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E o vencedor é… Chris Rock

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EM FORMA. Chris Rock na apresentação dos Óscares

reuters

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Ontem à noite todos ganharam. “Mad Max” venceu seis-Óscares-seis, Iñárritu bisou como apenas John Ford e Joseph Mankiewicz bisaram e Leonardo DiCaprio conquistou, finalmente, o que já tinha perdido quatro vezes. Se havia alguém que tinha algo a perder, esse alguém era Chris Rock, o apresentador.

O ambiente de tensão que se gerou em torno desta cerimónia de entrega dos prémios da Academia esteve perto de se tornar ensurdecedor. Havia ameaças de boicote – Spike Lee, por exemplo, foi visto no jogo dos Knicks que se realizava ao mesmo tempo, a alguns quilómetros do Dolby Theatre – senão mesmo de motim. Antes da cerimónia começar, aguardavam-se os discursos inflamados, os mesmos que servem os noticiários do dia seguinte. Facto: não existia nenhum negro entre os nomeados.

Para o apresentador, que assumia a função pela segunda vez, os Óscares só podiam ser um pau de dois bicos. E morria ele ou morria ele. Nada disso. Chris Rock foi direito ao assunto e fez um dois em um. Um: nunca escondeu o assunto. Dois: teve sempre arte para o relativizar. Só os grandes humoristas o conseguem. Sobretudo em noites tão sérias quanto esta, em que desfilaram causas atrás de causas, lutas em cima de lutas. Não foi só o #OscarsSoWhite ou o #BlackLivesMatter que estiveram em cima do palco. Por lá também desfilaram a luta contra os abusos (na profissional apresentação do vice-presidente dos EUA, John Biden, e na ardente prestação de Lady Gaga), a fé no jornalismo de investigação (na vitória de “O Caso Spotlight”), o fim da utilização dos combustíveis fósseis (nos agradecimentos de DiCaprio), os direitos da comunidade LGBT (na hora de Sam Smith).

No meio de tanta refrega, ninguém se safou como Chris Rock. Ora aqui vão exemplos do exemplar monólogo que tradicionalmente abre a cerimónia (em tradução mais do que livre): “Mas eis a verdadeira questão. A questão que toda a gente quer saber, que toda a gente no mundo quer saber: Hollywood é racista? Hollywood é racista? (…) É, é racista à sua maneira.”

Ainda antes, logo a abrir, mas de acordo com a mesma retórica. “Porque protestamos nós? A grande questão é: porquê estes Óscares? porquê estes? são os 88º Prémios da Academia. São os 88º Prémios da Academia e isso quer dizer que não existiram negros nomeados em outras 71 ocasiões. OK? (…) Houve anos em que não aconteceu. E não aconteceu porque na altura tínhamos coisas reais para protestar, sabes? Tínhamos coisas reais para protestar e estávamos demasiado ocupados a ser violados e a ser linchados para nos interessarmos sobre quem era o melhor cenografista. Sabes que quando a tua avó está pendurada numa árvore, é muito mais difícil preocupares-te com quem vai ganhar o prémio para melhor documentário estrangeiro de curta duração.”

Nunca tinha encontrado graça ou especial piada em Chris Rock. Mas então percebi o que há um par de anos Kelefa Sanneh escreveu sobre ele na “The New Yorker”. Ele é qualquer coisa entre Woody Allen e Tupac Shakur. Porque tem a coragem deste último e a falsa candura do primeiro. O humor de um e o egotismo dos dois. É profundamente nova-iorquino e escreve (e fala, e canta) sobre isso como se estivesse a fazer rap. Este ano, calhou-lhe a fava. Na verdade, para ele, a apresentação desta edição dos Óscares podia ter resultado numa grande alhada. Mas fez uma faena e saiu em ombros depois de cortar rabos e orelhas. De um lado e do outro.

Por isso a vitória dele vale muito mais do que a de Leonardo DiCaprio ou de Alexandre Iñárritu. Porque lhe saiu realmente do pelo.

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o seu envolvimento, como advogado, num famoso caso de pedofilia que foi revelado por uma investigação do diário “Boston Globe” em 2002. O editor da equipa especial que realizou a investigação, Walter Robinson, também falou connosco sobre essa história agora retratada em “O Caso Spotlight”, que ganhou o Óscar de Melhor Filme. Recuperamos um artigo publicado na edição impressa de 30 de janeiro

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