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O novo fôlego das Correntes d'Escritas

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José Carlos Marques / CMPV2016

No ano do regresso ao formato original, com mais dias de programação, mais atividades e mais debates, o maior encontro literário do país voltou a revelar uma invulgar comunhão com o seu público

À porta do Cine-Teatro Garrett, no centro da Póvoa de Varzim, a fila estende-se quase até ao fim da rua. Falta meia hora para que as portas se abram, mas há quem prefira ficar ao frio e à chuva, único modo de garantir um lugar sentado na plateia. Mesmo em dias de semana, com sessões a meio da manhã ou da tarde, a lotação do teatro esgota sempre e há mesmo quem assista aos debates literários sentado nos degraus das escadas. É o famoso “milagre” das Correntes d'Escritas, um encontro de literatura de expressão ibero-americana, cuja 17.ª edição decorreu de 23 a 27 de Fevereiro.

Luís Diamantino, vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, confessou ao Expresso estar muito satisfeito com o “regresso às origens” empreendido este ano, depois de uma fase de retraimento na programação, devido a restrições orçamentais. “Houve um crescimento. Espalhámo-nos mais pela cidade. Aumentou-se o número de debates (11 mesas) e as atividades paralelas.” Houve, por exemplo, um mini-autocarro que circulou pelos locais turísticos da Póvoa de Varzim, com atores a dizer poesia. “Mantendo a base, a coluna vertebral, vamos inovando. E para o ano, ao fazermos 18 anos, que equivale a atingir a maioridade, a aposta será ainda mais forte.”

O facto de nos últimos tempos se terem multiplicado os festivais literários de formato semelhante, um pouco por todo o país, não o assusta nem incomoda. “Não há rivalidade, pelo contrário. Quantos mais encontros houver, melhor. Todos lutamos pelo mesmo: a promoção dos livros e da leitura. Mas uma relação intensa de afecto entre escritores, editores e público, como a que vemos aqui, não nasce de um dia para o outro. Digo sempre que a cultura não pega de estaca, só pega de raiz. É preciso tempo. É preciso criar uma massa crítica. E foi isso que fizemos.”

O livro: acelerador de partículas

Como sempre, o encontro teve início com uma conferência de abertura, proferida por um convidado de grande prestígio intelectual. Desta vez, a honra coube a José Tolentino Mendonça, que defendeu a importância do “silêncio dos livros” na luta contra as “enfermidades do nosso tempo”. Depois das doenças bacteriais e virais, que foram sendo dominadas ao longo do século XX, assistimos agora à emergência de novos males: os que nascem de uma “atrofia dos sentidos”. Atrofia provocada, no entender de Tolentino Mendonça, pelo excesso de estimulação que exaure a capacidade de sentir, conduzindo a um estado de astenia, de adormecimento, a um “analfabetismo emocional”. O que o conferencista propõe é uma “educação dos sentidos” que valorize experiências como as do silêncio ou da dor, essenciais para tornar plena uma “arte de viver”. Já na fase de resposta às perguntas do público, o poeta e ensaísta ofereceu dois inesperados 'soundbytes'. Primeiro, quando sugeriu que um bom livro pode funcionar, para o leitor, como um “acelerador de partículas”, um instrumento inteligente que ajuda a compreender a complexidade do mundo. E de novo quando defendeu uma ideia curiosa: “Sonho com o dia em que o silêncio seja declarado património imaterial da humanidade.”

José Carlos Marques / CMPV2016

Do “Governo Sombra” à luz de um avô

Depois de Hélia Correia, Manuel Alegre (em estreia nas Correntes) e o escritor brasileiro Antônio Torres terem debatido a importância da “catarse”, tanto nas respectivas obras como no teatro clássico grego, o primeiro dia do encontro acabou em beleza com uma sessão pública do programa televisivo “Governo Sombra”, que juntou em palco Carlos Vaz Marques, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, com este último a assumir, por uma vez, a função de moderador de uma conversa improvisada e cheia de provocações entre os participantes, que arrancou muitas gargalhadas do público.

As restantes nove mesas tiveram os seus momentos altos e menos altos, mas a qualidade média das intervenções foi bastante razoável. Destaque para a interessantíssima conversa, cara a cara, entre dois escritores espanhóis, José Manuel Fajardo e Javier Cercas (a quem foi atribuído o Prémio Casino da Póvoa/Correntes d'Escritas 2016, pelo romance “As Leis da Fronteira”). Foi talvez o melhor momento da edição deste ano. Mas houve outros que ficarão na memória. Como a presença enérgica e muito expressiva de Mayra Santos-Febres, escritora de Porto Rico, que, além de falar sobre os dilemas da literatura caribenha, divertiu a audiência com referências à sua vida sentimental (“Troco de marido a cada sete anos e levo sempre os novos candidatos a um restaurante grego com uma porta nos fundos, para eu poder fugir, se o encontro correr mal”). Ou as palavras certeiras de uma autora de literatura infantil, Raquel Patriarca, bibliotecária de profissão, que leu o mais belo e comovente texto de entre todos os que ouvimos. Uma elegia sobre a importância dos livros, mas mais ainda sobre a relação terna e luminosa com o seu avô, que a ensinou a encadernar volumes e a arrumá-los na estante, segundo um peculiar sistema de catalogação.

Uma medalha coletiva

Presente na sessão de abertura das Correntes d'Escritas, o ministro da Cultura, João Soares, atribuiu uma medalha de mérito cultural a Manuela Ribeiro, organizadora do encontro desde a primeira hora. “É muito importante que exista apoio institucional e reconhecimento do trabalho que vimos fazendo, mas eu não vejo esta medalha como uma distinção individual. As coisas nunca se fazem isoladamente. Nas Correntes, fazemos tudo em equipa. Uma equipa de uma entrega total e que chega ao fim destes dias exausta mas feliz, porque não descansam um segundo para que tudo corra pelo melhor. Eles sabem que a medalha também é deles.”

Num ano em que o encontro voltou a crescer, Manuela Ribeiro destaca a resiliência que as Correntes tiveram nos tempos difíceis. “Quando houve necessidade de fazer contenção, não baixámos os braços e fomos à procura de outro tipo de apoios, nomeadamente junto de entidades relacionadas com o turismo. E valeu a pena resistir. Se agora assistimos a um novo impulso, a uma vontade renovada de crescer, é porque nunca desistimos.”