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Zombies à japonesa e fantasmas à sueca

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O cinema fantástico continua em pleno na 36ª edição do Fantasporto. Agora foi a vez dos mortos-vivos e das assombrações

Há pelo menos duas coisas que os japoneses sabem fazer melhor que ninguém: automóveis e banda desenhada, as famosas Manga. Donde, só se pode esperar o melhor da transposição para o cinema de álbuns de terror vindos do país do sol nascente.

Foi o caso de “I am a Hero” de Sinshuke Sako, uma produção da Toho, uma companhia que mostrou que não brinca em serviço, pois deslocou meios impressionantes para a estreia mundial do filme, aqui ocorrida no Porto: entre o realizador, o autor da BD em que o filme se inspirou (Kengo Hanazawa), equipas de filmagem, actores e gente das relações públicas não eram menos de 30. Outra coisa não era de esperar de uma produtora que já trabalhou com Kurosawa, Ozu, Misoguchi, etc.

Tivemos um filme a merecer um Oscar? Não tanto, mas apesar de tudo uma fita muito bem realizada e divertida, com um movimento impressionante, algumas piscadelas de olho a filmes recentes como “A Guerra Z” e capacidade para gozar com o género, como quando um dos sobreviventes que se esforça em vão por dar cabo da cabeça de um zombie à marretada diz: “Que chatice! Se fosse nos Estados Unidos bastava uma martelada…”

Numa vertente completamente diferente, para não dizer oposta, um dos melhores filmes que passou neste festival: “Sensoria” do sueco Christian Hallman. Uma clássica história de fantasmas mas onde a casa assombrada não é uma mansão decrépita no meio dos bosques mas um andar num moderno bloco de apartamentos. Notável, o clima criado recorrendo, não à máquina dos efeitos especiais capaz de fazer surgir do nada tentáculos deslizantes ou dragões a deitar baba pelo nariz, mas a barulhos, sombras e luzes aparentemente naturais. Qual de nós não se sentiu já incomodado ou desconfortável sem saber explicar porquê ao dormir num local desconhecido, seja este um quarto de hotel ou um apartamento?

Uma referência final para outra carta fora do baralho: “Laut” de Luigi Lagdameo Inacio, um interessante filme filipino sobre uma comunidade marginalizada que vive de expedientes, da mendicidade e às vezes do roubo. Muitas vezes incomodamo-nos com os desgraçados que nos
assediam nas ruas mas este filme põe-nos na pele deles e obriga-nos a pensar.