The Last Days of Private Jack Hall”

d.r.

Reinaldo Serrano

Dito de uma forma brusca, destemperada, pragmática e descomplexada, a morte será a ausência de vida. O raciocínio, tautológico do princípio ao fim, não será menos verdadeiro mas menos espirituoso quando comparado com o sentimento por alguns manifestado relativo ao fim do tempo que temos enquanto seres vivos. Woody Allen, por exemplo, disse um dia nada ter contra a morte, mas não queria lá estar quando acontecesse. Ironia à parte, as questões relacionadas com a “última viagem” têm preenchido parte importante da reflexão da filosofia, da ciência, da medicina, das artes, da literatura, da religião.

Sem querer ser académico ou eclesiástico sobre a matéria, o que esta semana (me) proponho é uma viagem a uma morte anunciada. O protagonista: George William Hall, o narrador: a câmara de Edgar Barens; a viagem chama-se “Prison Terminal – The Last Days of Private Jack Hall”, o resultado é um notável documentário de 2013 exibido com a chancela da HBO.

George “Jack” Hall em “Prison Terminal – The Last Days of Private Jack Hall”

George “Jack” Hall em “Prison Terminal – The Last Days of Private Jack Hall”

d.r.

Proponho um primeiro foco sobre a figura de George “Jack” Hall. Veterano da II Guerra Mundial ao serviço do exército norte-americano, o conflito valeu-lhe uma comissão de 4 anos de serviço e um impressionante conjunto de distinções: Medalha da Campanha de África, Medalha da Campanha da Europa, Medalha de Prisioneiro de Guerra. Só que Jack Hall era também, à data do documentário, o preso número 801309 da Penitenciária Estatal do Iowa, uma das mais antigas cadeias alta segurança dos Estados Unidos.

Aos 82 anos, o soldado Jack cumpria há 21 uma pena de prisão perpétua por homicídio. O seu filho mais novo, viciado em droga, suicidara-se e Jack pôs fim à vida do traficante. A sua própria vida estava, também ela, periclitante. Octogenário com um passado de álcool e tabagismo, o soldado Jack era uma amostra longínqua da fotografia colorizada que mostrava um jovem de uniforme e com olhar matreiro e sorridente. Há 12 anos que Jack vivia na enfermaria da penitenciária. Uma pneumonia agravou-lhe o estado de saúde e respirar tornou-se um desafio cada vez mais insuportável. Foi deste modo que o frágil Jack se tornou residente do hospício criado no seio da própria comunidade prisional, uma iniciativa nascida de donativos particulares e do contributo dos próprios detidos. Com cerca de 20 mil idosos dentro das prisões, a criação de instalações específicas para doentes terminais é uma prática que tende a estender-se progressivamente a mais cadeias dos Estados Unidos.

É este mundo novo e admirável que percorremos ao longo de 40 minutos sob o olhar cru de um documentário nomeado para os Óscares na cerimónia de 2014. E o que vemos através dele é uma espécie de redenção nascida não se sabe exatamente como nem porquê, em homens cerceados na sua liberdade para sempre: os cuidadores da ala mencionada cumprem penas de prisão perpétua por homicídio e rapto. O passado de cada um deles torna-se então presente, enquanto tempo e enquanto dádiva, e são eles que acolhem os últimos dias do soldado Jack Hall.

Foram exatamente 14. Ao longo de todos e de cada um deles assistimos, compungidos e desconfortavelmente embaraçados, ao último percurso de uma existência que se extingue sem pudor, inexorável e carregada de dor miserável mas não miserabilista. A suave resignação de Jack, aliada à consciente serenidade de quem o rodeia, tornam a derradeira jornada do paciente e do detido numa espécie de viagem irreal dentro do confinamento de liberdade que é um estabelecimento prisional.

“Prison Terminal – The Last Days of Private Jack Hall” não é um objeto suscetível de agradar a todos os públicos, nomeadamente e por razões óbvias aos mais sensíveis. Não há dissimulações, não há embelezamento de nenhuma espécie, não há encanto ou desencanto: o que este trabalho revela (logo, não esconde) é um penoso ritual de despedida que muitos podem considerar chocante ou de alguma forma voyeurista; mas por uma qualquer razão que sou incapaz de discernir com rigor, a sensação que fica é a de um documento, de um testemunho que nos lembra que a dignidade é algo que construímos dentro de nós, e não nas construções que nos rodeiam.

É também a história da mais universal das certezas. “Tenho a certeza que vou sair deste sítio”, diz Jack. “Num caixão, acrescenta.” O mesmo Jack que, num raro momento em que lembra o seu passado de militar, manifesta uma outra convicção: “Não vou parar ao inferno. Porque já lá estive.”