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Fantasmas do passado e da globalização

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O cinema coreano mostra frequentemente como o trauma da guerra de 1950 foi profundo. Já o género fantástico brasileiro inspira-se mais em Holywood que no imaginário local

Entre 1950 e 1953 a península coreana foi devastada por uma guerra em que interveio meio mundo: forças da ONU com efectivos dos EUA, Reino Unido, Austrália, França, etc, tropas chinesas, pilotos russos, para além das forças norte e sul-coreanas. O saldo foram quase dois milhões de mortos, o território devastado e o regresso à linha de demarcação anterior ao conflito. A fronteira entre a Coreia do Norte e a do Sul, a chamada Zona Desmilitarizada, é a última fronteira da Guerra Fria. Em bom rigor a Guerra da Coreia nunca acabou porque houve apenas um armistício e não um tratado de paz.

Seria de espantar que um trauma desta dimensão não fosse perceptível através do cinema. Já o ano passado um dos filmes exibidos, salvo erro “One on One”, tinha a cena final nos entrincheiramentos do tempo da guerra que foram musealizados nas colinas em torna de Seoul, a capital do Sul. Este ano, um filme sobre fantasmas, possessões e exorcismos, “The Chosen, Forbidden Cave”, de Kim Hwi, situa o início da maldição no massacre de pescadores numa ilha, acusados pelas tropas governamentais de serem simpatizantes comunistas.

Uma vez mais se confirma que os piores monstros são as pessoas e não os seres míticos em que estas projectam as suas fantasias e frustrações. Um belo filme, este “The Chosen” que os absurdos da distribuição cinematográfica fazem com que só possamos ver em festivais como o Fantasporto.

'13 histórias estranhas'

'13 histórias estranhas'

Marco.Novack

Do Brasil, que este ano esteve representado em força no festival, vieram as “13 Histórias Estranhas”, uma amálgama de produções independentes mas tendo como tema o horror e o fantástico. Pela lei dos grandes números, em 13 algumas haviam de escapar. É o caso da primeira (sobre os pesadelos de um “serial killer”), da última (sobre uma bobina com um filme amaldiçoado), da penúltima (sobre um vendedor de casas e o seu cão) e de uma outra sobre um sertanejo que um dia acorda com os ouvidos cheios de larvas. O resto, enfim…

O que é curioso é o facto de a maior parte das referências destes filmes terem mais a ver com mitos globais do cinema (adoradores do diabo, extra-terrestres, bruxas, etc) que com o rico imaginário popular brasileiro que encontramos na literatura, a começar por Jorge Amado: a mula-sem-cabeça, os orixás, iemanjá, as mães e pais de santo e por aí fora.

Amanhã ao almoço deverão ser conhecidos os filmes premiados nesta 36ª edição do Fantasporto, coisa da qual vos darei conta na minha última crónica